quarta-feira, 23 de novembro de 2016

AQUELE FIO BRANCO...

  
          Acordou às oito e meia. Escovou os dentes, como sempre. Olhou no espelho,
          como sempre. E sorriu, para ficar engraçadinha...
          Bastou encontrar um fio de cabelo branco e o seu mundo veio abaixo.
          Feito um casaco de chumbo grosso em suas costas. Justo no dia que completava
          trinta e cinco anos.
          Um cabelo branco! E uma ruga de expressão mais acentuada no canto da boca.
          Logo lembrou da dor na lombar da semana passada. E junto com todo o pacote,
          a carta do plano de saúde avisando do reajuste quântico, pós trinta e cinco. 
          Imediatamente pensou no seu aniversário. E que, ao invés das cervejas, seria melhor
          congelar seus ório de 325 anos e que teria que congelar e lembrou da dor na lombar da semana passada. m suas costas. vulos, caso quisesse engravidar depois dos quarenta!
          Saiu de casa com a adrenalina saltando pelos poros. Decidiu não chamar uber,
          nem táxi. A pé até o metrô iria demorar mais tempo para seguir ruminando o
          acontecimento.
          Dentro do trem, as estações iam passando, incrivelmente velozes. Como as estações
          do tempo. Da vida...
          Era tudo que não precisava. Ansiedade e envelhecimento precoce. Bem no dia do 
          aniversário!
          Olhava pelo vidro do metrô para ver se via o seu cabelo branco. Nem ela, nem ninguém
          via. Mas estava lá. Escondido e real.
          Chegou ao trabalho e deu de cara com o Marcos. Aquele que “podia ser que fosse algo
          mais”.  Mas nunca foi...
          Não era paixão, ela sabia. Mas era tanta parceria, tanta coisa em comum...
          Resolveu, então, pela primeira vez, dar um sorriso e um viés de esperança.
          No final da tarde, o bolo e a festinha de sempre. Com as piadas, de sempre.
          Quando enfim chegou em casa, exausta, tirou os sapatos e foi olhar novamente o seu 
          cabelo branco no espelho. Agora mais serena, olhou-o como um presente.
          Sorriu, para ficar engraçadinha...
          E antes de sair para festejar, pegou uma caneta, preparando a lista:
          Matricular-se no curso de dança. Aprender a surfar nos finais de semana. Reclamar do
          plano de saúde. Dar mole pro Marcos. Usar mais o vestido azul que levanta os seios e
          a autoestima.
          E substituir nunca, por talvez, quem sabe...  
          Depois, esticou com carinho o recém descoberto cabelo branco, celebrando a bendita
          finitude que faz a gente andar...
                                              pra frente!!!
 
 
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2 comentários:

  1. Uauuuu! Para a mulher, um divisor de águas, para o homem,muito charme. E para os dois, hora de refletir. Muito legal, Inês!!!

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  2. Você, Inês, tem o poder de transformar tudo em poesia, até um fio de cabelo branco!
    Parabéns! Lindo! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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