quarta-feira, 15 de maio de 2019

NO FUNDO DA GAVETA...


Eu queria achar uma bandana. Lembro de ter guardado naquela gaveta. Não era original. Igual a da Janes Joplin. No festival, em Woodstock...  Mas servia, como rebeldia, para minha fantasia.
O achado, no entanto, devastador, foi o interior daquela gaveta esquecida. Aquela do meio do armário. Aquela que eu só abria até a metade. E que, à bem da verdade, eu via apenas e na frente, algumas meias de seda que me serviam no inverno gelado. Todas, com um fiozinho desfiado. 

Eu fui abrindo a gaveta com cautela... Parecia um movimento interno. Peristáltico. Uma espécie de bulimia. Trazendo de volta coisas não digeridas. Peças guardadas com datas vencidas. Escondidas, há anos... Logo depois das meias, encontrei três pequenos sabonetes. Devem ter sido sachês perfumados. Ganhei, talvez, do namorado? Devem ter sido verdes, ou azulados. Agora, translúcidos, inodoros e amassados. 

Fui abrindo mais a gaveta. Encontrei uma luva. Minúscula. Mal cabia em meu dedo mindinho. Devia ter uns seis anos quando ganhei da minha tia. Estava lá. Com seus dedinhos de sono e incontáveis anos de abandono. Mais pra dentro, lingeries... Duas cintas-ligas! Nunca usei cinta-liga. Mas tinha duas na gaveta. Uma cinza. Outra preta. Os botões não fechavam. Tentei umas cinco ou seis vezes. Não fechavam. Tirei rapidamente da gaveta. E percebi que elas estavam grudadas em um corpete. Bonito. De renda. Preta. Ainda na moda. Se eu usasse. Se eu soubesse que tinha. Se eu lembrasse daquela gaveta... 

Nesse momento, a gaveta já estava se tornando interessante... O que mais esconderia lá dentro?  Nessa altura eu não lembrava mais da bandana... Achei, então, uma gravata borboleta. Preta. Bacana. Para que? Poderia trocar pela bandana? Talvez. Quase no fundo e do lado, lenços masculinos, dobrados. Marca Presidente! Aqueles que os homens, com rinite, usavam antigamente. 
E por fim, por ironia... Achei uma pequena peteca com penas coloridas. Na base almofadada, um bichinho sorrindo, com a frase: bem vinda! Acho que ele sabia que um dia eu o encontraria... 
Quem diria! Por trás de tantas fantasias... Mulher.  Fêmea. Adolescente... A criança! Lá atrás. Escondida. Gritando alegremente: presente!
Ah.. essas gavetas... 



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quarta-feira, 8 de maio de 2019

VOLTO JÁ


Os filhos já eram grandes demais. Os netos, pequenos demais. A esposa lhe dava pouquíssima atenção, cuidando da casa e dos netos. E sempre que podia, lhe dizia não. Com ou sem razão. 

O Nicolau, então, convidou a nora para passear no teleférico naquela tarde linda de domingo, mas ela rejeitou, dizendo que não gostava de altura. E continuou clicando o celular por mais um par de horas... - Deu pra virar criança, agora? Nicolau ainda ouviu da esposa, em claro tom de deboche. 

E lá se foi o coitado pro seu canto com todo o peso da incompreensão, calvície, varizes, aposentadoria e solidão. Nicolau resmungava consigo mesmo. Melhor era cuidar das plantas ou ver televisão. Atividades que ainda lhe deixavam fazer, sem maior complicação. 

Foi na segunda-feira que tudo mudou. Deu um clique no Nicolau. Acordou às oito, tomou café e disse à sua mulher: vou comprar cigarro e já volto! Imaginou o tempo que levaria para comprar um ingresso e ir sozinho, livre, incógnito, passear no teleférico e voltar. Sem nenhum familiar. Pra lhe encher a paciência ou contrariar. 

Mas a vida é tão injusta, não é mesmo, Nicolau? Bem naquele dia, o teleférico deu uma pane. Ficou seis horas parado. Sobre a montanha. Cadeiras no ar! Nunca houve caso igual. Veio repórter. Jornal. TV regional. Cobertura total.... Só dava o Nicolau! Balançando suas pernas roliças a mais de vinte metros de altura... E a família toda, enlouquecida, vendo pela TV toda a aventura e o resgate final. 

E agora, Nicolau? Ninguém te avisou... que cigarro faz mal?
   

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terça-feira, 30 de abril de 2019

SILÊNCIO A DOIS...


Não sei se passaram dez ou quinze minutos. Ou sete horas. Que horas são, agora? Realmente não dei conta. Eu fiquei ali, maravilhosamente em silêncio. Olhando a paisagem, perdida em pensamentos. Ora pensando em nada. Ora viajando por lugares distantes. Indo e vindo na paisagem relaxante. Instante de paz e serenidade. 

Ele, ao meu lado, também em silêncio, olhava a paisagem. Talvez, observando as formas diferentes na silhueta de cada montanha. As nuvens, a bruma, a grama. O horizonte reticente... O silêncio ali cabia tão perfeitamente. Lembrei de um poeta que dizia, com alma e profundidade... O silêncio não pesa onde existe intimidade. 

Não ter que falar. Nem comentar. Nem explicar. Apenas estar. Quietos. Calados. Lado a lado. E o silêncio a nos completar... São momentos em que a vida pede pausa. Depois do stress. Da dor. Da náusea. Depois da festa desgastante. Em que a gente tem que falar. Sorrir. Comer. Cuspir. Ser feliz. Fotografar... E postar! Como é bom silenciar. Ficar quietinha por um momento. Refazendo a alma por dentro. Sozinha, no pensamento... Sem dever a cumprir. Sem meta a alcançar. Só observar. Ser. Estar. Respirar...

Ficamos ali, cada um no seu no silêncio. Porém, juntos, eu e ele. Sem nada a dizer... Foram duas ou três horas... Teriam sido semanas? Ou só alguns minutos de êxtase e brevidade, no melhor silêncio... O silêncio divino. Da cumplicidade!     



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quarta-feira, 24 de abril de 2019

A PORTEIRA E AS CABRITAS...


Eu pedia para repetir sempre a mesma história. Todas as vezes. Com os mesmos detalhes. Meu pai, cansado, reproduzia no seu “brasiliano” meio rouco e com a impaciência “napoletana”, as lendas e histórias do antigo bairro do Brás. Eu sentia em cada palavra e em cada cantinho, saudosamente descrito, um pedacinho da Itália no coração de São Paulo, no coração do meu pai. 

Gente simples. Imigrantes que foram chegando nos navios. Maioria, trabalhadores agrícolas. Que falavam cantado. Gesticulavam com as mãos. E colocavam suas cadeiras nas calçadas aos finais de tarde somente para “parlare”. Muitos deles embarcavam no trem em Santos, passavam pela Estação do Brás e seguiam até Jundiaí, um dos destinos preferidos, por causa do cultivo das uvas e do clima ameno. Os que ficavam no bairro do Brás, em geral, abriam um comércio. Daí surgiram as mais deliciosas pizzarias. Cantinas típicas. Empórios com salames e provolones pendurados, vinhos engarrafados e as toalhas xadrezes quadriculadas, verdes e vermelhas, sobre as mesas... Eu ouvia tudo isso imaginando feito um filme na minha cabeça, esperando ansiosa a história do vendedor de leite de cabra. A porteira do Brás era sinal que o caso estava por chegar... 

Achava incrível o fato dela ser aberta manualmente, depois que o trem Santos-Jundiaí passasse, causando aglomeração de carros, carroças e pessoas ao redor. Meu pai deve ter esbravejado um bocado, esperando, por vezes, a porteira abrir... Já nas ruas mais estreitas, como a do Hipódromo, havia apenas uma cancela. Com acionamento elétrico. O trem passava e dentro de uma cabina, um sujeito acionava para abrir. Foi numa dessas cancelas que o fato se deu... 

Havia um senhor, muito conhecido, que vendia leite de cabras. Muitos imigrantes, de países destroçados pela segunda guerra, vieram começar uma vida nova no Brasil . Esse senhor foi um deles. Um judeu, que passava todas as tardes vendendo leite de cabra. Batia na porta das vendas e das casas. Ordenhava ali. Na hora. O leite quente e fresquinho. Segurava uma corda que abria feito um leque e tinha uma cabrita na ponta de cada uma delas. Eram três cabritinhas. E era comum ele estacionar os animais em alguma local, para tomar água e dar descanso às bichinhas. 

Mas teve um dia que o homem, por descuido, amarrou as cabritas na cancela do trem. E não é que o trem acabou de passar? E a cancela subiu?... Contava meu pai, que as pessoas vinham gritando pela rua: - Chama o moço das cabritas! - Chama o moço! Que as cabritas estão sendo içadas pelo pescoço! Por que não gritaram para descer a cancela? Não seria mais fácil? Não sei. Nunca questionei meu pai. Disse ele que duas cabritas saíram ilesas e só uma ficou levemente ferida. Talvez ele tenha mentido. Sabia o quanto eu ficaria triste com uma tragédia com os animaizinhos. 

Aliás, durante muito tempo, pensei que essa história fosse apenas uma lenda. Invenção de um pai querendo fazer graça. Mas já li relatos do fato nas páginas da web. E sabe como é esse povo italiano feito meu pai quando conta uma história... Vai “parlando, parlando, parlando, parlando”, até que vira “veritá”!


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quarta-feira, 17 de abril de 2019

PONTO NA IMENSIDÃO...


A imensidão me encanta. E me assusta. O céu infinito e o oceano profundo me dão a dimensão justa do meu tamanho no mundo. Pondo ordem nas coisas. Um simples ponto. Micro. Minúsculo! Nesse épico encontro, o meu ego fica tonto. E vai-se embora. Resta o aqui, agora. Perco poderes. Dinheiro. Carro. Cargo. E o pouco da minha própria história... Sou partícula de um todo. Poderoso. Vivo. Majestoso. Sinto a imensidão por dentro. E me comovo. E respeito. 

Deve ser assim olhar de perto as estrelas... No cenário imenso e bonito, incompreensível, do infinito. Entre a luz dos astros e o gigantesco buraco negro. Agora fotografado. Jamais desvendado. Que ainda esconde seus segredos. Atrai. E mete medo! 

Dizem que os astronautas quando retornam, ficam loucos. Ou passam a louvar a Deus. Até os ateus! Não dá pra ficar são, quando se sente a imensidão. A imensidão das cordilheiras... Das dunas... Das cataratas...  E foi assim, no grande cânion de Foz de Iguaçu, meu último contato mais próximo com a imensidão. As águas em queda livre! 

Volumáximo. Volumenso. Volumístico... Precisei inventar palavras para descrever o que foi a sensação daquelas cascatas naturais. Colossais. Jorrando com força máxima. Energizando as rochas e o chão, no dia ensolarado que nos presenteava com incontáveis arco-iris. Ainda isso... Seria alguma espécie de feitiço? 

A vontade era entrar sob as fortes cataratas deixando cair sobre as minhas costas o jorro das toneladas de águas correntes. Lavando e levando tudo. Do corpo e da mente. Dores. Dissabores. Pensamentos antigos. Ancestrais. Hábitos nocivos. E coisinhas banais... Que não nos servem mais. Sobraria, então, o corpo são. E uma alma novinha, mais pura, pra recomeçar... 

A imensidão me encanta. E me assusta... Imensidão das águas. Do céu. Do mar... Que me põe, sempre, no meu justo lugar...     


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                        Rafael Gomes e Inês Bari

terça-feira, 9 de abril de 2019

PEGANDO NO PÉ...


-Frutinha, vovó. Frutinha! Assim, Dudinha entra correndo e fica na pontinha do pé para alcançar, com sua mãozinha delicada, a jaboticaba grudada no tronco da árvore do quintal da sua avó... Ela não imagina a felicidade que é colher a fruta no pé. A magia do alcançar. Sentir o seu toque. Levar à boca e sentir o gosto da natureza, sem nada de sofisticação. E como é cada vez mais raro nos dias de hoje... 

Lembro, na minha infância, dos passeios pelo bairro da Moóca, quando era comum encontrar árvores frutíferas nas ruas, nas casas e nas praças. Tinha uma casa na esquina, de muro verde, com uma caramboleira com galhos na rua. Metade pra dentro e metade pra fora da casa, e que ficava abarrotada. Os moleques subiam no muro pra pegar as mais maduras. Eu, pequena e ágil, era requisitada pelos  adultos para subir em seus ombros, catando as amarelinhas. No chão, dezenas de carambolas pisoteadas. Já azedas e castigadas pelo sol. Ninguém ligava. Era só fruta amassada. 

Havia também um abacateiro na pracinha. Enorme. Ficava perto de um banco de ferro. De vez em quando, assustava algum descuidado. Caia feito um machado. Passava raspando. Rápido e pesado. Dava pra fazer estrago.  Hoje, no condomínio que frequento nos finais de semana, foram plantadas árvores de pitanga, amora e algumas goiabeiras. Quando estão abarrotadas, as crianças, em especial as que já passaram dos cinquenta anos, sobem em seus galhos e colhem no pé as frutas, recordando aqueles momentos mágicos da infância, colocando bocados delas nas mãos e na boca e se fartando das delícias naturais... 

A última fartura, de fruta colhida no pé, eu tive na viagem que fiz ao sul da Bahia. No terreno inclinado do nosso hotel, havia uma imensa árvore de seriguela. Acessível. E abarrotada de frutas madurinhas. Nunca vi tão vermelhas e tão doces. Explodiam na boca de tanto sabor. Na ida e na volta da praia, eu enchia o meu chapéu de palha e ia devorando, uma a uma, as seriguelas exóticas e agrestes. 

Foi assim nos sete dias que fiquei por lá. Até que no último dia, perguntei pra uma camareira que passava... Por quê não vejo nenhum nativo pegar e comer essas seriguelas? -Essa fruta tem veneno, disse ela! – Não tem não, pois estou bem viva, respondi, com duas seriguelas na boca. -Ah, lembrei, retrucou a camareira. O povo daqui diz que quem come essa fruta, não casa! – Olhei para a minha aliança brilhando na mão esquerda, dei risada e enquanto colocava na boca mais umas três ou quatro seriguelas, repondi de forma gulosa e egoista, - Então, deve ser isso... E viva a lenda!




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sexta-feira, 5 de abril de 2019

SEI TUDO O QUE VOU DIZER...


Ela ensaiou horas diante do espelho. Decorou três ou quatro frases de efeito. Algumas tiradas de livros de auto ajuda... Mas que soavam perfeitas em sua boca, cheia de amor, ódio e vingança. Colocou mais algumas palavras duras. Pra machucar mesmo e ferir bem fundo. Depois, se arrependeu e tirou as ofensas direcionadas à  toda a família.  

Ensaiou chorar de um jeito discreto, mas que mostrava, ao mesmo tempo, força e controle emocional. No final, estava com tudo na ponta da língua. Discurso pronto! Caras e bocas... Perfeito para despejar no encontro casual que ela tanto desejava. Cara a cara com seu ex amor! Quem sabe, no saguão de um fino restaurante. Ou no caminho do toillete... 

Ela de vestido vermelho. Cabelos esvoaçantes. Salto alto e olhar sexy. Ele saído do trabalho, cansado e com expressão de tristeza. Então, ela diria tudo que segurou por anos. Sem medo. Tintim por tintim. O quanto foi ferida e magoada. Quanto doeu a traição. Quanto ele foi vil, cruel e desprezível... Um ser insensível! Afinal, nem seis anos, dois meses, cinco dias e dezessete horas haviam conseguido apagar... 

Mas não foi bem assim que se deu. Numa segunda feira, ela no mercadinho do bairro, de bermuda e cabelo amarrado com elástico... Ele de terno preto e óculos escuros, descendo elegantemente do seu carro importado. Reluzente e prateado. Os dois se cruzaram e se entreolharam... 

Ele perguntou, naturalmente: – Quanto tempo! Tudo bem com você?  - Hã, hã...  – O que há? Você está nervosa?  - Hã hã...  – Já sei, quer me dizer alguma coisa. Alguma coisa que eu te fiz? - Não. Nada! Bobagem...  
E engoliu seco por mais uns seis anos, dois meses e muitos dias...



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Agradecimentos a todos que fizeram da Tarde de sábado, dia 31 , na livraria MArtins Fontes, uma grande celebração às mulheres escritoras... 
Obrigada equipe da Chiado Editora... 




Obrigada... sempre!