Páginas

terça-feira, 21 de junho de 2022

QUEM VIU A ÚLTIMA CHAMA?

Era noite de fogueira. Depois da chuva forte de uma semana inteira. Retiramos do armário nossos chapéus de palha e roupas remendadas, aquecidos ao calor das lembranças das festas da infância.

A chama estava viva. Os vizinhos da rua, em lúdica expectativa. Recolhemos as toras de madeira pelos terrenos vazios deixando numa espécie de quintal coberto com um teto quente de lambril. Até sábado, seria um bom tempo de secamento...

As bandeirinhas em papéis de seda coloriam feito Volpi a rua redesenhada. Estavam por toda parte, nos postes, nas árvores, num grande ziguezague. Rua fechada. Carro nenhum passava. Havia um clima de interior, Divisões de tarefas nos pratos da estação. Maria, caldo verde, Antonio, o milho, Tia Rosa, pipoca, Tio João, o quentão.

Sábado veio e anoiteceu. A noite caipira foi se enchendo de estrelas. São límpidas as noites frias de inverno. Brilhantes, como se alguém lavasse as estrelas, lustrasse os astros e pintasse a lua de um branco iluminador.

No meio da rua, a fogueira armada. De quatro em quatro, as toras empilhadas e ligeiramente úmidas davam apreensão. Só um fogo ardendo por dentro lhe daria vida e vigor.

Começaram as tentativas. O fogo pálido surgia e logo sucumbia. Álcool, abanos, gravetos fininhos. Nada adiantava. As crianças decepcionadas começaram a brincar de bola. Outros não ligaram. Comiam, bebiam e falavam. João pegou a viola.

Às duas da madrugada não havia mais nada. Nem gente e comida, nem fogueira e criançada. Exaustos, sentamos resignados na frente das toras ainda inteiras e a viola tocou a última moda seresteira...

De repente o clarão de arrepiar. Um estalo e o crepitar. A chama forte  começava a levantar. O fogo que hipnotiza. Ígnea viva. Que queima e arde os afoitos. Aos poetas e loucos acende os sonhos.

Ficamos olhando a fogueira até o dia clarear.

Muitos não viram. Dormiram...


******************


 DIA 5 DE JULHO, ÁS 17 HORAS...

NA BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO

SESSÃO DE AUTOGRÁFOS DOS LIVROS INESPLICANDO

ESPERO VOCÊS COM MUITO PRAZER...

ESTANDE DA CHIADO BOOKS - GRUPO EDITORAIL ATLÂNTICO

 

 

terça-feira, 7 de junho de 2022

O TERCEIRO AMOR...

Anos de convívio, filhos, conflitos, rosas, risos, espinhos... E o velho casal de amigos, com trinta anos de caminhos corridos, enfim resolveu se casar. Com troca simbólica de alianças e uma mesa com toalha de renda branquinha emprestada para o altar. Juntos na festa, a família completa, primos, tios, netos e netas. Tudo em perfeito improviso... Só agora, decidimos!

No meio da cerimônia pequena e modesta, conversas andavam dispersas, entre taças de champanhe e licor, quando ele, que não era padre, muito menos pastor, começou a falar de amor...

"Para mim, eles são três" De onde veio essa graduação, confesso não sei...
O primeiro amor é feito um bólido. O amor da paixão. Tórrido. Chega com gana e fúria. Mistura de sexo e aventura. É o amor impulsivo, compulsivo. Uma atração sem juizo que não sossega. Mas, depressa se vai, assim como chega.

O segundo amor, completou, é o amor sólido. Construtivo e concreto. Tempo de comprar o terreno e erguer o teto. Ganhar dinheiro. De lamber a cria. O amor que enfrenta crises, noites em branco, solavancos e deslizes. É amor maduro e sereno. Só resiste se não for pequeno.

Vem o amor terceiro... O derradeiro. Chega na idade da contemplação. Muito já se fez. Muito aconteceu. Os filhos casaram. Deu dor nos joelhos. O terceiro neto nasceu... 

A casa ficou vazia. Os remédios juntos, numa vasilha. Sobra somente, o você e eu. O último amor apareceu! O maior e mais profundo. Amor que tudo viveu. Do outro, tudo compreendeu. Nada demais surpreende. Nada mais julga. 
O terceiro amor... é o amor que cuida!





*                                           *                                                  *


VEM AÍ BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO
DE SÃO PAULO!
ESPERO VOCÊS! DIA 5 DE JULHO... 17h
com sessao de autógrafos no estande Chiado Books!

 

terça-feira, 31 de maio de 2022

O MULUNGUÊS DE MULUNGU...

Zeza nasceu, cresceu e aterrissou direto de Mulungu, cidadezinha de nove mil habitantes no interior da Paraiba pra ser minha vizinha em São Paulo. E foi lá que acabou de estudar e se mudenizá, como ela gostava de falar. Aprendeu a cozinhar, virou confeiteira de sucesso depois de um longo tempo de dureza e precisão.  

E Zeza tinha um dialeto especial, o mulunguês, que com o passar dos anos, passei a me acostumar. Ela barria com a bassoura. Fazia chazinho pro figo desagordurá. E todo final de mês pusitava os cheques dos clientes na conta... Não é pusitá, Zeza! É depositar! É isso mesmo, despois eu pusitei no banco.

E não tinha jeito. Fui me adaptando ao mulunguês! Difícil mesmo era entender quando, frequentemente, ela falava com os parentes. O mulunguês corria solto, galopando feito garanhão no pasto do sertão da sua Paraiba. Eu sorria sem nada entender e a Zezé se divertia... Parece ingrêis, mas nóis se entende, dona Inês! 

Zeza tinha um coração maior que o seu sotaque, sua cidade. Eu adorava aquela autenticidade. E também seus repentes, trazendo um docinho gostoso de presente nas tardes quentes.

Quando nasceu seu primeiro neto, o caldo da língua engrossou de vez. Zeza ainda não tinha comprado telefone e a família mulunguense queria saber do rebento. Era Mulungu inteiro ligando pra minha casa o todo tempo. A cobrar, querendo a vovó parabenizar. Tio Zinho. Creilson. Deudete. Jucinha. Jonatan. Luzinete, Zé Calango, Tia Zerina e por ai seguia. Eu entendia só metade das frases e chamava a Zeza correndo, pega aqui que eu não entendo...  

E foi na hora de dar o meu presente pro recém nascido que a Zeza se superou. Eu queria dar algo de valor pra mobiliar o quarto do bebê que com ela e a filha iriam morar. Zeza, compre o que faltar! Ela voltou da empreitada feliz e arretada. Comprou o presente pro menino? Oxê , disse com seu mulunguês cheio de carinho... Deu direitinho. Comprei a cômbida e o belcinho! 

Ah, Zeza, que saudade do seu mulunguês!


************************

 

AGORA TEM O "SITE INESPLICANDO.COM.BR"

MAIS DE 250 CRÔNICAS INESPLICANDO! 
COLUNAS DE CONVIDADOS COM DICAS DE SÉRIES, LIVROS, 
FILMES DE TEVÊ, EVENTOS CULTURAIS...
ALÉM DO DESAFIO LETRA E MÚSICA!

VISITE O SITE INESPLICANDO E VIAJE NAS ARTES...
                                                     

 

quarta-feira, 25 de maio de 2022

CARTA AO MEU IRMÃO...

Caro anjo, irmão. Eu prometi que não seria triste. Uma carta simples. Sem pieguices. Acabei de olhar sua foto de infância. Nela você abraça duas crianças. O primo e o irmão. Você abraçava todo mundo. Nosso porto seguro. Ainda me protege  nessas bandas angelicais onde andas. Campos de lavanda? Casa entre nuvens? Atmosferas que nem faço ideia. Continuo com meus pés fincados aqui na Terra. Mas ouço daqui o bater do seu coração...

Olho suas orelhas. Eram de abano? Ou me engano? Com a idade melhorou. O nariz é que se curvou. Rinite alérgica. Você pingava duas gotas de remédio em cada narina. O lenço dobrado no bolso de trás era Presidente! A tia Zilda dava todo Natal uma caixinha de presente.  

Eu prometi que não seria triste. Só levezas, lembranças banais, sem as partes que doem mais.

Toquei ontem o disco do James Taylor que você comprou com o salário do primeiro emprego. Capa branca. Ouvi inteiro. Depois você deu o dos Beatles. Hard day's night! Você cantava alto demais. Às vezes, imito sua voz e desafino. Você não seria um bom cantor, mas batia um bolão, admito.

O uniforme do Paulistânia ficou comigo. Aquele verde e branco com meião encardido. Não lavo de jeito nenhum. Ficou com o formato do seu pé. O direito, torto de fazer gols. Você descrevia o lance por inteiro. Talvez fosse um bom narrador.

E aquela minha foto de pequena que você levava na carteira, com rabinho de cavalo e um pintinho nas mãos, eu perdi. Ouvi um pio de tristeza aí de cima? Ou foi minha cisma? Prometi que não seria triste. Sem pieguices...

Você viu meus livros publicados? Dois só de crônicas como a mamãe e você gostavam. Em breve vou pro terceiro. Se der, mando um exemplar por um pombo ou anjo mensageiro.

O que está ruim mesmo é o mundo que você, sem desejar, nos deixou. Vírus, política, intolerância e guerra, em proporções estratosféricas. O ser humano vendo o mundo acabar e postando memes no celular. O que são memes? Não vale a pena explicar...

Eu prometi que não seria triste. Vou terminar a carta. Ou por aí tem email? Sei que essa foto sua, no meio da tarde... no campinho da rua, me atropelou de um jeito... deixou sem ar o meu peito.

Até!

 

 *                         *                            *

                       JÁ SABE DA NOVIDADE?


AGORA TEM O "SITE INESPLICANDO.COM.BR"
TUDO NUM SÓ LUGAR...

MAIS DE 250 CRÔNICAS INESPLICANDO! 
COLUNAS DE CONVIDADOS COM DICAS DE SÉRIES, LIVROS, 
FILMES DE TEVÊ, EVENTOS CULTURAIS...
ALÉM DO DESAFIO LETRA E MÚSICA!

PASSE UM TEMPO NO SITE INESPLICANDO... 
E DEIXE SEU RECADO POR LÁ!
                                                     

terça-feira, 17 de maio de 2022

A MENINA E O RÁDIO...

Era minha rotina quase sagrada. Eu levava o rádio de pilha para o quarto todos os dias. Deitava na cama me aninhando nos cobertores, colocando o velho amigo ao lado do travesseiro, quase ao pé do ouvido... Eu sintonizava as ondas curtas. O som se alongava e encurtava. Indo e vindo em diferentes chiados, línguas estranhas, fantasmas que falavam. O sussurrado me encantava e levava além da janela do meu pequeno quarto. A cada fiapo de som eu intuía um lugar, um país, conversas miúdas que prendiam minha atenção. Eu criava um mundo particular a cada girar do botão.

Às vezes, muito claramente eu escutava uma rádio de Berlim ou de Moscou no meio do nada. Alemão ou russo? Eu quase dormindo me indagava. Pequena ainda, não entendia nada de nada.

Girava novamente o botão e a imaginação ondulava. O que viria a seguir? Adorava a surpresa. O que vem na próxima estação? O chiado aumentava... Meu coração batia mais baixinho para ouvir o radinho que falava comigo nas noites silenciosas em casa.

Nas quartas, os jogos de futebol do Rio de Janeiro. Eu ouvia um gol imenso que vinha de longe amplificando. Sentia a explosão do Maracanã inteiro vibrando. Talvez fosse uma mistura de torcida e zumbido reverberando.

Hoje não curto mais as tais ondas curtas. Notícias da Áustria. Folclore da Alemanha. Músicas do Japão. Mas continuo girando o botão num vaievem danado. Sintonizo notícias atuais e prefiro as músicas do passado.

A  velha surpresa do rádio ainda me move. Algumas canções me comovem.  Por isso ele continua por perto. No carro. Na sala. No quarto. Pronto para ser acionado.

E aquele velho radinho de pilha de  botões prateados, está muito bem guardado, no canto esquerdo do grande armário de músicas e sons que trago no peito. Sentimento profundo. Quando no leito, meu coração sintonizava o mundo!


************

As chamadas ondas curtas utilizam frequências compreendidas entre os 3 000 kHz, a frequência acima da qual predomina a propagação ionosférica, e os 30 000 kHz (3 - 30 MHz).[1] A reflexão na ionosfera permite cobrir extensas regiões e atingir pontos da superfície terrestre situados a milhares de quilómetros de distância a partir de uma única antena emissora.


*************

PASSE UM TEMPO NO SITE INESPLICANDO.COM.BR 

LEIA AS CRÔNICAS INESPLICANDO QUE VOCÊ MAIS GOSTA,

VEJA AS DICAS DE SÉRIES, FILMES E TEVÊ... 

E CURTA O DESAFIO LETRA E MÚSICA! 


 

 

terça-feira, 10 de maio de 2022

BENÇÃO À PALMEIRA

Toco a palmeira com a mão como quem abençoa o filho crescido. Trocamos energia. Seu cerne vibra comigo. Será que foi a lenda do Joazinho? Meu pé de feijão ruma ao infinito?

Meu terreno era mal aterrado. Só tinha entulho, madeira, ferro retorcido. Pouca terra boa num chão vazio e batido. Ganhei a palmeira magrinha. Trouxe de pequena. O jardineiro sem certeza disse que era real e que chegava a seis metros apenas. Engano ou brincadeira?

Veio com três folhinhas amarrotadas e finas. O tronco mais parecia cintura de bailarina. Fizemos o buraco e plantamos abençoando com a água da chuva que caia. Nossas roupas sujas de terra coloriam o batismo da filha. 

E não é que a lenda se refez? A espichada foi crescendo. Tronco alargando, cheio de água retumbando. Anéis em expansão. Abraçar, quem dera. Não consigo mais não. Olho para o céu para avistar suas folhas grandes que acenam e balançam.Querem me dizer... sou eu, olá! Cresci, mas continuo te amando. 

Sinto saudades de quando era pequenina e eu podia circundar seu tronco com meus braços e acariciar suas folhinhas. O tempo passa, crescem rápido as criancinhas.

Disse um amigo olhando a palmeira, que subindo ao topo eu posso achar o pote de ouro. Que tolo! O pote já está no meu jardim. Nas primaveras. Nas helicônias. No flamboyant que acolhe os colibris. Nas bromélias e nas suculentas espalhadas aqui e ali...

Até meu coqueiro anão cresceu. Ficou alto e forte. Dá vinte a trinta cocos em cada ramada. De anão, não tem nada. Coisa engraçada. Acho que  jogaram um fermento muito do bom. Ou é coisa de um Deus brincalhão?  

 Abraço árvores. Toco arbustos. Beijo flor. Gosto de sentir o enlace. E sem qualquer pudor... na grama verde minha alma se rende e faz amor!

********************
 


OBRIGADA!

 265 MIL LEITURAS NO BLOG!

AGUARDEM MAIS SURPRESAS...

segunda-feira, 2 de maio de 2022

O CAÇADOR DAS AREIAS...


Eram centenas de buraquinhos. Uns quietinhos. Outros borrifavam água em esguichos, outros a borbulhar. Sinais de vida em minúsculas cavernas com bichinhos entocados a respirar? Eu e minha curiosidade andávamos calmamente nas areias molhadas da beira mar.,,

Um pescador apareceu ao lado. Pés enrugados. Rosto de sol e sal. Na mão um tubo improvisado feito bomba de sucção. De buraco em buraco ia fazendo sua rústica prospecção. Sou o Zédasisca! Demorei pra entender a autodenominação. Bom dia, Zé! Isso se come? Sorriu com os dentes falhos à mostra... Os “Peixe Gosta”!

É o tal de pitú? Pitú é de água doce, moça. Eu cato é corrupto. No Brasil tem muito. Aqui na praia, só alguns. Igual no Senado, também é difícil de pegar. Sorriu. Se esperar uns dez furos eu acho um! Aguardei com curiosidade, achando graça e muita verdade. Na calmaria da praia, um papo bom de pescador, caça e caçador...

Deus é pai e o mar meu patrão. É dura a profissão. De dezembro até março, só dá maré à noite. E à noite eu não venho não. Cato de março em diante. Olha só que corrupto grandão...

Da boca do tubo no meio da areia molhada saiu o bichão esquisito cheio de pernas e cor rosada. Feio pra danar. O Zé pegou com a mão, me mostrando de perto e colocando num latão. Esse corrupto não faz mal a ninguém. Ajuda a pescar garoupa, corvina, robalo, badejo e Merluza. Quinze reais a dúzia!

Agradeci a aula de pesca artesanal, dei lhe um sorriso de tchau e segui caminhando, pés descalços na água e no sal, lembrando dos buraquinhos na areia, dos corruptos e das risadas pescadas na minha inocência. 

Eu achando que era Pitu. Ele achando graça... O único pitu que eu cato moça... é cachaça!

 

****************************


O SITE INESPLICANDO REUNE TODAS AS CRÔNICAS DO BLOGUE!

VAI LÁ ESPIAR...

inesplicando.com.br