quarta-feira, 1 de junho de 2016

ONDE ANDA A ANTA?

                               
                                                                                                 
Não era uma pegada qualquer. Era uma pegada enorme.
Na minha cabeça, então, tomada de surpresa e receio, diante daqueles vestígios sulcados
na terra, era como se fossem pegadas de um urso ou de uma onça pintada. Não poderia ser. Não existem ursos no litoral de São Paulo. Nem mesmo ali, colado na mata atlântica. E as onças, bem, quanto as onças, eu tenho minhas dúvidas...

Mas aquelas pegadas apareceram numa bela manhã, num pedaço estreito de terra que mais tarde se transformou num lindo jardim, bem na lateral da casa de praia que tínhamos acabado de construir.  Tinha uma, duas, três pegadas e seguiam em direção ao terreno ao lado, floresta ainda virgem.

Depois de algumas opiniões e da observação de que era uma pegada ungulada, de mamífero, veio a feliz sensação de que não corríamos risco. À noite então, o mistério se desfez por completo...

Na rua de asfalto em frente a nossa casa, com direito a pocotós lentos e ritmados, ela veio desfilando calmamente. Uma anta! Uma bela anta. Adulta. Que passou altiva, parando na esquina para comer alguns raminhos verdes e sumiu logo depois de ter ganhado pão e carinho dos vizinhos, espantados como nós.
 
A anta morava ali, no nosso condomínio. E tinha direitos e total acesso. Livre. Dona do pedaço que um dia já foi sua casa. 

Meses se passaram e não vimos mais a anta. Onde anda a anta? Aonde a anta anda? Passei a me perguntar brincando com a sonoridade infantil da frase que me divertia mais do que me preocupava.

Deve estar por aí, tomando conta da mata que um dia foi sua. Sua, dos tiê-sangues, saguis, pica-paus que foram espremidos pelos condomínios de casas, ruas urbanizadas e piscinas de cimento. Essas coisas, impróprias para antas andarilhas...
 
E foi numa dessas casas, bem na última, que dava acesso ao pé da mata, que o homem, selvagem, colocou uma cerca de posse e arame farpado: propriedade particular!   
Com seu andar apressado para a casa voltar, a anta se enroscou na cerca e por ali ficou por horas tentando se desvencilhar.
Sem nenhum vizinho amigo para ajudar, passou a noite ali, inteira, a sangrar...
 
Onde anda a anta? A anta morreu.
Deve andar em outro planeta, outras matas. Outros campos.
Em outro melhor lugar, para anta andar...




 

 *             *                *               *                *                *               *                 *               *
 
                  
  
 
 

 

 

8 comentários:

  1. Tadinha..
    O q faz o progresso.. RS
    Adorei..

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O preço a ser pago pelo progresso é cruel e extremamente alto!

      Excluir
  2. Uma pegada...uma observação...uma anta...e uma Inês fantástica, que sabe como poucos, despertar em nós, a curiosidade pelo desfecho da história. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Oh... coitada da Anta ! Inês é incrível sua criatividade nas imagens e pensamentos que transformam em belas histórias e reflexões. Parabéns!

    ResponderExcluir