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terça-feira, 6 de abril de 2021

CASA DA JUREMA

Quando eu vi pela primeira vez aquela lagarta verde listrada com duas anteninhas róseas e olhos pretinhos fazendo um movimento ondular na folha grande do vaso, eu fiquei encantada. Criança pequena, segui com alegria aquele serzinho estranho que andava quase desabando e depois voltava à base, folheando. 

Fui chamar alguém que pudesse me explicar o bichinho diferente, com cílios no corpo e cara redonda de gente. Triste foi ouvir que eu não poderia pegar. Ela queima! Como pode? E eu até lhe dei nome... Jurema!

Jurema queima? Jurema é malvada? Jurema é bichinho e não sabe de nada. Apesar do pesar e da distância imposta, simpatizei com a lagarta verde e rosa e todo dia a procurava entre as folhas e caules. Tinha dias que dormia e não se mexia. Outras vezes, comia e me deixava observar. Fazia buracos nas folhas, minha mãe não iria gostar. Eu protegia a Jurema. Jamais iria contar. 

Foram semanas na companhia da lagarta estranha e seus passeios divertidos. Eu me via nela, olhando as folhas gigantes por ângulos invertidos. E me preparava, também, para o desconhecido.

Num dia cinzento, Jurema desapareceu. Jurema partiu? Morreu? Quem matou minha lagarta? Meu olhar não se aquietou até encontrar a estranha casinha. Um casulo de seda amarronzado no meio do vaso. Lá estava ela e se preparava para se transformar. Virar borboleta! Linda, com duas asas e voar...

Jurema não deu pistas. Não deu na vista. Esperta, me seduziu e se recolheu. Esperou o tempo preciso. Não adiantava acelerar. O tempo no casulo é o tempo certo do maturar.

Domingo cedo comecei a ver Jurema quebrando a sua crisálida e botando a nova cara, ávida, pra fora do lar. Agora tinha outro corpo. Asas moles se desdobraram até endurecer. Tinha novas cores, olhos e desenhos. Foram duas ou três horas observando o processo lento. Privilégio de criança, que não se importa com o tempo.

E Jurema voou. Dei tchau com minhas mãozinhas pequenas e ela partiu cheia de graça. Deixando a lembrança da sua amizade... e o meu sorriso, de ainda... lagarta!

 

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2 comentários:

  1. Inês Bari, sempre curiosa, conseguiu exercitar sua paciência e q privilégio se lembrar até hoje, e principalmente ter visto essa transformação ao vivo...
    Tudo.na hora certa. Adorei.

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  2. "Fazia buracos nas folhas, minha mãe não iria gostar. Eu protegia a Jurema. Jamais iria contar..."
    Maravilhoso, isso!! 🌹🌹
    "Esperou o tempo preciso. Não adiantava acelerar. O tempo no casulo é o tempo certo do maturar."

    "Privilégio de criança, que não se importa com o tempo." Inês, você é brilhante!!!🌹🌹🌹

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