Era visível o despreparo em passar mangas e
colarinhos amarrotados. Mas depois das três primeiras peças, a coisa foi ganhando
técnica e ficando mais rápida.
Primeiro as costas, depois as mangas. Vira de
lado. Agora a frente, os punhos e por fim, o colarinho!
A tarde foi
passando, assim como as roupas, tiradas progressivamente do cesto ao lado. Em
cada peça, um pensamento novo e livre passando na minha cabeça caledoscópica
de mulher, entregue a uma tarefa qualquer.
De início, um lenço vermelho. Vieram
imagens de sangue. Gente assustada, nas mãos de mais um franco atirador.
Cenas de horror. O maluco do Trump que quer armar até professor. Deixa pra lá! Aqui também temos atirador.
No rádio do vizinho, a voz do Datena. O ministro explica a vacina
da febre amarela. A próxima camisa é amarela. Passo com cautela. As costas,
as mangas e parto para a cinza...
Cinza bem escuro. Que filme chato cinquenta
tons de cinza! Livro enjoativo. O filme, um nada. E a moça, coitada! Um rico
com manias de sadismo. Imagino minha tia assistindo. Ela que me levou ver
Império dos sentidos. Todo adolescente queria ver. Achei chato também.
Mais uma peça passada. Agora vem uma saia. É
plissada. O que devo fazer ? Abro cada preguinha? Ou passo por cima? Por cima é
mais fácil. Agora uma peça azul. Azul ou Tam? Piada sem graça. Tenho tanto medo
de avião. Mas, se precisar ir a Portugal? Se ganhar a viagem num prêmio ou
festival? Devo tratar essa fobia. Terapia, que tal?
Vou ligar pra amiga Célia. Ela deve saber. Aliás, ela está on line. Mas se eu
ligar, não acabo de passar. Vem a calça do marido, aquela marrom. Com caldo de
macarrão! Antes isso, que batom. Descuidado. Vai ouvir um bocado.
Por fim vem
a blusa de seda, esvoaçante e com suaves tons de rosa... Lembro das rosas que ele me deu. Do sorriso
lindo e do olhar profundo que é só meu.
Passei o resto das roupas delicadamente
ao som de Debussie. Que não tocou em lugar nenhum. Mas eu ouvi!
Ah, a cabeça da mulher...


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