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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

NÃO FOI TEMPO PERDIDO...


Lennon parou por cinco anos para cuidar do filho Sean. Fazer sua comida e seus caprichos. Caminhar no Central Park, sem Paul, George ou Ringo. 

Paul deu um tempo. Quase um ano. Numa fazenda, cuidando das plantas e dos bichos. Linda, mais que linda, trouxe Paul de volta. Com os Wings e asas renovadas, vieram novas canções, novas jornadas.

Michael Jordan se cansou da NBA. De tanto triplo-duplo que fez. Largou a cesta e no sábado foi jogar baseball. Durou pouco. Jogou mal. Deve ter pensado  nos vinte e quatro segundos em que o tempo estourou.  E em vez da bola,  o pai  enterrou - naquela triste noite, que ele não ganhou. O tempo passou. Air Jordan voltou. E novamente voou.

As pausas... são tempos de espera. Muitas vezes, necessárias. Nas obras de Vivaldi, entre ritmos contagiantes, também sentimos pausas breves e elegantes. Não resistimos por muito tempo na mesma pressa constante.
 
Parei cinco anos aproximadamente, quando cuidei verdadeiramente de alguém. Com todo meu tempo e atenção. Tempo de amor. Delicada dedicação, tendo minha mãe e seu Alzheimer como companhia. Conversas estranhas onde nada, muitas vezes se compreendia. O tempo passava e eu não percebia.

O tempo ilude quem cuida. 
O relógio parava quando eu chegava às três da tarde. O tempo passava sem alarde. Ele insiste em sempre passar. E vai colocando ordem na casa e as coisas no lugar. Regenera o que estava se esgotando. Esgota o que já estava no fundo estragando.

O meu abacate verde amarelou e secou no meio da quarentena. Não comi. Não percebi. Foi rápido feito uma centelha. E a menina Lia, com leucemia, se recuperou depois de seis meses no hospital. A pausa, tratou o mal.

E quando Renato Russo parou na adolescência na cama do seu quarto, semiparalisado, tinha a mãe e o violão do lado. Fez lindas canções pensando em Mônicas e Eduardos. Deixou seu legado. Mais tarde, pausou de vez e partiu.

Cada pausa traz um sentido. 

O tempo gasto por amor... Não é tempo perdido!





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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A PONTE DA MINHA ALDEIA

                                             

Um erro no jornal. O repórter distraído trocou a imagem da Ponte Pensil de São Vicente pela foto da Golden Gate. 

Mas como são diferentes...                 

A Golden Gate não tem moleques atrevidos que pulam soltos e desprotegidos no mar atlântico vicentino, mar de belezas e tantas incertezas.

A Golden Gate não tem no sopé, encravada, a casa das bananadas! Não tem, do lado de lá, junto às filas de carros que andam feito serpente, um bocado de ambulantes e diferentes gentes. Velhos, crianças, jovens, deficientes. Sob o sol escaldante. Ou nas noites frias e cortantes... - Olha a cocada! Limpador de para-brisas. Pano de chão. Bandeirola. Castanha do Pará. Esfregão...

Também não tem, logo alí no Japuí, as Marinas e seus ricos iates. Ao lado de casinhas simples dos pescadores com seus barquinhos de pequeno porte. 

Não, a Ponte Pênsil não é a Golden Gate. Muito menos São Francisco é São Vicente!

A Ponte Pênsil é a cara do Brasil e suas implacáveis diferenças. É o Brasil com todas as suas mazelas. Mas ainda assim, consegue ser bela. E na carona de Fernando Pessoa, pode ser pequena, menor e mais velha, mas é a ponte mais bela, porque é a ponte da minha terra.

Rústica e castigada, como a pele e os olhos dos meninos que dela pulam sem medo e sem porquês. 

A ponte pênsil tem veias de aço e madeira que balança. 

Tanto me alegrava, quando eu passava, criança e agora balança, 

em pensil esperança, como o meu coração!

 



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Retratação foi publicada logo após a postagem ter sido apagada, do facebook 
      
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

QUEM BEBE DESSA ÁGUA...



Um jarro de água e goles de calmaria. O interior de Minas é assim. Minas verte suas águas naturais. Algumas, medicinais. Uma bica em cada canto. Nas praças, nos parques das águas em São Lourenço, Poços de Caldas e Monte Sião. Delícia de região!

As minas d'água possuem milagrosos efeitos. Dizem os moradores satisfeitos, só para nos provocar. Estendo a mão. Provo todas. Porque não? Água boa pra pele, pros cabelos. Água pra curar reumatismo, diabetes, dor nos joelhos. Para curar o estresse. E acalmar o coração. Bebo à exaustão. Vai que cura tudo de uma só vez? Fui com cinquenta anos e volto com uns dezesseis! 

Experimento as alcalinas, suaves e leves. A seguir, as sulfurosas, mal cheirosas, quase não descem. As ferruginosas, com o gosto final de metal. Cabo de guarda chuva mineral. E meu Deus, quanta chuva havia! Era àgua por todos os lados. Nos lagos, riachos, nas bicas e por toda a chuvosa viagem apreciando a mineira paisagem.

Lavamos a alma e o corpo pro ano inteiro. Circuito das águas em fim de fevereiro! Minas em sua essência. Boa prosa, café, bica d'água e pão de queijo! E em cada momento, uma canção de Milton Nascimento. 

No meio do caminho, um desafio sem muito sentido: o poço dos desejos! Escrito na madeira num poço de pedras da velha fazenda. E podiam ser três! Três desejos para satisfazer.

Interrompi minha paz e refleti em silêncio. Pensei em ser jovem outra vez. De melhor? Só o corpo, talvez. Ou, ganhar milhões em dinheiro e ter andar com seguranças, sem poder caminhar em paz pela vizinhança.

Antes do terceiro desejo, parei. Apenas estendi a mão e bebi a água pura que vertia da fonte. Sem pedidos, nem desejos. Apenas entendendo o valor do momento. 

A riqueza, de quem bebe da mãe natureza!



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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

COM QUE ROUPA EU VOU?


Era uma mala grande e vazia. Aberta em frente de casa. Deixada numa noite fria...

O que eu coloco na mala? O vazio me cavocava. Vou pegar duas calças e uma saia. Colocar bem espaçadas. Ainda vai sobrar espaço. Posso colocar uma jaqueta e um casaco. Não sei pra onde vou. E quem me convidou.

Coloco escova de dentes? Cremes? Sabonetes? Coisas de higiene pessoal? Alguns hotéis oferecem. Que hotel será esse? Não há um bilhete, voucher, nem sinal de estadia. Nada além da mala vazia.

Vou colocar livros. Meu vinho favorito. Acho bom colocar bombons. De licor. E se escorrerem pelos tecidos grudando os vestidos? Levo sabão. Tesoura. Linha e agulha. Alguma coisa que faça costura e remende qualquer estrago. Não sei que horas eu parto.

Que tipo de roupa levar? Será sério o lugar? Vestidos longos, sapatos altos, colar. Ou melhor sandália, camiseta velha e uma almofada de sentar. A mala vazia me olha pedindo pra repensar. Coloco perfumes? Ou sementes naturais? Não sei nada mais. Aonde vou? O que vou precisar?

A mala é muito grande. Cabe grandes travesseiros. Devo levar dinheiro? Cheques, cartões? Ou cartas guardadas de amor? Ninguém a meu lado para dizer. Só a agonia da mala vazia prestes a me enlouquecer.

Vou encher de coisas sem muito pensar. Misturar trecos. Objetos. Uns sem sentido, outros de valor. Um secador, um coador, um diploma, uma nota de cem. Meu coelho de pelúcia também. Roupas íntimas! Pode ser que eu fique muitos dias.

Agora sim, a mala está lotada. Abarrotada. Deixada no mesmo lugar. Eu sigo com o vazio de não saber como e quando vou viajar.

Vida e morte. Ambas são assim. Uma mala que a gente carrega e não leva no fim...

 

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

AQUELE DRINK AZUL...


Tá certo que a família estava unida e feliz. E que as crianças eram pequenas e se contentavam em brincar de artistas mirins. Com maquiagens, microfones e imitações dos seus ídolos da tevê.  Mas era tão bom de se ver!
Tá certo que ninguém ficava pendurado no celular, mandando vídeos e trocando mensagens com amigos de fora. Os mais importantes estavam ali e agora. Mas aquele drink azul, unia toda a família.
E todo ano era assim. Natal na casa do irmão mais velho. Às vezes, no mais novo. Às vezes, na casa da mãe. O drink azul abria as comemorações. Lembro vagamente a receita... Soda, gin e Curaçao blue, pra completar. Na borda, açúcar. Ah, e o limão cortadinho, que não podia faltar! 
Tá certo que depois vinham camarões empanados, trazidos pelos cunhados. O bacalhau português, da sogra orgulhosa. A maionese da mãe, tão leve, feita com amor para chegar no ponto certo no liquidificador! E a noite inteira para sorrir e trocar presentes. Presentinhos. A gente não tinha lá muito dinheiro.
Ninguém reclamava das redes. Não havia redes. E os políticos? Deviam agir como sempre. Mas não era esse o assunto da gente. Era sempre aquele drink azul.... Mortal! E hoje, imortal. Abria o apetite e o coração. E tinha algo marinho nele. Cor de oceano profundo. Onde a família, unida, mergulhava feliz e celebrava o mundo. 
Faz um tempão tudo isso. Já não temos mais esses grandes natais na família. As crianças cresceram e passam a festa com outras famílias. Alguns casais se dissolveram. O irmão mais velho se foi... a cunhada, também se foi. A mãe, não consegue mais andar, muito menos fazer uma leve e breve maionese.  
E quando a saudade aperta, eu lembro daquele drink azul... Deve ser culpa dele, essa minha vontade de chorar...   


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

ESTÁ PASSANDO, JÁ PASSOU.

Ontem foi Natal. Hoje é verão. E de repente pulamos o carnaval, embora mal tenhamos tirado a areia dos biquínis e o bocado que restou de sal.

Não dá tempo de guardar o samba das escolas e o outono chega, derrubando folhas e algumas promessas. 

Logo, férias de julho, crianças correndo e eu ainda procurando a tampa do Tupperware perdida no Ano-Novo. Depois vem a primavera, com flores que mal se abrem antes de murchar, e num instante, é Natal outra vez.

O que aconteceu com o tempo? Perdeu o freio? Ou será que o mundo virou um toca-discos com aquela borracha laceada, onde a agulha dança sem controle, pulando faixas e nos deixando tontos? 

Antes, as tardes eram compridas como as saias de nossas avós. Agora, são bermudas curtas, calças cortadas sem muita noção.

A medicina se gaba de nos dar mais anos de vida. Muitos de nós chegarão aos cem, brincando. Que adianta, se os dias saltitam e disparam à nossa frente? Parece ou estão mesmo cada vez mais curtos? Escandalosamente curtos. E rápidos.

Querem que vivamos mais, mas nos tiraram o luxo de viver devagar. 

Não há mais tempo para tardes preguiçosas, para fazer um bolo no forno, para olhar a vida passar sem pressa, feito um barquinho deslizando no rio de Nova Odessa. O tempo agora é o frisson de um mar revolto em Ibiza e nós, náufragos, riscamos aflitos os dias no calendário virtual acelerado.

Houve tardes em que o sol demorava a se pôr, e nós, crianças, acreditávamos que o amanhã estava tão longe quanto a lua. Hoje, estamos sextando em menos de sete dias. Bobeou é sexta de novo.

Corremos para viver mais e nessa pressa, esquecemos de viver a paz. 

Talvez seja hora de parar, desligar o motor, o celular e ouvir o silêncio. Quem sabe o tempo volte a ser nosso aliado. 

Vamos voltar o whatsapp à velocidade normal de uma voz humana e monótona, por que não? E o nosso velho toca-discos, com sua borracha laceada, talvez toque a vida em sua melodia original... 

sem pressa de chegar ao fim.


Crônica feita em 17 minutos e 42 segundos. De repente, passou.


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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

NA CAIXA, POR FAVOR...



As de cinco quilos eram as melhores. 
Difíceis de se abrir. Muitas vezes, só a ponta da faca e um martelinho levantando o grampo de aço devagarzinho e soltando as madeiras. As uvas rosadas estavam lá. Lindas. Intactas. Até mesmo as que ficavam no fundo da caixa. 

Havia também as caixinhas menores. De um ou de dois quilos. Eu esperava o fim de ano para comer aquelas uvas brasileiras, nas caixas de madeira. 
A caixinha de figo também era especial. Menor. De madeira fininha. E espaços do lado. Vinha com um papel roxo por baixo, num tom azulado. Os figos maduros abriam como flores róseas, com mel e sabor. E as maçãs lustrosas e vermelhas, tinham brilho de cera. Divinas. Vinham num caixote grande escrito “manzanas argentinas”. 

As caixas de frutas me trazem recordações. Das antigas feiras, grandes bancas, quitandas. Na minha recente visita ao Mercado de São Paulo, o que chamou minha atenção, mais do que a majestosa arquitetura do antigo prédio e seus vitrais... mais do que o sanduíche mortal de mortadela com suas incontáveis rodelas e o pastel de bacalhau... foram as caixas e caixotes espalhados pelo local. 

Dentro e fora do Mercado. Na caçamba dos caminhões. Pelos corredores, aos montões. Caixas com frutas nordestinas desconhecidas. Além das uvas, melancias. Laranjas. Acerolas. Limões.

Estavam ali, frescas, as lembranças da minha infância. Das feiras. Da fartura. Natais em família e suas tradições. Além da exposição das frutas nas caixas, num outro corredor, achei potes com diferentes ervas. Barris de azeitonas. Picles e conservas.

Diante de tanto sabor, pedi, nostalgicamente ao vendedor : 
- Vê cinco quilos da uva rosada, senhor! 
Mas, na caixa, por favor!




Obs. As caixas utilizadas hoje em dia são feitas apenas de madeira preparada e higienizada. Não permitindo reutilização.
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