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sábado, 10 de junho de 2023

A ÚLTIMA CHAMA DE SÃO JOÃO...

Noite de fogueira. Depois da chuva forte da semana inteira. Sacamos do armário os velhos chapéus de palha e roupas remendadas, aquecidos pelas lembranças das festas da infância. A nossa chama estava viva.

Os vizinhos da rua recolheram as toras de madeira nos terrenos vazios, deixando numa espécie de quintal de teto coberto. Três dias seriam um bom tempo para o secamento.

As bandeirinhas em papéis de seda lembravam Volpi nos postes, nas árvores, num alegre ziguezague. Rua fechada. Carro nenhum passava. Havia um clima de interior. Divisões de tarefas nos pratos da estação. Maria, caldo verde, Tereza, o milho, Tio João, o quentão.

Sábado veio e o céu anoiteceu. A noite caipira foi se enchendo de estrelas. São límpidas as noites frias de inverno. Brilhantes, como se Deus tivesse lavado as estrelas e pintado a lua de um branco fosforescente.

No meio da rua, a fogueira armada. De quatro em quatro, as toras empilhadas e ligeiramente úmidas davam certa apreensão. Só o fogo ardente daria vida à calorosa atração.

Começaram as tentativas. Um fogo pálido surgia e sucumbia. Álcool, abanos, gravetos fininhos. Nada adiantava. As crianças decepcionadas começaram a brincar de bola. Outros não ligaram, bebiam e conversavam. João pegou a viola.

Às duas da madrugada não havia mais nada. Nem gente ou comida. Nem fogueira e criançada. Sentamos resignados na frente das toras ainda inteiras e a viola tocou a última moda...

De repente um clarão de arrepiar. Estalos, crepitar. A chama forte começou levantar. A luz do fogo que hipnotiza. Ígnea viva que queima os afoitos. Acendeu os sonhos dos poetas e dos loucos.

Ficamos olhando a fogueira até o dia clarear.

Mas muitos não viram. Dormiram.


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segunda-feira, 5 de junho de 2023

PONTINHOS NO OLHAR


Olhei seus olhos. Vi pontinhos.

Seriam três de reticências? 

Desviei o olhar                            

com medo de não ver a certeza. 

Lá dentro, não me encontrar.


Olhei seus olhos. Vi pontinhos.

Seriam passarinhos? 

Voando? Voltando pro ninho? 

Debandariam assustados  

num olhar arregalado.  

 

Olhei seus olhos. Vi pontinhos.

Pretinhas jabuticabas? Sementes de maracujá?

Lançadas na pupila côncava   

que acolhia e semeava

em seu doce curvar.

 

Olhei seus olhos. Vi pontinhos.

Agora eram estrelas. 

Planetas. Meteoritos. 

Meus olhos se perderam 

naquele vão infinito.

                                                             

Moveram-se, enfim, os pontinhos. 

Loucos elétrons girando

numa órbita de amor particular. 

Vi dois seres aflitos                

Prestes a colidir 

e se reintegrar.


Iris e Osiris?

Eu e você?

Eram divinos.

Dançaram e se amaram 

na beira do seu cristalino!


                                        Inês Bari


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terça-feira, 30 de maio de 2023

ORA DIREIS... QUE VI ESTRELAS!

Estavam espalhadas na areia. Eu, na infância, chamava de estrela. Estrela do mar. Alguém disse que caiam do céu. Nunca acreditei. Não cheguei a perder o senso, sabia que vinham de um oceano imenso.

As vivas e com cílios em movimento eu devolvia para a água imaginando que pudessem se salvar. As quebradas e já sem vida eu partia ao meio para ver a estrelinha pequenina. Eu não levava pra casa, nem fazia coleção. Eram do mar. Por alguma razão, apareciam no final do verão.

Nome esquisito tem essa espécie de serzinho. Equinodermo! Uma figura tão doce não precisava desse nome. 

Cara redonda parecendo argila e na parte de cima uma geometria bonita, desenhando uma flor. Em baixo, pés ciliados dando movimento para todos os lados. Frágeis e inofensivas vivem e se alimentam no fundo mar. Não têm veneno. Nem espinho tem. Não causam mal a ninguém. As marés fortes as sacodem e as trazem junto com a areia pra fora do seu lugar. Dezenas surgem na beira. Eu dizia que eram estrelas...

Contava uma a uma como se estivessem no céu. Para a maior delas, fazia um pedido especial. Segredo confidencial.

Anos mais tarde, alguém me disse no entanto: " de certo perdeste o senso". Achas que são estrelas? Basta sua forma olhar. Estas são as bolachas do mar.

Sorri. Achando graça. 

Perdi a poesia. Achei as bolachas!

 

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 Ref. Olavo Bilac.         

terça-feira, 23 de maio de 2023

NUM É BAIO, MAS É BÃO!

Um caipira, desses que falam pitando e olhando pro céu, parecia não entender nadica de nada. Parecia.
Foi ele que me ensinou com um balde velho e uma prosa ribeirinha, o ritmo certo de ordenhar a vaquinha. Mostrou como se pega com laço o novilho. Como se colhe a espiga de milho. Além de ser bom de faca! Com ele ninguém mangava. Nem mesmo a vaca.
Era magro e liso feito saruê quando se embrenhava no mato. Tratava com Neguvon, cavalo com berne e carrapato. Não gostava de pombos. Fazia fumaça pra espantar marimbondo. Dava nome pras galinhas... E pra qualquer dorzinha, tinha sempre uma santa plantinha!
Comprou um cavalo branco. Já velho. Era ligeiro e bom corredor em tempos passados, mas agora parecia lerdo e cansado. Também um pouco magro. O caipira lhe dava consolo batendo em seu lombo com a palma da mão...  "A velhice é marvada. Porque o tempo, o tempo escangaia”. O caipira dizia isso com ar de carinho como se dissesse a si mesmo, percebendo ao longo do caminho, a dureza da lida, o desgaste da vida, o andar trupicante e o seu corpo já franzino.  
Guardei pra mim os ensinamentos do caipira e a imagem do cavalo branco meia vida. Olhei no espelho, conferi as minhas ruguinhas já crescidas. O olhar cansado e sonolento. A coluna torta com uma artrose no joelho. Lembrei do caipira e seu velho amigo de pelos. O tempo escangalha mesmo. 
Passado uns meses encontrei os dois companheiros passeando na estrada de terra. Um ao lado do outro. O cavalo ia devagar e mais trôpego. Cumprimentei o caipira que estava brabo que só.                 
- Imagina que o cumpadi queria comprá o meu cavalo. Eu disse que num era baio e que andava devagá. O ômi insistiu. Dizia que ainda servia pra muito saco de mio carregá! Queria pagá cem conto e fazê o coitado trabaiá!!
O que você disse pro moço? - Nada não. Só mostrei facão. O bicho não é baio, mas é bão. E pode trupicá que eu não ligo. 
Quem crê em Deus, nunca que vende um amigo!
 
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terça-feira, 2 de maio de 2023

SABOR BRAZUCA


O mundo mágico não era tão perfeito assim. 

Em nossa primeira visita ao Parque do Mickey, Cinderela e companhia, faltou o toque de quentura. O calor brasileiro. O brazuca, este sim, de magia pura. O café pretinho que desce macio no trabalho e na casa da mãe quando se chega. Ou, no boteco do Zé ou da Tereza.

No Tio Sam, café bom é raridade. Loro por lá pede Coke. Loro que pede café, só aqui mesmo, na brasilidade. 

Depois de um dia extenuante imitando criança, andando por castelos e comendo hot dogs e refrigerantes. Depois das bolhas nos pés, dores nas costas e corações pulsantes, faltava o cafezinho! E não tinha um pinguinho sequer de café. Nos belos restaurantes, nas lanchonetes ou foodtrucks. No coffee. Só Coke! 

A imagem desejada esfumaçava nossas mentes. Servia qualquer tipo de café. O fraco e descafeinado, como os americanos são acostumados. O meio frio e mal passado. Ou tinta preta que não dá nem pra engolir. Servia um pingo qualquer assim.

Os bares do Parque já estavam fechando quando enfim achamos. Pedimos duas xícaras, enquanto estouravam os fogos da parada que encerrava a festa e anunciava o último show do dia. 

Estava frio. Poucos gatos pingados ficaram pra ver a apresentação do B52, quem diria! Com direito a cabelos coloridos e lembranças da New Wave e sua época de magia.

Saboreamos gota a gota a apresentação até o final. Lembrando dos anos oitenta e chacoalhando nossos cabelos já não tão rebeldes e grandes como antes. 

Bastou um pinguinho de café para nós, alegres e dançantes visitantes, aplaudirmos alegres e vibrantes.

Os latinos... desfrutam melhor o sabor das coisas quentes. 


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terça-feira, 25 de abril de 2023

ELE PASSOU O ANEL...

Era a minha melhor amiga. Alta e comprida. Eu era mais baixinha. Uma dupla desproporcional. No coração, nosso tamanho era igual. 

Eu tinha aulas e muitos planos. Ela tinha... um menino dos sonhos.

Íamos juntas todos os dias para o colégio. Eu e ela na sala de aula, as duas coladas na janela. Eu levava meus livros pesados numa mochila azul marinho. Ela só tinha os olhos para um menino.

No recreio, uma grande roda se fez no meio do pátio.  Brincadeira perfeita para se aproximar do garoto e ter um ligeiro contato. Lencinho atrás! Joguei o lenço nela e ela jogou no rapaz.

O milagre acontecia. O menino dos sonhos, atrás dela corria. Mas uma areia fina no chão de cimento deu triste fim ao acontecimento. Ela espatifou-se no chão. A roda se desfez feito um furacão. 

O menino dos sonhos não a pegou nos braços nem tão pouco a socorreu. Peguei uma blusa fina na minha mochila e aliviei com cuidado a sua vergonha e a dor dos joelhos agora machucados.

Passamos mais um longo tempo juntas. No colégio e nos caseiros encontros. Eu lhe ensinava música e biologia e ela, ainda sofria pelo menino dos sonhos.

Mas  na adolescência o tempo passa ligeiro. Veio outra brincadeira. Um novo garoto surgiu. Alto e comprido como ela. Passou o anel em sua mão e seu coração facilmente se derreteu. 

Um novo menino dos sonhos apareceu!

Coloquei meus cadernos pesados dentro da mochila e voltei pelas ruas sorrindo e feliz, agora sozinha. Éramos meninas.

Os sonhos e os amores mudam rápido. Como as meninas... viram as esquinas.

 

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terça-feira, 18 de abril de 2023

O MAR DA MINHA RUA...


No fim da minha rua mora o oceano. Somos vizinhos de porta. 

Ou quase isso. Separados por um  amontoado de pedras que antes se aconchegavam juntinhas e que aos poucos foram se espraiando pela força das águas.  

Da minha varanda vejo um belo recorte do mar. Nos dias azuis, barquinhos e velas cruzam as águas para o sul e para o norte. O toque pontual nessa pintura natural são as cinco ou seis pedras reunidas no meio da linda vista. Equilíbrio perfeito das grandes obras artísticas.

Nos dias carrancudos ouço o desabafo do oceano espumando revoltado. Seu tom mais alto ecoa no silêncio do meu quarto. 

Águas que batem nas pedras com dor e braveza. Ondas de agonia com os limites que o homem cria. As pedras lhe fazem contenção. O mar detesta o não. 

Nestas noites de fúria, ele invade e lambe raivoso até o meio da rua.

A garganta estreita que dá saída para o oceano aberto fica perigosa e sombria. 

Vejo ao longe e aflita um novo cenário que se agita. Ondas gigantes surgem no meio do mar onde antes não havia. Surfistas atrevidos já descobriram. Posso vê-los aos montes, aos domingos.

Andei lendo, sem muita certeza, sobre o mundo líquido de Bauman* e as transformações incessantes da nova realidade. O mundo das incertezas. Nada mais é garantido ou seguro. Tudo se transforma a cada segundo. Vou tentando me adaptar sem muitos danos à esse gelatinoso mundo.  

A areia branca que eu via do lado de lá, sumiu. Uma nova praia do lado de cá ressurgiu. Será que vai voltar pro seu lugar? Ou está fazendo graça, o maleável mar?

Eu vou mantendo meus antigos planos e boiando nesse novo oceano. Mundo líquido. Digital amplificado. IAs e meta-formatos! 

Meu medo é que um dia eu olhe da varanda e o mar tenha saído de lá. 

Caso aconteça, não esquente a cabeça. Nem tente me procurar.

Fui atrás da velha onda do mar.

 

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teoria de Bauman*

https://www.fronteiras.com/entrevistas/a-fluidez-do-mundo-liquido-de-zygmunt-bauman


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