- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho.
As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.
Bastava
eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando
lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando
fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho.
Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.
Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação.
- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.
A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:
- Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!
E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?
Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida.
E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!
Fui embora, pedindo aos
anjos que reforçassem a proteção.
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