Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros...
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- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho.
As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.
Bastava
eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando
lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando
fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho.
Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.
Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação.
- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.
A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:
- Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!
E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?
Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida.
E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!
Fui embora, pedindo aos
anjos que reforçassem a proteção.
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O caminho de terra sombreado pelos galhos acumulava várias camadas de folhas, produzindo um crepitar seco e quebradiço ao pisar. Muitas vezes eu ia com os pés descalços só para tatear. Apreciava o som de cada passo. E o piar de alguns pássaros completando a trilha natural.
As aves entocadas também trocavam suas plumagens. De quem é essa
pena? Sabiá laranjeira, eu dizia sem convicção. Pode ser que sim, ou que não. O
outono é assim...
Nos dias chuvosos a estrada ficava úmida. Também tinha beleza. Era o pisar do macerar. Macieza umectante. Alguns pássaros, ainda que distantes acompanhavam na esperança de algum bichinho na terra, saltitante. Sempre havia um inseto descuidado, coitado.
Eu ia com
minha mãe procurar pinhas para enfeitar o Natal. Mas já? É que as pinhas tem
de descansar. Secar bem, para abrir os gomos por inteiro, feito flores de madeira,
prontas para enfeitar a ceia. E elas estavam lá, espalhadas pela estrada. Algumas
pequenas e quebradas. Outras perfeitas. Colocávamos as melhores no chapéu de
palha. E o sol tímido não esquentava nossas cabeças. O outono é assim...
Levávamos, eu e ela, um cajado. Galho duro que eu
procurava feito detetive no meio do mato. Logo achava um pequeno jogado e ajudava
minha mãe a encontrar um cajado maior e mais largo. Nosso andar era calmo e
cheio de perguntas sem respostas. A cerquinha caiu! Foi o tempo ou foi o vento? Os
dois. O outono é assim...
Hoje, os passeios e o chão de folhas secas ficaram
na lembrança dos outonos da minha infância. Em algum sítio da memória. Tenho
pisado em terrenos mais urbanos. Ouvindo sons de carros e lamentos humanos. As caminhadas
na areia ainda resistem, mas as pisadas somem rapidamente com as ondas do mar.
As folhas, o cajado e minha mãe ao lado, continuam eternos. A saudade bateu hoje em mim.
Foi o tempo ou foi o vento? O outono é
assim...
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Ela subia num degrauzinho de madeira para ficar mais alta e ajudar por alguns minutos no caixa.
A venda da Dona Emília era daquelas
antigas, com prateleiras de madeira escura, grandes sacos de juta com bordas
enroladas, cheios de arroz, feijão e milho em grãos. Latões de óleo. E uma
vitrina de doces coloridos que juntava crianças feito formiguinhas no
açucareiro.
Na lousa preta, na porta principal da venda, escrito
com giz, o chamariz: "Aqui tem, o melhor sorvete de ameixa do Belém!" Devia
ser. Aos sábados fazia fila na venda da Dona Emília.
A casa da família era no andar de cima e perto do meio dia, minha vó subia para aprontar o almoço, entornar as ameixas no leite cremoso e fazer mais um latão do sorvete famoso.
O avô, que tinha
levantado às três da manhã para comprar as mercadorias, acordava a contragosto
e descia para tomar seu posto, até minha mãe, pequenina chegar e se oferecer para ajudar.
As meninas do bairro só pensavam nos vestidos e nos
cabelos de domingo. Minha mãe continuava no caixa, lendo um livro ou um gibi. Foi
assim até a adolescência. As meninas liam revistas. Minha mãe, Machado de
Assis.
A revista Cruzeiro com as estrelas de Hollywood definia a roupa e os cabelos da moda. As costureiras do bairro trabalhavam para reproduzir igualzinho, encontrando os tecidos perfeitos.
Minha mãe escolhia um
vestido antigo que não servia mais para a irmã mais velha e vestia. Dona Emília
ajustava no corpo com a ajuda da velha máquina de costura. Mas o cabelo era a
parte mais dura. Não tinha paciência, nem desenvoltura.
Algumas garotas contavam seus cento e vinte cachinhos.
Sessenta pra cada lado. Ou nem saiam para o desfile de sábado. Ser "Shirley
Temple" ( imagem) dava um trabalho danado. A manhã inteira com bigudins pendurados, pensando nos cachos e nos futuros namorados.
Poucas horas antes do "footing", minha mãe largava os livros e corria para fazer seus oito cachos. Quatro pra cada lado. Nada mais. A tarefa a aborrecia demais.
Pouco antes de sair ela soltava as madeixas. Os
cachos lambidos escorriam da sua cabeça. Ela sorria. Não ligava. Não combinava
com as duras cabeças empoladas.
Meu pai, um dos rapazes cobiçados do bairro do Belém, disse certa vez o que viu de diferente na minha mãe, no meio de tantas divas hollywoodianas com seus cabelos de spray.
Sua mãe tinha a justa medida. No vestido simples, o corpo bonito transparecia. Sua boca alegre sorria.
E o cabelo... ah, o cabelo, natural e leve. O vento desenrolava e ele bailava... e se mexia! O cabelo também sorria.
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Ali, no Centro histórico de Cananéia , algumas verdades aprisionadas ainda ecoam nos casarios mais antigos.
Paredes grossas feitas de pedra, conchas e sambaquis guardam energias densas da escravidão. Muitas casas são hoje rústicos restaurantes e guardam masmorras e tristes objetos no porão.
Servem peixes e a famosa ostra da região. Mas o som dos escravos parece ecoar em nossas mentes. Há uma angústia em quem visita os velados ambientes.
Cananeia é litoral sul paulista, chamada “Cidade Ilustre do Brasil”. Assim como Paraty, carrega histórias nas velhas pedras ascentadas nas ruas e caçadas.
Foi nesse primeiro povoado que viveu o degredado Cosme Fernandes, homem mau, que chegou aqui, antes mesmo de Cabral.
A maioria das casinhas coloniais está conservada e é possível ver nos telhados a antiga divisão social.
Os ricos construíam o telhado com três camadas: eira, beira e tribeira. Os mais pobres — nem eira, nem beira! Daí a expressão que retrata alguém sem posses, sem um tostão na carteira, cuja casa só tem um telhado. Sem eira, nem beira!
A maioria é gente simples, como os pescadores do local.
Um simpático morador nos levou até o Sítio do Cardoso. Lá, a gente chega e escolhe o peixe que vai comer no almoço, feito ali, na hora e no fogo.
Escolhemos paraty e peixe-galo e seguimos em direção à trilha de bromélias e araçás que levava até o mar.
A praia rústica, as armadilhas indígenas feitas de gravetos e os golfinhos ao fundo davam a moldura da natureza preservada e linda.
Uma tartaruga marinha veio nos cumprimentar e dar boas-vindas.
Na volta, o peixe já frito, a cachaça de cataia e um pescador de camarões contando causos do mar.
Tudo simples. Como a gente bem podia ser.
Sem besteira! Nem eira. Nem beira.
Entre as páginas amarelas e o cheiro de papel envelhecido encontrei a flor presa e amassada.
De aparência seca e desmontada, mas ainda flor, embora o tempo lhe tivesse roubado a cor.
Passei a mão com cuidado, como se acariciasse um pássaro, frágil. Tentei lembrar por que a guardei. De quem era? Em que momento da minha vida ela se tornou tão importante para ser preservada? O silêncio alto me incomodava.
Aquela flor sem história não me dizia nada e carregava tantas possibilidades. Lembrança de um encontro no passado? Onde as palavras foram sufocadas e nas páginas, lacradas? Uma paixão breve que deixou seu rastro leve?
Quem sabe, um presente da natureza! Uma flor caída no caminho se dissolveria num jardim vizinho e eu não a deixaria para trás. O livro, então, tornou-se um cofre. Um abrigo onde o tempo não iria tocar.
Ou simplesmente por nada. Eu, criança, tentando esconder a flor roubada. Maldade infantil para ver, um dia, suas pétalas amassadas.
Seca, prensada entre as palavras, a flor guardou sua história dentro de outras histórias. O dia em que foi colhida e a luz do sol que brilhava no dia que sumiu no livro e hibernou.
Eu continuo olhando a flor, murcha e dormente. Nós, humanos somos assim. Guardamos coisas sem motivo aparente e esquecemos as mais importantes.
Fechei o livro. Deixei a flor onde estava. Quieta e deitada, sem interferir.
Não quis movê-la do lugar, como se respeitasse sua missão... de me fazer sentir.
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