Era um gato de rua. Totalmente urbano.
Viveu seis vidas em São Paulo, duas delas na zona leste. Nasceu na Mooca, num telhadinho movimentado, ao som de oito miados: o dele e o dos sete irmãos meio acinzentados.
Depois, vadiou pela zona oeste e terminou as duas últimas vidas na Barra Funda, entre latas imundas e uma marca de pneu nas costas. Atropelado, mais uma vez, graças à sua felina insensatez.
Já lhe faltavam alguns reflexos na sexta vida, e um motorista, sem intenção, desviou de um caminhão na descida. Foi uma traulitada doída. Ele não reclamou. Bateu as botas de novo.
Mas bateu também o medo de estar por uma vida apenas. E o felino das quebradas, acostumado às áreas de risco, entre latas de lixo e gatas sem compromisso, enfim se coçou.
Arrependido das andanças por muros farpados, das mordidas em ratos infectados, dos esgotos de onde saía encharcado… e, principalmente, da fome cruel de algumas vidas — que, como as feridas, doeram no corpo e na alma.
Um pouco de amor aos pelos teria evitado o pior.
Decidiu mudar de ruas. Correu atrás de uma perua, dessas vans que levam pacotes do correio. Entrou no meio do reboleio e se escondeu. O destino? Nem ele sabia. Mas já não queria o risco da cidade grande, nem largas avenidas, nem cruzar com gatinhas fúteis e iludidas.
A vida dos gatos urbanos andava decadente.
Queria virar a esquina.
Aproveitar a última vida, em latas mais tranquilas.
A van chegou ao destino: Boraceia, meu condomínio.
Saiu da carona de mansinho, com a cara lavada de quem conhece os truques da boa chegada.
— Sétima vida, pensou. — Vai maneiro, professor.
Adotou outro nome. Nada de apelido de rua. Agora é Gato Arnaldo. Quase humano. Experiente. Gabaritado. Com pose de quem sobe de costas no telhado.
Ontem, Arnaldo descansava no teto de vidro do meu pergolado. Espaçoso, esticado, dormindo no sol quente.
Chamei. Não veio.
Coloquei comida. Não quis.
Deixei no potinho.
Parece feliz. Faz o que quer, rodando pela bela redondeza.
Não caça mais ratos, nem restos de lixo urbano. Deixou de vez o ambiente tóxico e insano.
Agora tem jardim, comida dos vizinhos e um teto de vidro. Está maduro, sereno e decidido.
Pois é, Arnaldo…
Tenho um resto de dias nesta minha única vida, pelo menos que eu saiba. E vou seguir seu exemplo.
Tomar sol o dia inteiro.
Ficar deitada, cochilando ou lendo.
E, se me chamarem…
podem gritar.
Subo pro teto…
e não atendo.
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