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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

NEM SIM, NEM NÃO!


A vida, esculpida nas experiências, vai apurando nossos sentidos. A gente começa a perceber mais depressa as primeiras, segundas e até décimas terceiras intenções.

Um sorriso de lado.
Um gesto disfarçado.
Um aperto de mão vazio.
Um olhar mascarado.

Quanto mais desvendamos a alma humana, mais percebemos suas artimanhas.

E como é cansativo ter de ler nas entrelinhas.

O que quis dizer aquela frase pela metade?
Fulano está ressentido de verdade?
É meu amigo ou inimigo?
Foi um elogio ou pura falsidade?

As redes sociais são mestras nisso.
Meias palavras. Meias verdades. Felicidades performáticas.

E nós, depois de certa idade, já não temos estômago para tanta encenação. Viva o não!

Queremos clareza. Transparência, se possível.

Nada de dizer que está lindo quando não está.
Dizer que gosta quando apenas suporta.
Forçar felicidade para a fotografar a vida.

Chega.

Que tal abrirmos as portas? As janelas? O coração?

Como crianças, usando respostas simples:

Sim ou não.

Na juventude, seguindo a corrente, surfamos na onda do momento sem perceber muito bem onde ela vai dar.

Depois, quando a gente amadurece e passa a conhecer um pouco melhor o ser humano — a gente cresce —, fica mais fácil decidir.

Nada de meios sorrisos.
Meias verdades.
Meias intenções.

A idade madura pede clareza.

Olho no olho.
Palavras e gestos reais.

Sejam doces ou amargos.

As Monalisas que me desculpem.

Prefiro os sorrisos largos.



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quarta-feira, 29 de julho de 2026

AUTO PERDÃO



 
Ela expressava seus sentimentos de forma madura. 

Estou sentindo pena do bichinho. 

Que aflição isso me deu. 

Esse filme me entristeceu... 

Mariana deixava tudo às claras. Um coração que distinguia sutis sentimentos e traduzia em palavras, surpreendendo a cada momento.

Aos três anos, na gangorra, o irmão mais velho insistia em deixá-la suspensa por um longo tempo no ar. 

Você me faz sentir medo... Por que quer me ver assim? 

Suas palavras desconsertavam feito um sopro suave e sincero de querubim.

Mariana aprendeu a hierarquia das coisas nas respostas que ouvia da família. 

Se quebrasse sem querer alguma coisa, alguém dizia: 

Não tem problema, isso acontece!

Aos seis anos, depois de muito insistir, a vó Olga deixou Mariana brincar com sua coleção de galos.

Trazidos de vários países, Portugal, Espanha, Itália, França. Era o xodó da vovó que pediu muito cuidado e colocou mais de vinte galos espalhados pelo tapete da casa.

 Chame quando enjoar.

Assim que terminou de brincar, Mariana decidiu por ela mesma, recolocar os galos de porcelana na estante alta que ficava sobre a mesa. 

Na pontinha dos pés e toda empinada, já havia recolocado um bocado, quando cinco deles caíram e espatifaram no chão.

A vó Olga entrou correndo, já prevendo o estrago e a provável conclusão.

Mariana olhou para os cacos.

Depois olhou para a vó.

E com aquele sorriso cativante, de quem já havia aprendido algumas coisas importantes sobre a vida, se auto perdoou...

- Não tem problema, vovó... Isso acontece! 


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quarta-feira, 22 de julho de 2026

NUM PISCAR DE OLHOS




Foi numa quinta de manhã. Na hora de ler a minha receita preferida naquela página toda amarrotada, com marcas  de chocolate em barra. A folha mais manuseada do meu caderninho, guardado com carinho na gaveta da cozinha. 

Olhei firme para a receita e todas as letrinhas, tal qual os ingredientes do bolo, haviam se misturado com louvor num grande liquidificador. O texto, repleto de medidas, itens e pequenos parágrafos, se transformou num bloco único. Nebuloso e compacto. Ilegível e incompreensível. Uma espécie de tratado aramaico.

Esfreguei os olhos afastando a mão que segurava o papel. Afastei mais. Mais um pouco. Fui perto da janela. Quase peguei uma lanterna. Veio, então, a constatação. Não conseguia ler! 

De um dia pra outro. Num piscar de olhos. Eu não enxergava mais as letrinhas e coisas miúdinhas. E elas eram tantas... nos rótulos, nas bulas, nas tampas. Nos contratos e boletos à pagar.

Dr Luciano, meu oftalmo, disse que é assim, um grauzinho por ano depois dos quarenta. Ele está certo. Meu olho esquerdo já passou dos três gráus. A coisa é rápida. Mas o que é rápido mesmo? Relativo, diria o grande cientista judeu-alemão, mostrando a sua língua na foto, com toda razão. 

Por trás de cada mudança, um processo interno e particular de perdas e transformações já vem engatinhando. Muitas vezes, silencioso e invisível. Porém contínuo e implacável. Inevitável com o correr dos anos.

Nascemos, crescemos, criamos filhos, escolhemos caminhos. Acertamos, erramos, recomeçamos. Assim seguimos, cambaleantes e exaustos. Com a alma cheia de sustos e sobressaltos.

Então, feito fruta madura, numa tarde dura, a gente amadurece e cai. Não dá pra saber quando vai. É o ponto xis. O piscar de olhos! 

É quando de repente nos percebemos mais velhos. Mais feios. Mais arqueados. Mais sábios, talvez.

Porém ingênuos. Acreditamos que tudo foi... num piscar de olhos! Ah vai...

 

 

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foto: cromossomosblog 
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sábado, 4 de julho de 2026

DENTRO DA NUVEM...


Eu andava dentro da nuvem feito criança perdida.

Ou, um anjo descuidado que caiu em endereço errado. 

Era uma nuvem densa. Espalhada por toda a praia. De uma beleza rara.

Com os pés descalços eu adentrava na  estranha paisagem contemplando a névoa e sua densidade. Eu seguia quase às cegas na inesperada viagem. 

Nada se via. Nem a fileira de prédios, nem os navios em alto mar. Só neblina na atmosfera. Nos olhos, nas narinas e na cara. Um súbito “fog” caiçara.

Eu avistava uns dez ou doze metros à frente, quando de repente aparecia gente. 

Uma mulher sozinha sorria, passava e sumia. Depois, uma menina. Uma mãe com criança. Um pescador. Um adolescente. Tipos diferentes....

Seguiam e sumiam também. Atrás e na frente. Curiosos com a manhã diferente que veio para nos questionar: o que vem agora? Será que demora? Quanto tempo vai durar?  

A fumaça roliça e densa foi se  dissipando. Aos poucos, desaparecendo.

As coisas belas e intactas foram lentamente reaparecendo. Tudo no seu devido lugar. Já se via a Ilha Porchat. Os prédios cada vez mais altos a nos circundar. Os navios ancorados no mar.

A vida, às vezes é uma nuvem branca. Estamos dentro dela. Não sabemos o que vem. Quem chega. Quem vai. Quem termina com quem. 

Alguns passam ligeiros. Outros chegam e metem medo. Uns caminham ao lado, compartilhando cada momento. São os amigos do peito.

Mas às vezes cegamos e não vemos mais nada. Até que o sol volte a aquecer e dissipe a névoa nos mostrando novamente a estrada.
 
Achei que encontraria anjos naquela nuvem. Parentes. Amigos incríveis que já se foram. Mas estes devem estar em outras esferas. Mais altas e distantes aqui da Terra.

Só uma andorinha confusa apareceu na areia, atendeu meu pedido e depois para o céu voltou. 

Por favor, manda um beijo pra mamãe, pro meu pai... E não esquece do vovô! 


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Foto da amiga de caminhada... Célia Loriggio







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quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PINTA DA MARIA


Maria tinha uma pinta. Uma pinta considerável. Grande. Bem ao lado do nariz.

Impossível não ser notada. Tinha até nome: Nina! Foi assim que quando criança, seu pai, brincalhão, lhe apelidou a fim de criar uma relação afetuosa da filha com a marca de nascença.

Não adiantou. Maria não gostava da pinta e do fato de que a pinta a ofuscava. 

A Nina, ou melhor, a pinta, era maior do que ela. Maior que seu rosto. Maior que tudo. Era a Maria da Pinta! Qual Maria? Aquela da pinta.

E Maria foi crescendo junto com a pinta. Trabalhou, casou, e então, desenvolveu verdadeiro ódio à pinta. Afinal, era ela a razão de todos os seus problemas. 

Perdeu o emprego. Foi a pinta! Seu filho caiu nas drogas. Tinha vergonha da pinta da mãe. Sua filha fugiu de casa. Queria se ver longe da pinta! Seu marido, depois de anos de convivência e maus tratos, amantes e falta de dinheiro, enfim a deixou... foi a pinta que ele não mais aguentou ver diante de seus olhos...

Foi assim por muitos anos. Maria e sua pinta na cara. A pinta que a escondia. Que a justificava. Às vezes, passava um pó para amenizar, mas continuava lá, escondida, a sua Nina.

Depois de muitos e muitos anos de sofrimento e uma melhor condição financeira, Maria, num impulso, resolveu tirar a pinta. 

Cirurgia marcada. Pinta retirada. Simples assim! A filha voltou. O filho ficou bom. O marido se arrependeu. Não! 

Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.

Agora, todos os dias, antes de sair de casa, Maria pinta uma pinta de mentira. No mesmo lugar...

E voltou, graças aos céus, a se queixar!
                       


*                *                   *                                                                                        

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

AS TEVÊS E AS COPAS...


Na copa de setenta eu via tudo em branco e preto. Gerson, Pelé, Jairzinho... Nada de Canarinho ou seleção verde e amarela! Todos eram cinzas. Até o chapéu mexicano que colocaram no Pelé, na festa final do Tri, era cinzento.

Anos mais tarde, revi a cena toda colorida, em tons vibrantes de amarelo, verde e vermelho.

Uma vizinha viu tudo colorido. Mais ou menos colorido... Ela comprou uma tela de plástico, cheia de ondas horizontais, e fixou na frente do visor do seu velho aparelho de tubo. Aquilo dava tons verdes, amarelos e azulados às imagens, num tecnicolor fajuto e furta-cor. Ela gostava. Gritava animada... Gooool!

Já a copa de setenta e quatro foi uma loucura geral. Todo mundo atrás da tevê em cores, que acabava de chegar. Quem tinha mais dinheiro já via desde setenta e dois, quando ela estreou oficialmente por aqui. Muita gente nem viu!

Lembro do meu irmão, recém-estagiário, comprando a nossa tevê com o primeiro salário. Sonho de ver colorido a seleção faturar. Deu azar. A Canarinho foi de lascar. Com Riva e tudo. Valdomiro é o único nome que consigo lembrar...

Depois vieram outras copas.

Setenta e oito, de Coutinho. Ter uma tevê em cores já era normal. Brasil, campeão moral.

Oitenta e dois... a tristeza estampada nas telas e o choro do garotinho na capa do jornal.

Daí por diante, as tevês foram evoluindo... e o nosso futebol, sempre fora da final. Em oitenta e seis, o Brasil perdeu outra vez. E foi pra França, sem saber que viraria freguês!

Já em noventa, as tevês de tubo começaram a afinar... e o futebol do Brasil, a definhar. Lazaroni foi de amargar.

Mas em noventa e quatro, com Parreira e os baixinhos Bebeto e Romário, o Brasil e as tevês ganharam poder de resolução! Brasil tetra campeão. E som estéreo pra gritar goooool!

A copa de noventa e oito assisti numa tevê de vinte e nove polegadas. Vi um Zidane gigante acabando com a mascarada.

Já em dois mil e dois, minha primeira tevê plana, ligada de madrugada! E os três erres em grande jornada. Era o penta que chegava.

De lá pra cá, as tevês se modernizaram. Aumentaram de tamanho e de preço. Agora é LED, 4K, Smart TV.

E o futebol arte do Brasil? Mudou pro outro continente!

Craque agora tem chuteira colorida e cabelo diferente. Joga bem só longe da gente.

Os técnicos influencers mandam recado. Não basta torcer pro Brasil... tem que gastar uma grana suada nas bets e nas lojas, comprando tevê de cinquenta, sessenta, oitenta polegadas!

E o tamanho do nosso futebol?

Depois dos sete a um... melhor não comparar.

Em tempos de Neymar...
não é mais tamanho de jogador.

É tamanho de superstar!


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terça-feira, 9 de junho de 2026

A RUA DE TERRA LARANJA...

                 

    

Tudo ficava meio alaranjado. 

Os pés, as canelas, os braços e o rosto perto do nariz e da boca que com a mão eram tocados. A rua de terra da vizinhança deixava suas manchas de alegria laranja nas crianças. 

Meninos empoeirados jogavam e corriam descalços na frente do golzinho de dois paus improvisados. 

Eu morava na casa branca da avenida de asfalto. Rua Conselheiro Justino, que se transformou, mais tarde, na gigante Radial Leste. Virando a esquina, na rua de trás, era a rua de terra alaranjada. Pequena, com casinhas de um lado, e do outro, um muro alto de fábrica, de tijolo descascado. 

De dia e de tarde a rua ecoava ruídos humanos. Risos de meninas e meninos brincando até ao anoitecer, quando voltavam imundos pra casa. Minha mãe sorria quando meu irmão, no banheiro, perguntava: o que é pra lavar direito, mesmo? - Tudo. Dos pés ao fio de cabelo. Capricha nos dedos e nos joelhos! 

Às vezes ele pedia ajuda. Bater com o peito do pé na bola de capotão molhada e dura criava uma espécie de pele cascuda. Lama dura. Tinha que passar creme e esfregar com força e até escovão. Não reclamavam. Era o preço da diversão. 

Segunda feira, os pés já limpos na meia branquinha e com sapatos engraxados, seguiam para o colégio no ônibus do Colégio do Carmo. 

Era nos finais de semana que a rua de terra fazia valer o seu destino de rua feliz...

Lá se encontravam bons e antigos vizinhos, todos com filhos. 

Os portugueses e sua varanda de orquídeas. A família italiana com vinhos e cantorias. Os espanhóis da venda de empanadas... 

e emoldurando toda a rua, a paisagem laranja colorindo os muros e calçadas. 

Foram quatro anos sonhando com a rua de terra que eu via na pele dos garotos só de passagem. Eu não tinha idade.

Foi na semana das festas juninas que veio o batismo e a inauguração: - Podem levar a menina na rua de terra. Mas não descuidem um só minuto dela! 

Toda arrumadinha, vestido de remendos e fitas juninas, larguei de pronto a mão do meu irmão e sai correndo pra tocar o chão. 

Tirei os meus sapatos fechados, estendi os dedos, alarguei os passos e pisei na terra laranja, sujando meus pés limpinhos com rebeldia e carinho. 

Depois achei uma poça d’água e coloquei os pés pra enxaguar. A cor laranja se espalhou pelos poros, pelos pés, pernas e canelas... 

Rua de terra. Agora eu sabia... o prazer que era.


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