Nas tardes quentes e alegres no meu quintal, eu
falava com os gatos e cachorros.
Eram
conversas simples. Mínimas. Sobre bolinhas e bichinhos. Pelos escovados e petiscos.
Com os
pardais, os assuntos eram mais complexos. Nuvens, planos de voo, tetos. Ninhos, varais. Telhados
vizinhos... Eu sentia o que eles sentiam. Alma de passarinho, sem qualquer
tradução. O poder do voo e da emoção.
Eu também falava com as estrelas. Pedia que cortassem os
céus. Na maioria das vezes, elas obedeciam. Até a lua, branca e nua, eu fazia cruzar de um
lado ao outro do meu telhado. Demorava horas. Um bocado. Mas eu conseguia. Outras vezes, impedida de brincar, eu mandava a chuva parar. Tinha comigo um
mantra poderoso e familiar. E a chuva me obedecia. Pingo a pingo, ia diminuindo. Até
estancar. Eu sabia os poderes que eu tinha. Sem Hogwarts, nem varinhas. Poderes de criança. De Magia. Eu tinha também o poder de curar. Com remedinhos caseiros e feitiços pequenos. Infalíveis
para a minha boneca, pálida, sarar.
E tinha o poder de libertação. Com uma capa improvisada e uma espada na mão. Eu salvava um batalhão.
Mas foi na adolescência que ganhei o maior de
todos eles. O poder do amor. Bastava um olhar enamorado e eu começava a flutuar e o meu amor ao lado.
Vieram, então, os tempos maduros.
Por vezes, duros. Com seus problemas, antenas, sirenas. E um pacote enorme de deveres.
E eu perdi
certos poderes. Da leveza. Do voo. Do encantamento.
Ainda falo com gatos,
cachorros e pardais. A diferença é que eles, agora, não me compreendem mais.
E neste pacote esvaziado de poderes que
ganhei quando criança, apenas um não posso perder jamais...
o da esperança!
* * *
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A praia do Pântano do Sul estava vazia. Apenas um cão solitário, preto e enorme se aproximou mostrando pouca simpatia.
O desconforto
foi passando quando aceitamos a sua liderança. O cão
guia nos levou até a porta do conhecido restaurante... Bar do Arante!
Instalado no meio da
praia, com janelas de vidros embaçados pelo hálito das bocas alegres entregues
aos goles e palavras à toa.
O bar conversa com as pessoas. Quem entra
é recebido com um copinho de barro de cachaça da região e ouve do garçon a sugestão... - Pastel de berbigão! Lá dentro, um mar revolto de bilhetes
pendurados no teto e nas paredes descamam em diferentes texturas, convidando para um mergulho na leitura.
Foi na década de sessenta que o Arante e sua mulher Osmarina
abriram a vendinha para os pescadores. Vendiam de tudo, pão, paçoca, ovos,
leite, farinha.
A partir de setenta, a venda mudou de
endereço e foi parar à beira mar. Virou bar. E restaurante! Agora com peixe
frito, mariscos, ostras... e tira-gostos. Os
estudantes de São Paulo e Rio Grande do Sul descobriram as praias do Pântano do
Sul e vieram acampar. Para avisar os amigos que estavam para chegar, deixavam
bilhetes nas paredes.
João, rua do Torto ao lado da cantina.
Assinado, Cristina.
Gerson, aqui é a Marina, ainda te amo, me liga!
Zé Galindo,
já fomos. Estou fugindo com seu amigo Antonio.
Se são sérios ou brincadeira os recados, ninguém sabe dizer. A verdade ficou no passado. Alguns preferem esquecer.
Entrei no bar como quem entra numa caverna de estalactites de papel e olhei alguns bilhetes escritos a lápis, já quase
sumindo. Outros, com letras perfeitas, tinham poemas escritos com caneta
preta. Uns raros que sobraram, são dos anos sessenta.
A maioria é de três
anos atrás. Sabe como é o papel... assim como certos amores, o tempo vai esmaecendo. Alguns levam vinte, trinta anos. Outros não duram
um mês. Uns poucos e sortudos, resistem além do papel e continuam sua escrita
em algum manuscrito misterioso do céu!
Um doido varrido disse
aos frequentadores que contou um a um. Seriam perto de setenta mil. Setenta mil bilhetes pendurados. O meu, de vinte e poucos anos atrás deve estar soterrado.
Talvez tenha sobrado um pedacinho ou uma letra apenas de um resto de poema.
O cão guia nos esperou na saída e nos levou até o carro. A praia
continuava vazia...
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Quando eu vi pela primeira vez aquela lagarta verde listrada com duas anteninhas róseas e olhos pretinhos na folha grande do vaso, eu fiquei encantada.
Criança
pequena, segui com alegria o serzinho estranho que andava quase desabando
e depois voltava à base, folheando.
Chamei alguém que pudesse me explicar o
bichinho diferente, com cílios no corpo e cara redonda de gente.
Triste foi ouvir que eu não poderia pegar. Ela queima! Como
pode? E eu até lhe dei nome: Jurema!
Jurema queima? Jurema é malvada? Jurema é bichinho e não sabe de nada.
Apesar do pesar e da distância imposta, simpatizei com a
lagarta verde e rosa e, todo dia, a procurava entre as folhas e caules. Tinha
dias que dormia e não se mexia.
Outras vezes, comia e me deixava observar. Fazia
buracos nas folhas, minha mãe não iria gostar. Eu protegia a Jurema. Jamais
iria contar.
Foram semanas na companhia da lagarta esquisita e seus
passeios divertidos. Eu me via nela, olhando as folhas gigantes por ângulos invertidos. E me preparava, também, para o desconhecido.
Num dia cinzento, Jurema desapareceu. Jurema partiu?
Morreu?
Meu olhar não se aquietou até encontrar a
estranha casinha. Um casulo de seda amarronzado no meio do vaso. Lá estava ela e se preparava para se transformar. Com duas asas prontas para voar.
Jurema não deu pistas. Não
deu na vista. Esperta, me seduziu e se recolheu. Esperou o tempo preciso. Não
adiantava acelerar. O tempo no casulo é o tempo certo do maturar.
Domingo cedo comecei a ver Jurema quebrando a sua
crisálida e botando a nova cara, ávida, para fora do lar.
Agora tinha outro
corpo. Asas moles se desdobraram até endurecer. Tinha novas cores, olhos e
desenhos. Foram duas ou três horas observando o processo lento. Privilégio de criança, que não se importa com o tempo.
E Jurema, borboleta, voou.
Dei tchau com minhas mãozinhas
pequenas e ela partiu cheia de graça. Deixando a lembrança da sua amizade
Ela guardava os lençóis num baú de madeira muito bem polido.
Tinha detalhes em dourado e uma linda fechadura com cadeado. Ficava no sótão do sobrado.
Eu nunca vi aberto. Sabia por alto e em retalhos de conversas, dos tecidos finos que guardava e que embalavam o meu imaginário.
O enxoval vivia no baú desde seu casamento. Eu pescava aqui e ali algumas pistas do seu rico conteúdo. Bordados ingleses, crochê, guipir, matelassê, toalhas rendadas e os... cobiçados lençóis de cambraia.
Hilda era referência no bairro. Conseguiu formar três filhos doutores em plena década de sessenta, onde a maioria virava trabalhador operário.
O seu sobrado era simples. No interior, boa mobília e presentes de família. Um piano que o filho mais velho comprou. Um
vaso italiano de murano. E fotos da viagem à Europa que o
filho do meio a levou. Veneza! Paris! Moscou!
Os filhos da Hilda eram tão exaltados
que em nossa casa virou uma espécie de bordão, carregado de ironia. Se algo extraordinário acontecia... - Foram os filhos da Hilda! A gente dizia. Minha mãe piscava. Minha tia sorria. Elas amavam os filhos da Hilda!
No ano passado saímos de férias para Jurerê.
Sem reservas de hotel, em pleno fevereiro, procuramos um bom aconchego.
Paramos numa pousada pequena e, da praia, um tanto distante. A piscina pequena lembrava um tanque. O quarto diminuto. A dona anunciou o preço absurdo. Quase mil reais a diária!
Toda empinada, olhando para a cama king arrumada, a senhora completou...
-Aqui a diária é mais cara. Os lençóis... são de cambraia!
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Presa no vaso de planta. Na varanda do terceiro andar.
Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada.
Nesse instante, a mente é que voa.
Vejo meu irmão, menino, correndo.
Pés descalços. Rua de terra.
E um bando de moleques alvoroçados por cima das telhas, atrás das pipas azuis, verdes e vermelhas.
Uma delas sempre desgarrava. Ou um menino, de propósito, cortava.
Lá ia a pipa rodopiando, caindo em giros loucos por sobre as casas e toldos.
Todo o trabalho desperdiçado. Jogado ladeira abaixo. A bagunça na mesa da cozinha. Papéis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas.
Goma arábica nunca tinha. A cola era água e farinha. E como grudava, deixando pelotinhas.
A rabiola era a parte que eu mais gostava. Naquela lembrança fininha, eu voava.
Voltei os olhos novamente para a varanda.
Agora olho para o outro lado.
Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes. Não havia separação. Nem empregado e patrão.
Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha-céu.
Amir teve medo. Hassan escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo.
Feriu os joelhos. Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo:
— Por você, eu faria mil vezes!
As lembranças das pipas e de Khaled Hosseini vieram feito um pedaço de passado, perfeitamente encapsulado.
Como diria o autor: uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.
Ele tinha várias manias. Comer macarrão com pão. Tomar rabo de galo aos domingos,
depois dos jogos de várzea nos campos do Vera Cruz. Além de ser dono de um par de olhos... incrivelmente azuis.
Era o meu pai, o velho Sylvio, que adorava brincar. Viveu
a vida brincando. Sabia fazer com dobras no lenço, um ratinho de pano que acionado pelo seu rápido polegar, pulava em cima das pessoas. Em geral das
crianças, que corriam de susto e depois pediam para repetir. Meu pai sorria e com seus lindos olhinhos azuis, piscava só para
mim.
O “seo” Sylvio era divertido. Imitava buzinas de carros antigos como ninguém. De todo o resto, sucesso profissional,
investimentos, casamento, patrimônio adquirido é melhor não
falar. Nada deu muito certo. Deixa pra lá! Para os filhos, ainda pequenos, importava mais
é que ele sabia imitar a buzina do Fordinho vinte e nove.
Apesar de nunca termos andado na sua “Baratinha”, apelido do modelo que ficou bastante conhecido no bairro do Belenzinho, em uma época que havia poucos carros nas ruas.
Já nos
anos setenta, tínhamos um Gordini. Todos os sábados meu pai levava a
família jantar no alto da Móoca. Na volta, meu pai lançava o grande
desafio. Descer do alto da Avenida Paes de Barros com o motor desligado. Na
banguela, até quanto aguentasse.
Eu,
pequena, no colo de minha mãe, ficava torcendo pra que os faróis abrissem e o
carro não tivesse que parar. Era excitante. E quando algum carro ficava na
nossa frente, meu pai pedia que eu colocasse a mão na direção e começava a
imitar a velha buzina: - arrrua! arrua! Eu adorava aquele som. Aquela aventura. Certa vez, meu pai desviou com destreza de todos os carros à frente e
mesmo quase parando, conseguimos chegar até o último farol da avenida, já
quase no viaduto. Conseguimos. Que vitória sofrida!
E eu tinha ao lado um herói.
E de olhos azuis.
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