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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

VERDADE... ESSES BILHETES!

A praia do Pântano do Sul estava vazia. Apenas um cão solitário, preto e enorme se aproximou mostrando pouca simpatia. 

O desconforto foi passando quando aceitamos a sua liderança. O cão guia nos levou até a porta do conhecido restaurante... Bar do Arante! 

Instalado no meio da praia, com janelas de vidros embaçados pelo hálito das bocas alegres entregues aos goles e palavras à toa. 

O bar conversa com as pessoas. Quem entra é recebido com um copinho de barro de cachaça da região e ouve do garçon a sugestão... - Pastel de berbigão! Lá dentro, um mar revolto de bilhetes pendurados no teto e nas paredes descamam em diferentes texturas, convidando para um mergulho na leitura.

Foi na década de sessenta que o Arante e sua mulher Osmarina abriram a vendinha para os pescadores. Vendiam de tudo, pão, paçoca, ovos, leite, farinha. 

A partir de setenta, a venda mudou de endereço e foi parar à beira mar. Virou bar. E restaurante! Agora com peixe frito, mariscos, ostras... e tira-gostos. Os estudantes de São Paulo e Rio Grande do Sul descobriram as praias do Pântano do Sul e vieram acampar. Para avisar os amigos que estavam para chegar, deixavam bilhetes nas paredes. 

João, rua do Torto ao lado da cantina. Assinado, Cristina. 

Gerson, aqui é a Marina, ainda te amo, me liga! 

Zé Galindo, já fomos. Estou fugindo com seu amigo Antonio.

Se são sérios ou brincadeira os recados, ninguém sabe dizer. A verdade ficou no passado. Alguns preferem esquecer.

Entrei no bar como quem entra numa caverna de estalactites de papel e olhei alguns bilhetes escritos a lápis, já quase sumindo. Outros, com letras perfeitas, tinham poemas escritos com caneta preta. Uns raros que sobraram, são dos anos sessenta. 

A maioria é de três anos atrás. Sabe como é o papel... assim como certos amores,  o tempo vai esmaecendo. Alguns levam vinte, trinta anos. Outros não duram um mês. Uns poucos e sortudos, resistem além do papel e continuam sua escrita em algum manuscrito misterioso do céu!

Um doido varrido disse aos frequentadores que contou um a um. Seriam perto de setenta mil. Setenta mil bilhetes pendurados. O meu, de vinte e poucos anos atrás deve estar soterrado. 

Talvez tenha sobrado um pedacinho ou uma letra apenas de um resto de poema. 

O cão guia nos esperou na saída e nos levou até o carro. A praia continuava vazia...


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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CASA DA JUREMA

Quando eu vi pela primeira vez aquela lagarta verde listrada com duas anteninhas róseas e olhos pretinhos na folha grande do vaso, eu fiquei encantada. 

Criança pequena, segui com alegria o serzinho estranho que andava quase desabando e depois voltava à base, folheando. 

Chamei alguém que pudesse me explicar o bichinho diferente, com cílios no corpo e cara redonda de gente. 

Triste foi ouvir que eu não poderia pegar. Ela queima! Como pode? E eu até lhe dei nome: Jurema!

Jurema queima? Jurema é malvada? Jurema é bichinho e não sabe de nada. 

Apesar do pesar e da distância imposta, simpatizei com a lagarta verde e rosa e, todo dia, a procurava entre as folhas e caules. Tinha dias que dormia e não se mexia. 

Outras vezes, comia e me deixava observar. Fazia buracos nas folhas, minha mãe não iria gostar. Eu protegia a Jurema. Jamais iria contar. 

Foram semanas na companhia da lagarta esquisita e seus passeios divertidos. Eu me via nela, olhando as folhas gigantes por ângulos invertidos. E me preparava, também, para o desconhecido.

Num dia cinzento, Jurema desapareceu. Jurema partiu? Morreu? 

Meu olhar não se aquietou até encontrar a estranha casinha. Um casulo de seda amarronzado no meio do vaso. Lá estava ela e se preparava para se transformar. Com duas asas prontas para voar.

Jurema não deu pistas. Não deu na vista. Esperta, me seduziu e se recolheu. Esperou o tempo preciso. Não adiantava acelerar. O tempo no casulo é o tempo certo do maturar.

Domingo cedo comecei a ver Jurema quebrando a sua crisálida e botando a nova cara, ávida, para fora do lar. 

Agora tinha outro corpo. Asas moles se desdobraram até endurecer. Tinha novas cores, olhos e desenhos. Foram duas ou três horas observando o processo lento. Privilégio de criança, que não se importa com o tempo.

E Jurema, borboleta, voou. 

Dei tchau com minhas mãozinhas pequenas e ela partiu cheia de graça. Deixando a lembrança da sua amizade

e o meu sorriso, parecido com o dela, de ainda... 

lagarta!

 

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

OS LENÇÓIS DE CAMBRAIA!

Ela guardava os lençóis num baú de madeira muito bem polido.

Tinha detalhes em dourado e uma linda fechadura com cadeado. Ficava no sótão do sobrado. 

Eu nunca vi aberto. Sabia por alto e em retalhos de conversas, dos tecidos finos que  guardava e que embalavam o meu imaginário.

O enxoval vivia no baú desde seu casamento. Eu pescava aqui e ali algumas pistas do seu rico conteúdo. Bordados ingleses, crochê, guipir, matelassê, toalhas rendadas e os... cobiçados lençóis de cambraia. 

Hilda era referência no bairro. Conseguiu formar três filhos doutores em plena década de sessenta, onde a maioria virava trabalhador operário. 

O seu sobrado era simples. No interior, boa mobília e presentes de família. Um piano que o filho mais velho comprou. Um vaso italiano de murano. E fotos da viagem à Europa que o filho do meio a levou. Veneza! Paris! Moscou!

Os filhos da Hilda eram tão exaltados que em nossa casa virou uma espécie de bordão, carregado de ironia. Se algo extraordinário acontecia... - Foram os filhos da Hilda! A gente dizia.  Minha mãe piscava. Minha tia sorria.  Elas amavam os filhos da Hilda!

No ano passado saímos de férias para Jurerê.

Sem reservas de hotel, em pleno fevereiro, procuramos um bom aconchego. 

Paramos numa pousada pequena e, da praia, um tanto distante. A piscina pequena lembrava um tanque. O quarto diminuto. A dona anunciou o preço absurdo. Quase mil reais a diária!

Toda empinada, olhando para a cama king arrumada, a senhora completou... 

-Aqui a diária é mais cara.  Os lençóis... são de cambraia!

 

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A PIPA NA VARANDA...


Dei com a pipa na minha varanda.

Presa no vaso de planta. Na varanda do terceiro andar.

Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada.

Nesse instante, a mente é que voa.

Vejo meu irmão, menino, correndo.

Pés descalços. Rua de terra.

E um bando de moleques alvoroçados por cima das telhas, atrás das pipas azuis, verdes e vermelhas.

Uma delas sempre desgarrava. Ou um menino, de propósito, cortava.

Lá ia a pipa rodopiando, caindo em giros loucos por sobre as casas e toldos.

Todo o trabalho desperdiçado. Jogado ladeira abaixo. A bagunça na mesa da cozinha. Papéis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas.

Goma arábica nunca tinha. A cola era água e farinha. E como grudava, deixando pelotinhas.

A rabiola era a parte que eu mais gostava. Naquela lembrança fininha, eu voava.

Voltei os olhos novamente para a varanda.

Agora olho para o outro lado.

Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes. Não havia separação. Nem empregado e patrão.

Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha-céu.

Amir teve medo. Hassan escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo.

Feriu os joelhos. Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo:

— Por você, eu faria mil vezes!

As lembranças das pipas e de Khaled Hosseini vieram feito um pedaço de passado, perfeitamente encapsulado.

Como diria o autor: uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.

Saí do livro.

Voltei o olhar à varanda.

Nem meu irmão. Nem os amigos afegãos.

Apenas eu e a pipa na mão.

Devo guardar?

Consertar?

Sair correndo e empinar?

O maior presente ela já me deu:

Voar!



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Foto: Inês Bari                                                                          

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A BUZINA DA BARATINHA




Ele tinha várias manias. Comer macarrão com pão. Tomar rabo de galo aos domingos, depois dos jogos de várzea nos campos do Vera Cruz. Além de ser dono de um par de olhos... incrivelmente azuis.
Era o meu pai, o velho Sylvio, que adorava brincar. Viveu a vida brincando. Sabia fazer com dobras no lenço, um ratinho de pano que acionado pelo seu rápido polegar, pulava em cima das pessoas. Em geral das crianças, que corriam de susto e depois pediam para repetir. Meu pai sorria e com seus lindos olhinhos azuis, piscava só para mim. 
O “seo” Sylvio era divertido. Imitava buzinas de carros antigos como ninguém. De todo o resto, sucesso profissional, investimentos, casamento, patrimônio adquirido é melhor não falar. Nada deu muito certo. Deixa pra lá! Para os filhos, ainda pequenos, importava mais é que ele sabia imitar a buzina do Fordinho vinte e nove.
Apesar de nunca termos andado na sua “Baratinha”, apelido do modelo que ficou bastante conhecido no bairro do Belenzinho, em uma época que havia poucos carros nas ruas.
Já nos anos setenta, tínhamos um Gordini. Todos os sábados meu pai levava a família jantar no alto da Móoca. Na volta, meu pai lançava o grande desafio. Descer do alto da Avenida Paes de Barros com o motor desligado. Na banguela, até quanto aguentasse. 
Eu, pequena, no colo de minha mãe, ficava torcendo pra que os faróis abrissem e o carro não tivesse que parar. Era excitante. E quando algum carro ficava na nossa frente, meu pai pedia que eu colocasse a mão na direção e começava a imitar a velha buzina: - arrrua! arrua! Eu adorava aquele som. Aquela aventura.

Certa vez, meu pai desviou com destreza de todos os carros à frente e mesmo quase parando, conseguimos chegar até o último farol da avenida, já quase no viaduto. Conseguimos. Que vitória sofrida!
E eu tinha ao lado um herói. 
E de olhos azuis.

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NEM SIM, NEM NÃO!


A vida, esculpida nas experiências, vai apurando nossos sentidos. 

A gente começa a perceber mais depressa as primeiras, segundas e até décimas terceiras intenções.

Um sorriso de lado.
Um gesto disfarçado.
Um aperto de mão vazio.
Um olhar mascarado.

Quanto mais desvendamos a alma humana, mais percebemos suas artimanhas.

E como é cansativo ter de ler nas entrelinhas.

O que quis dizer aquela frase pela metade?
Fulano está ressentido de verdade?
É meu amigo ou inimigo?
Foi um elogio ou pura falsidade?

As redes sociais são mestras nisso.
Meias palavras. Meias verdades. Felicidades performáticas.

E nós, depois de certa idade, já não temos estômago para tanta encenação. Viva o não!

Queremos clareza. Transparência, se possível.

Nada de dizer que está lindo quando não está.
Dizer que gosta quando apenas suporta.
Forçar felicidade para a fotografar a vida.

Chega.

Que tal abrirmos as portas? As janelas? O coração?

Como crianças, usando respostas simples:

Sim ou não.

Na juventude, seguindo a corrente, surfamos na onda do momento sem perceber muito bem onde ela vai dar.

E quando a gente amadurece e passa a conhecer um pouco melhor o ser humano — a gente cresce —, fica mais fácil decidir.

Nada de meios sorrisos.
Meias verdades.
Meias intenções.

A idade madura pede clareza.

Olho no olho.
Palavras e gestos reais.

Sejam doces ou amargos.

As Monalisas que me desculpem.

Eu prefiro os sorrisos largos.



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quarta-feira, 29 de julho de 2026

AUTO PERDÃO



 
Ela expressava seus sentimentos de forma madura. 

Estou sentindo pena do bichinho. 

Que aflição isso me deu. 

Esse filme me entristeceu... 

Mariana deixava tudo às claras. Um coração que distinguia sutis sentimentos e traduzia em palavras, surpreendendo a cada momento.

Aos três anos, na gangorra, o irmão mais velho insistia em deixá-la suspensa por um longo tempo no ar. 

Você me faz sentir medo... Por que quer me ver assim? 

Suas palavras desconsertavam feito um sopro suave e sincero de querubim.

Mariana aprendeu a hierarquia das coisas nas respostas que ouvia da família. 

Se quebrasse sem querer alguma coisa, alguém dizia: 

Não tem problema, isso acontece!

Aos seis anos, depois de muito insistir, a vó Olga deixou Mariana brincar com sua coleção de galos.

Trazidos de vários países, Portugal, Espanha, Itália, França. Era o xodó da vovó que pediu muito cuidado e colocou mais de vinte galos espalhados pelo tapete da casa.

 Chame quando enjoar.

Assim que terminou de brincar, Mariana decidiu por ela mesma, recolocar os galos de porcelana na estante alta que ficava sobre a mesa. 

Na pontinha dos pés e toda empinada, já havia recolocado um bocado, quando cinco deles caíram e espatifaram no chão.

A vó Olga entrou correndo, já prevendo o estrago e a provável conclusão.

Mariana olhou para os cacos.

Depois olhou para a vó.

E com aquele sorriso cativante, de quem já havia aprendido algumas coisas importantes sobre a vida, se auto perdoou...

- Não tem problema, vovó... Isso acontece! 


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