Páginas

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A PIPA NA VARANDA...


Dei com a pipa na minha varanda.

Presa no vaso de planta. No alto do terceiro andar.

Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada.

Nesse instante, a mente também voa...

Vejo meu irmão, menino, correndo.

Pés descalços. Rua de terra.

Com um bando de moleques alvoroçados por cima das telhas, atrás das pipas azuis, verdes e vermelhas.

Uma delas se desgarrava. Ou o menino, de propósito, cortava.

Lá se ia a pipa, rodopiando, caindo em giros loucos por sobre as casas e toldos.

Todo o trabalho desperdiçado. Jogado ladeira abaixo.

Tinha bagunça na mesa da cozinha.

Papéis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas.

Goma arábica nunca tinha.

A cola era água e farinha. E como grudava, deixando pelotinhas.

A rabiola era a parte que eu mais gostava.

Naquela lembrança, eu voava.

Voltei os olhos novamente para a varanda.

Agora olho para o outro lado.

Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes.

Não havia separação. Nem empregado e patrão.

Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha-céu.

Amir teve medo.

Hassan escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo.

Feriu os joelhos.

Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo:

— Por você, eu faria mil vezes!

As lembranças das pipas e de Khaled Hosseini vieram como um pedaço gostoso de passado, perfeitamente encapsulado.

Como diria o autor: uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.

Saí do livro.

Voltei o olhar à varanda.

Nem meu irmão. Nem os amigos afegãos.

Apenas eu e a pipa na mão.

Devo guardar?

Consertar?

Sair correndo e empinar?

O maior presente ela já me deu:

voar!



****************************

Foto: Inês Bari                                                                          

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A BUZINA DA BARATINHA




Ele tinha várias manias. Comer macarrão com pão. Tomar rabo de galo aos domingos, depois dos jogos de várzea nos campos do Vera Cruz. Além de ser dono de um par de olhos... incrivelmente azuis.
Era o meu pai, o velho Sylvio, que adorava brincar. Viveu a vida brincando. Sabia fazer com dobras no lenço, um ratinho de pano que acionado pelo seu rápido polegar, pulava em cima das pessoas. Em geral das crianças, que corriam de susto e depois pediam para repetir. Meu pai sorria e com seus lindos olhinhos azuis, piscava só para mim. 
O “seo” Sylvio era divertido. Imitava buzinas de carros antigos como ninguém. De todo o resto, sucesso profissional, investimentos, casamento, patrimônio adquirido é melhor não falar. Nada deu muito certo. Deixa pra lá! Para os filhos, ainda pequenos, importava mais é que ele sabia imitar a buzina do Fordinho vinte e nove.
Apesar de nunca termos andado na sua “Baratinha”, apelido do modelo que ficou bastante conhecido no bairro do Belenzinho, em uma época que havia poucos carros nas ruas.
Já nos anos setenta, tínhamos um Gordini. Todos os sábados meu pai levava a família jantar no alto da Móoca. Na volta, meu pai lançava o grande desafio. Descer do alto da Avenida Paes de Barros com o motor desligado. Na banguela, até quanto aguentasse. 
Eu, pequena, no colo de minha mãe, ficava torcendo pra que os faróis abrissem e o carro não tivesse que parar. Era excitante. E quando algum carro ficava na nossa frente, meu pai pedia que eu colocasse a mão na direção e começava a imitar a velha buzina: - arrrua! arrua! Eu adorava aquele som. Aquela aventura.

Certa vez, meu pai desviou com destreza de todos os carros à frente e mesmo quase parando, conseguimos chegar até o último farol da avenida, já quase no viaduto. Conseguimos. Que vitória sofrida!
E eu tinha ao lado um herói. 
E de olhos azuis.

*                                 *                                                                 
OBRIGADA PELA VISITA!


PRESENTEAR COM LIVRO FAZ BEM! PEÇA na Papale's Editorial.
vol1 com promoção.





NEM SIM, NEM NÃO!


A vida, esculpida nas experiências, vai apurando nossos sentidos. 

A gente começa a perceber mais depressa as primeiras, segundas e até décimas terceiras intenções.

Um sorriso de lado.
Um gesto disfarçado.
Um aperto de mão vazio.
Um olhar mascarado.

Quanto mais desvendamos a alma humana, mais percebemos suas artimanhas.

E como é cansativo ter de ler nas entrelinhas.

O que quis dizer aquela frase pela metade?
Fulano está ressentido de verdade?
É meu amigo ou inimigo?
Foi um elogio ou pura falsidade?

As redes sociais são mestras nisso.
Meias palavras. Meias verdades. Felicidades performáticas.

E nós, depois de certa idade, já não temos estômago para tanta encenação. Viva o não!

Queremos clareza. Transparência, se possível.

Nada de dizer que está lindo quando não está.
Dizer que gosta quando apenas suporta.
Forçar felicidade para a fotografar a vida.

Chega.

Que tal abrirmos as portas? As janelas? O coração?

Como crianças, usando respostas simples:

Sim ou não.

Na juventude, seguindo a corrente, surfamos na onda do momento sem perceber muito bem onde ela vai dar.

E quando a gente amadurece e passa a conhecer um pouco melhor o ser humano — a gente cresce —, fica mais fácil decidir.

Nada de meios sorrisos.
Meias verdades.
Meias intenções.

A idade madura pede clareza.

Olho no olho.
Palavras e gestos reais.

Sejam doces ou amargos.

As Monalisas que me desculpem.

Eu prefiro os sorrisos largos.



*********************************************************************






quarta-feira, 29 de julho de 2026

AUTO PERDÃO



 
Ela expressava seus sentimentos de forma madura. 

Estou sentindo pena do bichinho. 

Que aflição isso me deu. 

Esse filme me entristeceu... 

Mariana deixava tudo às claras. Um coração que distinguia sutis sentimentos e traduzia em palavras, surpreendendo a cada momento.

Aos três anos, na gangorra, o irmão mais velho insistia em deixá-la suspensa por um longo tempo no ar. 

Você me faz sentir medo... Por que quer me ver assim? 

Suas palavras desconsertavam feito um sopro suave e sincero de querubim.

Mariana aprendeu a hierarquia das coisas nas respostas que ouvia da família. 

Se quebrasse sem querer alguma coisa, alguém dizia: 

Não tem problema, isso acontece!

Aos seis anos, depois de muito insistir, a vó Olga deixou Mariana brincar com sua coleção de galos.

Trazidos de vários países, Portugal, Espanha, Itália, França. Era o xodó da vovó que pediu muito cuidado e colocou mais de vinte galos espalhados pelo tapete da casa.

 Chame quando enjoar.

Assim que terminou de brincar, Mariana decidiu por ela mesma, recolocar os galos de porcelana na estante alta que ficava sobre a mesa. 

Na pontinha dos pés e toda empinada, já havia recolocado um bocado, quando cinco deles caíram e espatifaram no chão.

A vó Olga entrou correndo, já prevendo o estrago e a provável conclusão.

Mariana olhou para os cacos.

Depois olhou para a vó.

E com aquele sorriso cativante, de quem já havia aprendido algumas coisas importantes sobre a vida, se auto perdoou...

- Não tem problema, vovó... Isso acontece! 


************************

ACOMPANHE AS CRÔNICAS FALADAS 

NO CANAL INESPLICANDO

NO YOU TUBE

quarta-feira, 22 de julho de 2026

NUM PISCAR DE OLHOS




Foi numa quinta de manhã. Na hora de ler a minha receita preferida naquela página toda amarrotada, com marcas  de chocolate em barra. A folha mais manuseada do meu caderninho, guardado com carinho na gaveta da cozinha. 

Olhei firme para a receita e todas as letrinhas, tal qual os ingredientes do bolo, haviam se misturado com louvor num grande liquidificador. O texto, repleto de medidas, itens e pequenos parágrafos, se transformou num bloco único. Nebuloso e compacto. Ilegível e incompreensível. Uma espécie de tratado aramaico.

Esfreguei os olhos afastando a mão que segurava o papel. Afastei mais. Mais um pouco. Fui perto da janela. Quase peguei uma lanterna. Veio, então, a constatação. Não conseguia ler! 

De um dia pra outro. Num piscar de olhos. Eu não enxergava mais as letrinhas e coisas miúdinhas. E elas eram tantas... nos rótulos, nas bulas, nas tampas. Nos contratos e boletos à pagar.

Dr Luciano, meu oftalmo, disse que é assim, um grauzinho por ano depois dos quarenta. Ele está certo. Meu olho esquerdo já passou dos três gráus. A coisa é rápida. Mas o que é rápido mesmo? Relativo, diria o grande cientista judeu-alemão, mostrando a sua língua na foto, com toda razão. 

Por trás de cada mudança, um processo interno e particular de perdas e transformações já vem engatinhando. Muitas vezes, silencioso e invisível. Porém contínuo e implacável. Inevitável com o correr dos anos.

Nascemos, crescemos, criamos filhos, escolhemos caminhos. Acertamos, erramos, recomeçamos. Assim seguimos, cambaleantes e exaustos. Com a alma cheia de sustos e sobressaltos.

Então, feito fruta madura, numa tarde dura, a gente amadurece e cai. Não dá pra saber quando vai. É o ponto xis. O piscar de olhos! 

É quando de repente nos percebemos mais velhos. Mais feios. Mais arqueados. Mais sábios, talvez.

Porém ingênuos. Acreditamos que tudo foi... num piscar de olhos! Ah vai...

 

 

 ****************************                       




foto: cromossomosblog 
*                                 *                                     *



ASSISTA ESTA CRÔNICA NBO CANAL iNESPLICANDO






sábado, 4 de julho de 2026

DENTRO DA NUVEM...


Eu andava dentro da nuvem feito criança perdida.

Ou, um anjo descuidado que caiu em endereço errado. 

Era uma nuvem densa. Espalhada por toda a praia. De uma beleza rara.

Com os pés descalços eu adentrava na  estranha paisagem contemplando a névoa e sua densidade. Eu seguia quase às cegas na inesperada viagem. 

Nada se via. Nem a fileira de prédios, nem os navios em alto mar. Só neblina na atmosfera. Nos olhos, nas narinas e na cara. Um súbito “fog” caiçara.

Eu avistava uns dez ou doze metros à frente, quando de repente aparecia gente. 

Uma mulher sozinha sorria, passava e sumia. Depois, uma menina. Uma mãe com criança. Um pescador. Um adolescente. Tipos diferentes....

Seguiam e sumiam também. Atrás e na frente. Curiosos com a manhã diferente que veio para nos questionar: o que vem agora? Será que demora? Quanto tempo vai durar?  

A fumaça roliça e densa foi se  dissipando. Aos poucos, desaparecendo.

As coisas belas e intactas foram lentamente reaparecendo. Tudo no seu devido lugar. Já se via a Ilha Porchat. Os prédios cada vez mais altos a nos circundar. Os navios ancorados no mar.

A vida, às vezes é uma nuvem branca. Estamos dentro dela. Não sabemos o que vem. Quem chega. Quem vai. Quem termina com quem. 

Alguns passam ligeiros. Outros chegam e metem medo. Uns caminham ao lado, compartilhando cada momento. São os amigos do peito.

Mas às vezes cegamos e não vemos mais nada. Até que o sol volte a aquecer e dissipe a névoa nos mostrando novamente a estrada.
 
Achei que encontraria anjos naquela nuvem. Parentes. Amigos incríveis que já se foram. Mas estes devem estar em outras esferas. Mais altas e distantes aqui da Terra.

Só uma andorinha confusa apareceu na areia, atendeu meu pedido e depois para o céu voltou. 

Por favor, manda um beijo pra mamãe, pro meu pai... E não esquece do vovô! 


*                           *                                                              



Foto da amiga de caminhada... Célia Loriggio







VEJA NO  NO FACEBOOK, TODAS AS FOTOS 

DA SESSÃO DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO "INESPLICANDO"

NA BIENAL DO RIO DE JANEIRO! 








quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PINTA DA MARIA


Maria tinha uma pinta. Uma pinta considerável. Grande. Bem ao lado do nariz.

Impossível não ser notada. Tinha até nome: Nina! Foi assim que quando criança, seu pai, brincalhão, lhe apelidou a fim de criar uma relação afetuosa da filha com a marca de nascença.

Não adiantou. Maria não gostava da pinta e do fato de que a pinta a ofuscava. 

A Nina, ou melhor, a pinta, era maior do que ela. Maior que seu rosto. Maior que tudo. Era a Maria da Pinta! Qual Maria? Aquela da pinta.

E Maria foi crescendo junto com a pinta. Trabalhou, casou, e então, desenvolveu verdadeiro ódio à pinta. Afinal, era ela a razão de todos os seus problemas. 

Perdeu o emprego. Foi a pinta! Seu filho caiu nas drogas. Tinha vergonha da pinta da mãe. Sua filha fugiu de casa. Queria se ver longe da pinta! Seu marido, depois de anos de convivência e maus tratos, amantes e falta de dinheiro, enfim a deixou... foi a pinta que ele não mais aguentou ver diante de seus olhos...

Foi assim por muitos anos. Maria e sua pinta na cara. A pinta que a escondia. Que a justificava. Às vezes, passava um pó para amenizar, mas continuava lá, escondida, a sua Nina.

Depois de muitos e muitos anos de sofrimento e uma melhor condição financeira, Maria, num impulso, resolveu tirar a pinta. 

Cirurgia marcada. Pinta retirada. Simples assim! A filha voltou. O filho ficou bom. O marido se arrependeu. Não! 

Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.

Agora, todos os dias, antes de sair de casa, Maria pinta uma pinta de mentira. No mesmo lugar...

E voltou, graças aos céus, a se queixar!
                       


*                *                   *                                                                                        

Assista esta crônica no canal Inesplicando. Clique aqui abaixo.