Na copa de setenta eu via tudo em branco e preto. Gerson, Pelé, Jairzinho... Nada de Canarinho ou seleção verde e amarela! Todos eram cinzas. Até o chapéu mexicano que colocaram no Pelé, na festa final do Tri, era cinzento.
Anos mais tarde, revi a cena toda colorida, em tons vibrantes de amarelo, verde e vermelho.
Uma vizinha viu tudo colorido. Mais ou menos colorido... Ela comprou uma tela de plástico, cheia de ondas horizontais, e fixou na frente do visor do seu velho aparelho de tubo. Aquilo dava tons verdes, amarelos e azulados às imagens, num tecnicolor fajuto e furta-cor. Ela gostava. Gritava animada... Gooool!
Já a copa de setenta e quatro foi uma loucura geral. Todo mundo atrás da tevê em cores, que acabava de chegar. Quem tinha mais dinheiro já via desde setenta e dois, quando ela estreou oficialmente por aqui. Muita gente nem viu!
Lembro do meu irmão, recém-estagiário, comprando a nossa tevê com o primeiro salário. Sonho de ver colorido a seleção faturar. Deu azar. A Canarinho foi de lascar. Com Riva e tudo. Valdomiro é o único nome que consigo lembrar...
Depois vieram outras copas.
Setenta e oito, de Coutinho. Ter uma tevê em cores já era normal. Brasil, campeão moral.
Oitenta e dois... a tristeza estampada nas telas e o choro do garotinho na capa do jornal.
Daí por diante, as tevês foram evoluindo... e o nosso futebol, sempre fora da final. Em oitenta e seis, o Brasil perdeu outra vez. E foi pra França, sem saber que viraria freguês!
Já em noventa, as tevês de tubo começaram a afinar... e o futebol do Brasil, a definhar. Lazaroni foi de amargar.
Mas em noventa e quatro, com Parreira e os baixinhos Bebeto e Romário, o Brasil e as tevês ganharam poder de resolução! Brasil tetra campeão. E som estéreo pra gritar goooool!
A copa de noventa e oito assisti numa tevê de vinte e nove polegadas. Vi um Zidane gigante acabando com a mascarada.
Já em dois mil e dois, minha primeira tevê plana, ligada de madrugada! E os três erres em grande jornada. Era o penta que chegava.
De lá pra cá, as tevês se modernizaram. Aumentaram de tamanho e de preço. Agora é LED, 4K, Smart TV.
E o futebol arte do Brasil? Mudou pro outro continente!
Craque agora tem chuteira colorida e cabelo diferente. Joga bem só longe da gente.
Os técnicos influencers mandam recado. Não basta torcer pro Brasil... tem que gastar uma grana suada nas bets e nas lojas, comprando tevê de cinquenta, sessenta, oitenta polegadas!
E o tamanho do nosso futebol?
Depois dos sete a um... melhor não comparar.
Em tempos de Neymar...
não é mais tamanho de jogador.
É tamanho de superstar!
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