Dei com a pipa na minha varanda.
Presa no vaso de planta. No alto do terceiro andar.
Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada.
Nesse instante, a mente também voa...
Vejo meu irmão, menino, correndo.
Pés descalços. Rua de terra.
Com um bando de moleques alvoroçados por cima das telhas, atrás das pipas azuis, verdes e vermelhas.
Uma delas se desgarrava. Ou o menino, de propósito, cortava.
Lá se ia a pipa, rodopiando, caindo em giros loucos por sobre as casas e toldos.
Todo o trabalho desperdiçado. Jogado ladeira abaixo.
Tinha bagunça na mesa da cozinha.
Papéis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas.
Goma arábica nunca tinha.
A cola era água e farinha. E como grudava, deixando pelotinhas.
A rabiola era a parte que eu mais gostava.
Naquela lembrança, eu voava.
Voltei os olhos novamente para a varanda.
Agora olho para o outro lado.
Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes.
Não havia separação. Nem empregado e patrão.
Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha-céu.
Amir teve medo.
Hassan escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo.
Feriu os joelhos.
Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo:
— Por você, eu faria mil vezes!
As lembranças das pipas e de Khaled Hosseini vieram como um pedaço gostoso de passado, perfeitamente encapsulado.
Como diria o autor: uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.
Saí do livro.
Voltei o olhar à varanda.
Nem meu irmão. Nem os amigos afegãos.
Apenas eu e a pipa na mão.
Devo guardar?
Consertar?
Sair correndo e empinar?
O maior presente ela já me deu:
voar!






.jpeg)



