Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
A PINTA DA MARIA
Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
AS TEVÊS E AS COPAS...
Na copa de setenta eu via tudo em branco e preto. Gerson, Pelé, Jairzinho... Nada de Canarinho ou seleção verde e amarela! Todos eram cinzas. Até o chapéu mexicano que colocaram no Pelé, na festa final do Tri, era cinzento.
Anos mais tarde, revi a cena toda colorida, em tons vibrantes de amarelo, verde e vermelho.
Uma vizinha viu tudo colorido. Mais ou menos colorido... Ela comprou uma tela de plástico, cheia de ondas horizontais, e fixou na frente do visor do seu velho aparelho de tubo. Aquilo dava tons verdes, amarelos e azulados às imagens, num tecnicolor fajuto e furta-cor. Ela gostava. Gritava animada... Gooool!
Já a copa de setenta e quatro foi uma loucura geral. Todo mundo atrás da tevê em cores, que acabava de chegar. Quem tinha mais dinheiro já via desde setenta e dois, quando ela estreou oficialmente por aqui. Muita gente nem viu!
Lembro do meu irmão, recém-estagiário, comprando a nossa tevê com o primeiro salário. Sonho de ver colorido a seleção faturar. Deu azar. A Canarinho foi de lascar. Com Riva e tudo. Valdomiro é o único nome que consigo lembrar...
Depois vieram outras copas.
Setenta e oito, de Coutinho. Ter uma tevê em cores já era normal. Brasil, campeão moral.
Oitenta e dois... a tristeza estampada nas telas e o choro do garotinho na capa do jornal.
Daí por diante, as tevês foram evoluindo... e o nosso futebol, sempre fora da final. Em oitenta e seis, o Brasil perdeu outra vez. E foi pra França, sem saber que viraria freguês!
Já em noventa, as tevês de tubo começaram a afinar... e o futebol do Brasil, a definhar. Lazaroni foi de amargar.
Mas em noventa e quatro, com Parreira e os baixinhos Bebeto e Romário, o Brasil e as tevês ganharam poder de resolução! Brasil tetra campeão. E som estéreo pra gritar goooool!
A copa de noventa e oito assisti numa tevê de vinte e nove polegadas. Vi um Zidane gigante acabando com a mascarada.
Já em dois mil e dois, minha primeira tevê plana, ligada de madrugada! E os três erres em grande jornada. Era o penta que chegava.
De lá pra cá, as tevês se modernizaram. Aumentaram de tamanho e de preço. Agora é LED, 4K, Smart TV.
E o futebol arte do Brasil? Mudou pro outro continente!
Craque agora tem chuteira colorida e cabelo diferente. Joga bem só longe da gente.
Os técnicos influencers mandam recado. Não basta torcer pro Brasil... tem que gastar uma grana suada nas bets e nas lojas, comprando tevê de cinquenta, sessenta, oitenta polegadas!
E o tamanho do nosso futebol?
Depois dos sete a um... melhor não comparar.
Em tempos de Neymar...
não é mais tamanho de jogador.
É tamanho de superstar!
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terça-feira, 9 de junho de 2026
A RUA DE TERRA LARANJA...
Tudo ficava meio alaranjado.
Os pés, as canelas, os braços e o rosto perto do nariz e da boca que com a mão eram tocados. A rua de terra da vizinhança deixava suas manchas de alegria laranja nas crianças.
Meninos empoeirados jogavam e corriam descalços na frente do golzinho de dois paus improvisados.
Eu morava na casa branca da avenida de asfalto. Rua Conselheiro Justino, que se transformou, mais tarde, na gigante Radial Leste. Virando a esquina, na rua de trás, era a rua de terra alaranjada. Pequena, com casinhas de um lado, e do outro, um muro alto de fábrica, de tijolo descascado.
De dia e de tarde a rua ecoava ruídos humanos. Risos de meninas e meninos brincando até ao anoitecer, quando voltavam imundos pra casa. Minha mãe sorria quando meu irmão, no banheiro, perguntava: o que é pra lavar direito, mesmo? - Tudo. Dos pés ao fio de cabelo. Capricha nos dedos e nos joelhos!
Às vezes ele pedia ajuda. Bater com o peito do pé na bola de capotão molhada e dura criava uma espécie de pele cascuda. Lama dura. Tinha que passar creme e esfregar com força e até escovão. Não reclamavam. Era o preço da diversão.
Segunda feira, os pés já limpos na meia branquinha e com sapatos engraxados, seguiam para o colégio no ônibus do Colégio do Carmo.
Era nos finais de semana que a rua de terra fazia valer o seu destino de rua feliz...
Lá se encontravam bons e antigos vizinhos, todos com filhos.
Os portugueses e sua varanda de orquídeas. A família italiana com vinhos e cantorias. Os espanhóis da venda de empanadas...
e emoldurando toda a rua, a paisagem laranja colorindo os muros e calçadas.
Foram quatro anos sonhando com a rua de terra que eu via na pele dos garotos só de passagem. Eu não tinha idade.
Foi na semana das festas juninas que veio o batismo e a inauguração: - Podem levar a menina na rua de terra. Mas não descuidem um só minuto dela!
Toda arrumadinha, vestido de remendos e fitas juninas, larguei de pronto a mão do meu irmão e sai correndo pra tocar o chão.
Tirei os meus sapatos fechados, estendi os dedos, alarguei os passos e pisei na terra laranja, sujando meus pés limpinhos com rebeldia e carinho.
Depois achei uma poça d’água e coloquei os pés pra enxaguar. A cor laranja se espalhou pelos poros, pelos pés, pernas e canelas...
Rua de terra. Agora eu sabia... o prazer que era.
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segunda-feira, 27 de abril de 2026
MEU GATO ARNALDO
Era um gato de rua. Totalmente urbano.
Viveu seis vidas em São Paulo, duas delas na zona leste. Nasceu na Mooca, num telhadinho movimentado, ao som de oito miados: o dele e o dos sete irmãos meio acinzentados.
Depois, vadiou pela zona oeste e terminou as duas últimas vidas na Barra Funda, entre latas imundas e uma marca de pneu nas costas. Atropelado, mais uma vez, graças à sua felina insensatez.
Já lhe faltavam alguns reflexos na sexta vida, e um motorista, sem intenção, desviou de um caminhão na descida. Foi uma traulitada doída. Ele não reclamou. Bateu as botas de novo.
Mas bateu também o medo de estar por uma vida apenas. E o felino das quebradas, acostumado às áreas de risco, entre latas de lixo e gatas sem compromisso, enfim se coçou.
Arrependido das andanças por muros farpados, das mordidas em ratos infectados, dos esgotos de onde saía encharcado… e, principalmente, da fome cruel de algumas vidas — que, como as feridas, doeram no corpo e na alma.
Um pouco de amor aos pelos teria evitado o pior.
Decidiu mudar de ruas. Correu atrás de uma perua, dessas vans que levam pacotes do correio. Entrou no meio do reboleio e se escondeu. O destino? Nem ele sabia. Mas já não queria o risco da cidade grande, nem largas avenidas, nem cruzar com gatinhas fúteis e iludidas.
A vida dos gatos urbanos andava decadente.
Queria virar a esquina.
Aproveitar a última vida, em latas mais tranquilas.
A van chegou ao destino: Boraceia, meu condomínio.
Saiu da carona de mansinho, com a cara lavada de quem conhece os truques da boa chegada.
— Sétima vida, pensou. — Vai maneiro, professor.
Adotou outro nome. Nada de apelido de rua. Agora é Gato Arnaldo. Quase humano. Experiente. Gabaritado. Com pose de quem sobe de costas no telhado.
Ontem, Arnaldo descansava no teto de vidro do meu pergolado. Espaçoso, esticado, dormindo no sol quente.
Chamei. Não veio.
Coloquei comida. Não quis.
Deixei no potinho.
Parece feliz. Faz o que quer, rodando pela bela redondeza.
Não caça mais ratos, nem restos de lixo urbano. Deixou de vez o ambiente tóxico e insano.
Agora tem jardim, comida dos vizinhos e um teto de vidro. Está maduro, sereno e decidido.
Pois é, Arnaldo…
Tenho um resto de dias nesta minha única vida, pelo menos que eu saiba. E vou seguir seu exemplo.
Tomar sol o dia inteiro.
Ficar deitada, cochilando ou lendo.
E, se me chamarem…
podem gritar.
Subo pro teto…
e não atendo.
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quarta-feira, 15 de abril de 2026
QUANDO EU ABRI O COFRE...
Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros...
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sexta-feira, 3 de abril de 2026
A MARRA... E A BENGALA!
- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho.
As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.
Bastava
eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando
lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando
fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho.
Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.
Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação.
- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.
A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:
- Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!
E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?
Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida.
E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!
Fui embora, pedindo aos
anjos que reforçassem a proteção.
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quinta-feira, 19 de março de 2026
FOLHAS DE OUTONO
O caminho de terra sombreado pelos galhos acumulava várias camadas de folhas, produzindo um crepitar seco e quebradiço ao pisar. Muitas vezes eu ia com os pés descalços só para tatear. Apreciava o som de cada passo. E o piar de alguns pássaros completando a trilha natural.
As aves entocadas também trocavam suas plumagens. De quem é essa
pena? Sabiá laranjeira, eu dizia sem convicção. Pode ser que sim, ou que não. O
outono é assim...
Nos dias chuvosos a estrada ficava úmida. Também tinha beleza. Era o pisar do macerar. Macieza umectante. Alguns pássaros, ainda que distantes acompanhavam na esperança de algum bichinho na terra, saltitante. Sempre havia um inseto descuidado, coitado.
Eu ia com
minha mãe procurar pinhas para enfeitar o Natal. Mas já? É que as pinhas tem
de descansar. Secar bem, para abrir os gomos por inteiro, feito flores de madeira,
prontas para enfeitar a ceia. E elas estavam lá, espalhadas pela estrada. Algumas
pequenas e quebradas. Outras perfeitas. Colocávamos as melhores no chapéu de
palha. E o sol tímido não esquentava nossas cabeças. O outono é assim...
Levávamos, eu e ela, um cajado. Galho duro que eu
procurava feito detetive no meio do mato. Logo achava um pequeno jogado e ajudava
minha mãe a encontrar um cajado maior e mais largo. Nosso andar era calmo e
cheio de perguntas sem respostas. A cerquinha caiu! Foi o tempo ou foi o vento? Os
dois. O outono é assim...
Hoje, os passeios e o chão de folhas secas ficaram
na lembrança dos outonos da minha infância. Em algum sítio da memória. Tenho
pisado em terrenos mais urbanos. Ouvindo sons de carros e lamentos humanos. As caminhadas
na areia ainda resistem, mas as pisadas somem rapidamente com as ondas do mar.
As folhas, o cajado e minha mãe ao lado, continuam eternos. A saudade bateu hoje em mim.
Foi o tempo ou foi o vento? O outono é
assim...
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Agora veja o vídeo desta crônica , clicando abaixo! E viaje nessas lembranças...
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