Fotos antigas mexem comigo. Em especial, as do século passado.
Mais do que as construções centenárias e as paisagens de outro tempo, o que me fascina é ver as pessoas perpetuadas nas imagens. Ficarão por lá. Eternamente nas fotos. Congeladas em papéis fotográficos — enquanto resistirem ao tempo.
As traças são cruéis com velhos papéis.
Muitas das pessoas capturadas já se foram. São fantasmas. Sobrevivem apenas ali, na imagem gravada.
E curioso: registradas ao léu, quase todas usavam chapéu.
Homens e mulheres com adornos na cabeça. Até as crianças pequenas.
Meninas com casaquinhos de tricô, vestidos de renda e chapéu. Meninos de terno, lenço e... chapéu. Pequenos homens, tamanha a seriedade de seus rostos. Não pareciam garotos. Talvez, velhos moços.
Nas fotos de praia, a rigidez de sempre. Nada que saltasse muito à vista. Retratos de uma sociedade machista: mulheres recatadas, inteiramente vestidas.
Em países vizinhos, havia até uma espécie de fiscal que media a altura entre os joelhos e o traje de banho. Passando de quinze centímetros: multa pelo assanho.
Os homens podiam mais. Alegres, animados, com seus maiôs pretos ou listrados. Ainda assim, todos igualmente congelados.
Era difícil tirar foto naquele tempo. Equipamento? Máquina profissional. E cara. Kodak era coisa rara.
O fotógrafo fazia as “chapas”. Os negativos iam para o laboratório. E, depois de horas no quarto escuro — mergulhados em bacias com produtos químicos, sob luz vermelha — os fantasmas iam surgindo no papel, lentamente.
Mal sabiam que ficariam presos ali, eternamente.
Ou até que as traças da gaveta os encontrassem.
As traças adoram fotos antigas.
E se fartam, devorando, um a um, os fantasmas...
e seus chapéus.
