o perfume que roubam de ti...
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
POEMA: ÚLTIMA CARTA DE AMOR
o perfume que roubam de ti...
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
A VITROLA E O PALHAÇO TRISTE...
Cada móvel da casa da minha mãe escondia uma lembrança. E uma leve nuvem de poeira.
Nos últimos cinquenta anos, ela conservou os mesmos móveis. Fortes, clássico, escuros. Não por apego, mas porque cada um trazia uma história. Além da sensação de território seguro.
Na sala, havia uma rádio-vitrola. Móvel grande, em jacarandá. Valvulado!
Ainda funciona e nos faz lembrar do primeiro compacto simples que ganhamos, com selo vermelho e a música Vênus.
Mais tarde, um compacto dos Beatles com a maçã cortada ao meio. Revolution. Ouvíamos bem alto, os quatro cabeludos que queriam mudar o mundo.
Depois, minha mãe ganhou o LP “Italianíssimo” que rodava dia e noite e reforçava nosso sotaque italiano, próprio de uma família que nasceu na Moóca e cresceu no Brás, há muito tempo atrás.
Em cima da vitrola, uma linda estante com livros dos grandes filósofos, lembrava que depois de criar os filhos, Dona Olga criou asas e decidiu estudar. Entrou na Usp em “filosofia pura” em oitavo lugar.
Os livros continuam na estante, na casa do meu irmão. Agora, são azuis esbranquiçados. Todos gastos e com capa manuseada. Com anotações e sublinhados, marcas de quem leu e releu inúmeras vezes cada página. Embora, com o tempo, ela não tivesse mais noção de quem era Nietzche ou Platão.
Havia também duas mesinhas na sala de estar, de pés fininhos e delicados, retrato dos anos dourados. E uma poltrona berger com um corte discreto no tecido fino, escondido por uma almofada de veludo vinho.
Mas o que chamava mais minha atenção, era o quadro de um palhaço triste em cima do piano, no quarto da televisão.
De olhar tristonho, o palhacinho pintado tinha gola larga. Um quase sorriso na boca e uma melancolia nos olhos emoldurados.
Lembrava, para mim, o doce-amargo da vida. Paralelo de minha mãe e seus noventa e um anos. Lado a lado com a amargura de não mais poder caminhar sozinha nas ruas.
Mas que pintava o rosto todos os dias para nos dar alegria...
e mostrar que seguir adiante, muitas vezes, é uma arte.
Dona Olga, sempre nos fará sorrir.


