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quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PINTA DA MARIA


Maria tinha uma pinta. Uma pinta considerável. Grande. Bem ao lado do nariz.

Impossível não ser notada. Tinha até nome: Nina! Foi assim que quando criança, seu pai, brincalhão, lhe apelidou a fim de criar uma relação afetuosa da filha com a marca de nascença.

Não adiantou. Maria não gostava da pinta e do fato de que a pinta a ofuscava. 

A Nina, ou melhor, a pinta, era maior do que ela. Maior que seu rosto. Maior que tudo. Era a Maria da Pinta! Qual Maria? Aquela da pinta.

E Maria foi crescendo junto com a pinta. Trabalhou, casou, e então, desenvolveu verdadeiro ódio à pinta. Afinal, era ela a razão de todos os seus problemas. 

Perdeu o emprego. Foi a pinta! Seu filho caiu nas drogas. Tinha vergonha da pinta da mãe. Sua filha fugiu de casa. Queria se ver longe da pinta! Seu marido, depois de anos de convivência e maus tratos, amantes e falta de dinheiro, enfim a deixou... foi a pinta que ele não mais aguentou ver diante de seus olhos...

Foi assim por muitos anos. Maria e sua pinta na cara. A pinta que a escondia. Que a justificava. Às vezes, passava um pó para amenizar, mas continuava lá, escondida, a sua Nina.

Depois de muitos e muitos anos de sofrimento e uma melhor condição financeira, Maria, num impulso, resolveu tirar a pinta. 

Cirurgia marcada. Pinta retirada. Simples assim! A filha voltou. O filho ficou bom. O marido se arrependeu. Não! 

Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.

Agora, todos os dias, antes de sair de casa, Maria pinta uma pinta de mentira. No mesmo lugar...

E voltou, graças aos céus, a se queixar!
                       


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