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segunda-feira, 27 de abril de 2026

MEU GATO ARNALDO


Era um gato de rua. Totalmente urbano.

Viveu seis vidas em São Paulo, duas delas na zona leste. Nasceu na Mooca, num telhadinho movimentado, ao som de oito miados: o dele e o dos sete irmãos meio acinzentados.

Depois, vadiou pela zona oeste e terminou as duas últimas vidas na Barra Funda, entre latas imundas e uma marca de pneu nas costas. Atropelado, mais uma vez, graças à sua felina insensatez.

Já lhe faltavam alguns reflexos na sexta vida, e um motorista, sem intenção, desviou de um caminhão na descida. Foi uma traulitada doída. Ele não reclamou. Bateu as botas de novo.

Mas bateu também o medo de estar por uma vida apenas. E o felino das quebradas, acostumado às áreas de risco, entre latas de lixo e gatas sem compromisso, enfim se coçou.

Arrependido das andanças por muros farpados, das mordidas em ratos infectados, dos esgotos de onde saía encharcado… e, principalmente, da fome cruel de algumas vidas — que, como as feridas, doeram no corpo e na alma.

Um pouco de amor aos pelos teria evitado o pior.

Decidiu mudar de ruas. Correu atrás de uma perua, dessas vans que levam pacotes do correio. Entrou no meio do reboleio e se escondeu. O destino? Nem ele sabia. Mas já não queria o risco da cidade grande, nem largas avenidas, nem cruzar com gatinhas fúteis e iludidas.

A vida dos gatos urbanos andava decadente.
Queria virar a esquina.
Aproveitar a última vida, em latas mais tranquilas.

A van chegou ao destino: Boraceia, meu condomínio.

Saiu da carona de mansinho, com a cara lavada de quem conhece os truques da boa chegada.

— Sétima vida, pensou. — Vai maneiro, professor.

Adotou outro nome. Nada de apelido de rua. Agora é Gato Arnaldo. Quase humano. Experiente. Gabaritado. Com pose de quem sobe de costas no telhado.

Ontem, Arnaldo descansava no teto de vidro do meu pergolado. Espaçoso, esticado, dormindo no sol quente.

Chamei. Não veio.
Coloquei comida. Não quis.
Deixei no potinho.

Parece feliz. Faz o que quer, rodando pela bela redondeza.

Não caça mais ratos, nem restos de lixo urbano. Deixou de vez o ambiente tóxico e insano.

Agora tem jardim, comida dos vizinhos e um teto de vidro. Está maduro, sereno e decidido.

Pois é, Arnaldo…
Tenho um resto de dias nesta minha única vida, pelo menos que eu saiba. E vou seguir seu exemplo.

Tomar sol o dia inteiro.
Ficar deitada, cochilando ou lendo.

E, se me chamarem…
podem gritar.

Subo pro teto…
e não atendo.



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quarta-feira, 15 de abril de 2026

QUANDO EU ABRI O COFRE...

A casa da tia Zilda era um museu. Poltronas de veludo desbotado, com o entorno barroco, dourado. Um aparador que ela chamava de Itajér. Em cima dele, duas garrafas de vidro bico de jaca. Uma com menta. Outra, Anis. Sabores infantis. 

Às vezes, ela me deixava colocar o dedo indicador e degustar o licor. Havia também um tapete de pele de carneiro vermelho. Vasos de murano, italianos. Muitos quadros e enfeites antigos. 
O objeto que eu mais gostava era um cofrinho batizado por ela de “barrigudinho”. Feito de coco com uma fechadura de aço no umbigo. Eu adorava aquilo. A Tia Zilda abria o barrigudinho e eu libertava todas as moedinhas, sem me importar se valiam muita ou pouca coisa. 

Outro objeto que despertava minha atenção era um Dom Quixote, de ferro! Ficava sobre a mesa. Inspirador. Embora eu estivesse longe de compreender Cervantes. E assim seguia a viagem fantástica, descobrindo os verdadeiros tesouros da casa da Tia Zilda. Em cada canto, um objeto curioso. 

No final da visita, o sorvete de mamão que ela trazia numa forminha de plástico com um palito no meio. Eu devorava inteiro. E antes de ir embora, corria para o quarto antigo para ver de perto o cofre de ferro que ficava lá meio escondido. Ninguém, nunca, havia comentado nada comigo. O que teria lá dentro? Mapas? Enigmas? Poções de bruxas ou feiticeiros?   

Estremeci de medo, quando tia Zilda me disse ao pé do ouvido os números secretos pedindo que eu guardasse segredo. Dois dois, cinco dois! Giramos os botões. Para um lado e pro outro. Pronto! A porta destravou e se abriu com o leve toque da minha mão.

Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros... 
O sonho ficou desfeito. 
O cofre, sem graça, só tinha... dinheiro!


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sexta-feira, 3 de abril de 2026

A MARRA... E A BENGALA!

- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho. 

As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.

Bastava eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho. 

Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.

Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação. 

- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.

A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:

 - Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!

E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?

Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida. 

E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!

Fui embora, pedindo aos anjos que reforçassem a proteção.

 

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