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terça-feira, 1 de setembro de 2026

OS LENÇÓIS DE CAMBRAIA!

Ela guardava os lençóis num baú de madeira muito bem polido.

Tinha detalhes em dourado e uma linda fechadura com cadeado. Ficava no sótão do sobrado. 

Eu nunca vi aberto. Sabia por alto e em retalhos de conversas, dos tecidos finos que  guardava e que embalavam o meu imaginário.

O enxoval vivia no baú desde seu casamento. Eu pescava aqui e ali algumas pistas do seu rico conteúdo. Bordados ingleses, crochê, guipir, matelassê, toalhas rendadas e os... cobiçados lençóis de cambraia. 

Hilda era referência no bairro. Conseguiu formar três filhos doutores em plena década de sessenta, onde a maioria virava trabalhador operário. 

O seu sobrado era simples. No interior, boa mobília e presentes de família. Um piano que o filho mais velho comprou. Um vaso italiano de murano. E fotos da viagem à Europa que o filho do meio a levou. Veneza! Paris! Moscou!

Os filhos da Hilda eram tão exaltados que em nossa casa virou uma espécie de bordão, carregado de ironia. Se algo extraordinário acontecia... - Foram os filhos da Hilda! A gente dizia.  Minha mãe piscava. Minha tia sorria.  Elas amavam os filhos da Hilda!

No ano passado saímos de férias para Jurerê.

Sem reservas de hotel, em pleno fevereiro, procuramos um bom aconchego. 

Paramos numa pousada pequena e, da praia, um tanto distante. A piscina pequena lembrava um tanque. O quarto diminuto. A dona anunciou o preço absurdo. Quase mil reais a diária!

Toda empinada, olhando para a cama king arrumada, a senhora completou... 

-Aqui a diária é mais cara.  Os lençóis... são de cambraia!

 

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A PIPA NA VARANDA...


Dei com a pipa na minha varanda.

Presa no vaso de planta. Na varanda do terceiro andar.

Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada.

Nesse instante, a mente é que voa.

Vejo meu irmão, menino, correndo.

Pés descalços. Rua de terra.

E um bando de moleques alvoroçados por cima das telhas, atrás das pipas azuis, verdes e vermelhas.

Uma delas sempre desgarrava. Ou um menino, de propósito, cortava.

Lá ia a pipa rodopiando, caindo em giros loucos por sobre as casas e toldos.

Todo o trabalho desperdiçado. Jogado ladeira abaixo. A bagunça na mesa da cozinha. Papéis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas.

Goma arábica nunca tinha. A cola era água e farinha. E como grudava, deixando pelotinhas.

A rabiola era a parte que eu mais gostava. Naquela lembrança fininha, eu voava.

Voltei os olhos novamente para a varanda.

Agora olho para o outro lado.

Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes. Não havia separação. Nem empregado e patrão.

Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha-céu.

Amir teve medo. Hassan escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo.

Feriu os joelhos. Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo:

— Por você, eu faria mil vezes!

As lembranças das pipas e de Khaled Hosseini vieram feito um pedaço de passado, perfeitamente encapsulado.

Como diria o autor: uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.

Saí do livro.

Voltei o olhar à varanda.

Nem meu irmão. Nem os amigos afegãos.

Apenas eu e a pipa na mão.

Devo guardar?

Consertar?

Sair correndo e empinar?

O maior presente ela já me deu:

Voar!



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Foto: Inês Bari                                                                          

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A BUZINA DA BARATINHA




Ele tinha várias manias. Comer macarrão com pão. Tomar rabo de galo aos domingos, depois dos jogos de várzea nos campos do Vera Cruz. Além de ser dono de um par de olhos... incrivelmente azuis.
Era o meu pai, o velho Sylvio, que adorava brincar. Viveu a vida brincando. Sabia fazer com dobras no lenço, um ratinho de pano que acionado pelo seu rápido polegar, pulava em cima das pessoas. Em geral das crianças, que corriam de susto e depois pediam para repetir. Meu pai sorria e com seus lindos olhinhos azuis, piscava só para mim. 
O “seo” Sylvio era divertido. Imitava buzinas de carros antigos como ninguém. De todo o resto, sucesso profissional, investimentos, casamento, patrimônio adquirido é melhor não falar. Nada deu muito certo. Deixa pra lá! Para os filhos, ainda pequenos, importava mais é que ele sabia imitar a buzina do Fordinho vinte e nove.
Apesar de nunca termos andado na sua “Baratinha”, apelido do modelo que ficou bastante conhecido no bairro do Belenzinho, em uma época que havia poucos carros nas ruas.
Já nos anos setenta, tínhamos um Gordini. Todos os sábados meu pai levava a família jantar no alto da Móoca. Na volta, meu pai lançava o grande desafio. Descer do alto da Avenida Paes de Barros com o motor desligado. Na banguela, até quanto aguentasse. 
Eu, pequena, no colo de minha mãe, ficava torcendo pra que os faróis abrissem e o carro não tivesse que parar. Era excitante. E quando algum carro ficava na nossa frente, meu pai pedia que eu colocasse a mão na direção e começava a imitar a velha buzina: - arrrua! arrua! Eu adorava aquele som. Aquela aventura.

Certa vez, meu pai desviou com destreza de todos os carros à frente e mesmo quase parando, conseguimos chegar até o último farol da avenida, já quase no viaduto. Conseguimos. Que vitória sofrida!
E eu tinha ao lado um herói. 
E de olhos azuis.

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NEM SIM, NEM NÃO!


A vida, esculpida nas experiências, vai apurando nossos sentidos. 

A gente começa a perceber mais depressa as primeiras, segundas e até décimas terceiras intenções.

Um sorriso de lado.
Um gesto disfarçado.
Um aperto de mão vazio.
Um olhar mascarado.

Quanto mais desvendamos a alma humana, mais percebemos suas artimanhas.

E como é cansativo ter de ler nas entrelinhas.

O que quis dizer aquela frase pela metade?
Fulano está ressentido de verdade?
É meu amigo ou inimigo?
Foi um elogio ou pura falsidade?

As redes sociais são mestras nisso.
Meias palavras. Meias verdades. Felicidades performáticas.

E nós, depois de certa idade, já não temos estômago para tanta encenação. Viva o não!

Queremos clareza. Transparência, se possível.

Nada de dizer que está lindo quando não está.
Dizer que gosta quando apenas suporta.
Forçar felicidade para a fotografar a vida.

Chega.

Que tal abrirmos as portas? As janelas? O coração?

Como crianças, usando respostas simples:

Sim ou não.

Na juventude, seguindo a corrente, surfamos na onda do momento sem perceber muito bem onde ela vai dar.

E quando a gente amadurece e passa a conhecer um pouco melhor o ser humano — a gente cresce —, fica mais fácil decidir.

Nada de meios sorrisos.
Meias verdades.
Meias intenções.

A idade madura pede clareza.

Olho no olho.
Palavras e gestos reais.

Sejam doces ou amargos.

As Monalisas que me desculpem.

Eu prefiro os sorrisos largos.



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quarta-feira, 29 de julho de 2026

AUTO PERDÃO



 
Ela expressava seus sentimentos de forma madura. 

Estou sentindo pena do bichinho. 

Que aflição isso me deu. 

Esse filme me entristeceu... 

Mariana deixava tudo às claras. Um coração que distinguia sutis sentimentos e traduzia em palavras, surpreendendo a cada momento.

Aos três anos, na gangorra, o irmão mais velho insistia em deixá-la suspensa por um longo tempo no ar. 

Você me faz sentir medo... Por que quer me ver assim? 

Suas palavras desconsertavam feito um sopro suave e sincero de querubim.

Mariana aprendeu a hierarquia das coisas nas respostas que ouvia da família. 

Se quebrasse sem querer alguma coisa, alguém dizia: 

Não tem problema, isso acontece!

Aos seis anos, depois de muito insistir, a vó Olga deixou Mariana brincar com sua coleção de galos.

Trazidos de vários países, Portugal, Espanha, Itália, França. Era o xodó da vovó que pediu muito cuidado e colocou mais de vinte galos espalhados pelo tapete da casa.

 Chame quando enjoar.

Assim que terminou de brincar, Mariana decidiu por ela mesma, recolocar os galos de porcelana na estante alta que ficava sobre a mesa. 

Na pontinha dos pés e toda empinada, já havia recolocado um bocado, quando cinco deles caíram e espatifaram no chão.

A vó Olga entrou correndo, já prevendo o estrago e a provável conclusão.

Mariana olhou para os cacos.

Depois olhou para a vó.

E com aquele sorriso cativante, de quem já havia aprendido algumas coisas importantes sobre a vida, se auto perdoou...

- Não tem problema, vovó... Isso acontece! 


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quarta-feira, 22 de julho de 2026

NUM PISCAR DE OLHOS




Foi numa quinta de manhã. Na hora de ler a minha receita preferida naquela página toda amarrotada, com marcas  de chocolate em barra. A folha mais manuseada do meu caderninho, guardado com carinho na gaveta da cozinha. 

Olhei firme para a receita e todas as letrinhas, tal qual os ingredientes do bolo, haviam se misturado com louvor num grande liquidificador. O texto, repleto de medidas, itens e pequenos parágrafos, se transformou num bloco único. Nebuloso e compacto. Ilegível e incompreensível. Uma espécie de tratado aramaico.

Esfreguei os olhos afastando a mão que segurava o papel. Afastei mais. Mais um pouco. Fui perto da janela. Quase peguei uma lanterna. Veio, então, a constatação. Não conseguia ler! 

De um dia pra outro. Num piscar de olhos. Eu não enxergava mais as letrinhas e coisas miúdinhas. E elas eram tantas... nos rótulos, nas bulas, nas tampas. Nos contratos e boletos à pagar.

Dr Luciano, meu oftalmo, disse que é assim, um grauzinho por ano depois dos quarenta. Ele está certo. Meu olho esquerdo já passou dos três gráus. A coisa é rápida. Mas o que é rápido mesmo? Relativo, diria o grande cientista judeu-alemão, mostrando a sua língua na foto, com toda razão. 

Por trás de cada mudança, um processo interno e particular de perdas e transformações já vem engatinhando. Muitas vezes, silencioso e invisível. Porém contínuo e implacável. Inevitável com o correr dos anos.

Nascemos, crescemos, criamos filhos, escolhemos caminhos. Acertamos, erramos, recomeçamos. Assim seguimos, cambaleantes e exaustos. Com a alma cheia de sustos e sobressaltos.

Então, feito fruta madura, numa tarde dura, a gente amadurece e cai. Não dá pra saber quando vai. É o ponto xis. O piscar de olhos! 

É quando de repente nos percebemos mais velhos. Mais feios. Mais arqueados. Mais sábios, talvez.

Porém ingênuos. Acreditamos que tudo foi... num piscar de olhos! Ah vai...

 

 

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foto: cromossomosblog 
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sábado, 4 de julho de 2026

DENTRO DA NUVEM...


Eu andava dentro da nuvem feito criança perdida.

Ou, um anjo descuidado que caiu em endereço errado. 

Era uma nuvem densa. Espalhada por toda a praia. De uma beleza rara.

Com os pés descalços eu adentrava na  estranha paisagem contemplando a névoa e sua densidade. Eu seguia quase às cegas na inesperada viagem. 

Nada se via. Nem a fileira de prédios, nem os navios em alto mar. Só neblina na atmosfera. Nos olhos, nas narinas e na cara. Um súbito “fog” caiçara.

Eu avistava uns dez ou doze metros à frente, quando de repente aparecia gente. 

Uma mulher sozinha sorria, passava e sumia. Depois, uma menina. Uma mãe com criança. Um pescador. Um adolescente. Tipos diferentes....

Seguiam e sumiam também. Atrás e na frente. Curiosos com a manhã diferente que veio para nos questionar: o que vem agora? Será que demora? Quanto tempo vai durar?  

A fumaça roliça e densa foi se  dissipando. Aos poucos, desaparecendo.

As coisas belas e intactas foram lentamente reaparecendo. Tudo no seu devido lugar. Já se via a Ilha Porchat. Os prédios cada vez mais altos a nos circundar. Os navios ancorados no mar.

A vida, às vezes é uma nuvem branca. Estamos dentro dela. Não sabemos o que vem. Quem chega. Quem vai. Quem termina com quem. 

Alguns passam ligeiros. Outros chegam e metem medo. Uns caminham ao lado, compartilhando cada momento. São os amigos do peito.

Mas às vezes cegamos e não vemos mais nada. Até que o sol volte a aquecer e dissipe a névoa nos mostrando novamente a estrada.
 
Achei que encontraria anjos naquela nuvem. Parentes. Amigos incríveis que já se foram. Mas estes devem estar em outras esferas. Mais altas e distantes aqui da Terra.

Só uma andorinha confusa apareceu na areia, atendeu meu pedido e depois para o céu voltou. 

Por favor, manda um beijo pra mamãe, pro meu pai... E não esquece do vovô! 


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Foto da amiga de caminhada... Célia Loriggio







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quarta-feira, 1 de julho de 2026

A PINTA DA MARIA


Maria tinha uma pinta. Uma pinta considerável. Grande. Bem ao lado do nariz.

Impossível não ser notada. Tinha até nome: Nina! Foi assim que quando criança, seu pai, brincalhão, lhe apelidou a fim de criar uma relação afetuosa da filha com a marca de nascença.

Não adiantou. Maria não gostava da pinta e do fato de que a pinta a ofuscava. 

A Nina, ou melhor, a pinta, era maior do que ela. Maior que seu rosto. Maior que tudo. Era a Maria da Pinta! Qual Maria? Aquela da pinta.

E Maria foi crescendo junto com a pinta. Trabalhou, casou, e então, desenvolveu verdadeiro ódio à pinta. Afinal, era ela a razão de todos os seus problemas. 

Perdeu o emprego. Foi a pinta! Seu filho caiu nas drogas. Tinha vergonha da pinta da mãe. Sua filha fugiu de casa. Queria se ver longe da pinta! Seu marido, depois de anos de convivência e maus tratos, amantes e falta de dinheiro, enfim a deixou... foi a pinta que ele não mais aguentou ver diante de seus olhos...

Foi assim por muitos anos. Maria e sua pinta na cara. A pinta que a escondia. Que a justificava. Às vezes, passava um pó para amenizar, mas continuava lá, escondida, a sua Nina.

Depois de muitos e muitos anos de sofrimento e uma melhor condição financeira, Maria, num impulso, resolveu tirar a pinta. 

Cirurgia marcada. Pinta retirada. Simples assim! A filha voltou. O filho ficou bom. O marido se arrependeu. Não! 

Nada disso aconteceu. E o pior, a cara da Maria apareceu. Nariz adunco. Olhos tristes e marcados. Boca amarga e um bigode chinês. Pobre e vulnerável Maria. Sem a antiga pinta da Maria.

Agora, todos os dias, antes de sair de casa, Maria pinta uma pinta de mentira. No mesmo lugar...

E voltou, graças aos céus, a se queixar!
                       


*                *                   *                                                                                        

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

AS TEVÊS E AS COPAS...


Na copa de setenta eu via tudo em branco e preto. Gerson, Pelé, Jairzinho... Nada de Canarinho ou seleção verde e amarela! Todos eram cinzas. Até o chapéu mexicano que colocaram no Pelé, na festa final do Tri, era cinzento.

Anos mais tarde, revi a cena toda colorida, em tons vibrantes de amarelo, verde e vermelho.

Uma vizinha viu tudo colorido. Mais ou menos colorido... Ela comprou uma tela de plástico, cheia de ondas horizontais, e fixou na frente do visor do seu velho aparelho de tubo. Aquilo dava tons verdes, amarelos e azulados às imagens, num tecnicolor fajuto e furta-cor. Ela gostava. Gritava animada... Gooool!

Já a copa de setenta e quatro foi uma loucura geral. Todo mundo atrás da tevê em cores, que acabava de chegar. Quem tinha mais dinheiro já via desde setenta e dois, quando ela estreou oficialmente por aqui. Muita gente nem viu!

Lembro do meu irmão, recém-estagiário, comprando a nossa tevê com o primeiro salário. Sonho de ver colorido a seleção faturar. Deu azar. A Canarinho foi de lascar. Com Riva e tudo. Valdomiro é o único nome que consigo lembrar...

Depois vieram outras copas.

Setenta e oito, de Coutinho. Ter uma tevê em cores já era normal. Brasil, campeão moral.

Oitenta e dois... a tristeza estampada nas telas e o choro do garotinho na capa do jornal.

Daí por diante, as tevês foram evoluindo... e o nosso futebol, sempre fora da final. Em oitenta e seis, o Brasil perdeu outra vez. E foi pra França, sem saber que viraria freguês!

Já em noventa, as tevês de tubo começaram a afinar... e o futebol do Brasil, a definhar. Lazaroni foi de amargar.

Mas em noventa e quatro, com Parreira e os baixinhos Bebeto e Romário, o Brasil e as tevês ganharam poder de resolução! Brasil tetra campeão. E som estéreo pra gritar goooool!

A copa de noventa e oito assisti numa tevê de vinte e nove polegadas. Vi um Zidane gigante acabando com a mascarada.

Já em dois mil e dois, minha primeira tevê plana, ligada de madrugada! E os três erres em grande jornada. Era o penta que chegava.

De lá pra cá, as tevês se modernizaram. Aumentaram de tamanho e de preço. Agora é LED, 4K, Smart TV.

E o futebol arte do Brasil? Mudou pro outro continente!

Craque agora tem chuteira colorida e cabelo diferente. Joga bem só longe da gente.

Os técnicos influencers mandam recado. Não basta torcer pro Brasil... tem que gastar uma grana suada nas bets e nas lojas, comprando tevê de cinquenta, sessenta, oitenta polegadas!

E o tamanho do nosso futebol?

Depois dos sete a um... melhor não comparar.

Em tempos de Neymar...
não é mais tamanho de jogador.

É tamanho de superstar!


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terça-feira, 9 de junho de 2026

A RUA DE TERRA LARANJA...

                 

    

Tudo ficava meio alaranjado. 

Os pés, as canelas, os braços e o rosto perto do nariz e da boca que com a mão eram tocados. A rua de terra da vizinhança deixava suas manchas de alegria laranja nas crianças. 

Meninos empoeirados jogavam e corriam descalços na frente do golzinho de dois paus improvisados. 

Eu morava na casa branca da avenida de asfalto. Rua Conselheiro Justino, que se transformou, mais tarde, na gigante Radial Leste. Virando a esquina, na rua de trás, era a rua de terra alaranjada. Pequena, com casinhas de um lado, e do outro, um muro alto de fábrica, de tijolo descascado. 

De dia e de tarde a rua ecoava ruídos humanos. Risos de meninas e meninos brincando até ao anoitecer, quando voltavam imundos pra casa. Minha mãe sorria quando meu irmão, no banheiro, perguntava: o que é pra lavar direito, mesmo? - Tudo. Dos pés ao fio de cabelo. Capricha nos dedos e nos joelhos! 

Às vezes ele pedia ajuda. Bater com o peito do pé na bola de capotão molhada e dura criava uma espécie de pele cascuda. Lama dura. Tinha que passar creme e esfregar com força e até escovão. Não reclamavam. Era o preço da diversão. 

Segunda feira, os pés já limpos na meia branquinha e com sapatos engraxados, seguiam para o colégio no ônibus do Colégio do Carmo. 

Era nos finais de semana que a rua de terra fazia valer o seu destino de rua feliz...

Lá se encontravam bons e antigos vizinhos, todos com filhos. 

Os portugueses e sua varanda de orquídeas. A família italiana com vinhos e cantorias. Os espanhóis da venda de empanadas... 

e emoldurando toda a rua, a paisagem laranja colorindo os muros e calçadas. 

Foram quatro anos sonhando com a rua de terra que eu via na pele dos garotos só de passagem. Eu não tinha idade.

Foi na semana das festas juninas que veio o batismo e a inauguração: - Podem levar a menina na rua de terra. Mas não descuidem um só minuto dela! 

Toda arrumadinha, vestido de remendos e fitas juninas, larguei de pronto a mão do meu irmão e sai correndo pra tocar o chão. 

Tirei os meus sapatos fechados, estendi os dedos, alarguei os passos e pisei na terra laranja, sujando meus pés limpinhos com rebeldia e carinho. 

Depois achei uma poça d’água e coloquei os pés pra enxaguar. A cor laranja se espalhou pelos poros, pelos pés, pernas e canelas... 

Rua de terra. Agora eu sabia... o prazer que era.


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segunda-feira, 27 de abril de 2026

MEU GATO ARNALDO


Era um gato de rua. Totalmente urbano.

Viveu seis vidas em São Paulo, duas delas na zona leste. Nasceu na Mooca, num telhadinho movimentado, ao som de oito miados: o dele e o dos sete irmãos meio acinzentados.

Depois, vadiou pela zona oeste e terminou as duas últimas vidas na Barra Funda, entre latas imundas e uma marca de pneu nas costas. Atropelado, mais uma vez, graças à sua felina insensatez.

Já lhe faltavam alguns reflexos na sexta vida, e um motorista, sem intenção, desviou de um caminhão na descida. Foi uma traulitada doída. Ele não reclamou. Bateu as botas de novo.

Mas bateu também o medo de estar por uma vida apenas. E o felino das quebradas, acostumado às áreas de risco, entre latas de lixo e gatas sem compromisso, enfim se coçou.

Arrependido das andanças por muros farpados, das mordidas em ratos infectados, dos esgotos de onde saía encharcado… e, principalmente, da fome cruel de algumas vidas — que, como as feridas, doeram no corpo e na alma.

Um pouco de amor aos pelos teria evitado o pior.

Decidiu mudar de ruas. Correu atrás de uma perua, dessas vans que levam pacotes do correio. Entrou no meio do reboleio e se escondeu. O destino? Nem ele sabia. Mas já não queria o risco da cidade grande, nem largas avenidas, nem cruzar com gatinhas fúteis e iludidas.

A vida dos gatos urbanos andava decadente.
Queria virar a esquina.
Aproveitar a última vida, em latas mais tranquilas.

A van chegou ao destino: Boraceia, meu condomínio.

Saiu da carona de mansinho, com a cara lavada de quem conhece os truques da boa chegada.

— Sétima vida, pensou. — Vai maneiro, professor.

Adotou outro nome. Nada de apelido de rua. Agora é Gato Arnaldo. Quase humano. Experiente. Gabaritado. Com pose de quem sobe de costas no telhado.

Ontem, Arnaldo descansava no teto de vidro do meu pergolado. Espaçoso, esticado, dormindo no sol quente.

Chamei. Não veio.
Coloquei comida. Não quis.
Deixei no potinho.

Parece feliz. Faz o que quer, rodando pela bela redondeza.

Não caça mais ratos, nem restos de lixo urbano. Deixou de vez o ambiente tóxico e insano.

Agora tem jardim, comida dos vizinhos e um teto de vidro. Está maduro, sereno e decidido.

Pois é, Arnaldo…
Tenho um resto de dias nesta minha única vida, pelo menos que eu saiba. E vou seguir seu exemplo.

Tomar sol o dia inteiro.
Ficar deitada, cochilando ou lendo.

E, se me chamarem…
podem gritar.

Subo pro teto…
e não atendo.



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quarta-feira, 15 de abril de 2026

QUANDO EU ABRI O COFRE...

A casa da tia Zilda era um museu. Poltronas de veludo desbotado, com o entorno barroco, dourado. Um aparador que ela chamava de Itajér. Em cima dele, duas garrafas de vidro bico de jaca. Uma com menta. Outra, Anis. Sabores infantis. 

Às vezes, ela me deixava colocar o dedo indicador e degustar o licor. Havia também um tapete de pele de carneiro vermelho. Vasos de murano, italianos. Muitos quadros e enfeites antigos. 
O objeto que eu mais gostava era um cofrinho batizado por ela de “barrigudinho”. Feito de coco com uma fechadura de aço no umbigo. Eu adorava aquilo. A Tia Zilda abria o barrigudinho e eu libertava todas as moedinhas, sem me importar se valiam muita ou pouca coisa. 

Outro objeto que despertava minha atenção era um Dom Quixote, de ferro! Ficava sobre a mesa. Inspirador. Embora eu estivesse longe de compreender Cervantes. E assim seguia a viagem fantástica, descobrindo os verdadeiros tesouros da casa da Tia Zilda. Em cada canto, um objeto curioso. 

No final da visita, o sorvete de mamão que ela trazia numa forminha de plástico com um palito no meio. Eu devorava inteiro. E antes de ir embora, corria para o quarto antigo para ver de perto o cofre de ferro que ficava lá meio escondido. Ninguém, nunca, havia comentado nada comigo. O que teria lá dentro? Mapas? Enigmas? Poções de bruxas ou feiticeiros?   

Estremeci de medo, quando tia Zilda me disse ao pé do ouvido os números secretos pedindo que eu guardasse segredo. Dois dois, cinco dois! Giramos os botões. Para um lado e pro outro. Pronto! A porta destravou e se abriu com o leve toque da minha mão.

Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros... 
O sonho ficou desfeito. 
O cofre, sem graça, só tinha... dinheiro!


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sexta-feira, 3 de abril de 2026

A MARRA... E A BENGALA!

- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho. 

As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.

Bastava eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho. 

Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.

Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação. 

- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.

A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:

 - Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!

E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?

Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida. 

E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!

Fui embora, pedindo aos anjos que reforçassem a proteção.

 

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quinta-feira, 19 de março de 2026

FOLHAS DE OUTONO



Eu caminhava nas tardes de outono pela estrada forrada de folhas secas, marrons e douradas, caídas das copas das árvores. Foi o tempo ou foi o vento? Eu perguntava e eu mesma respondia, os dois! O outono é assim. Tempo de ventos e renovação. Algo sempre morre. O novo toma lugar.

O caminho de terra sombreado pelos galhos acumulava várias camadas de folhas, produzindo um crepitar seco e quebradiço ao pisar. Muitas vezes eu ia com os pés descalços só para tatear. Apreciava o som de cada passo. E o piar de alguns pássaros completando a trilha natural. 

As aves entocadas também trocavam suas plumagens. De quem é essa pena? Sabiá laranjeira, eu dizia sem convicção. Pode ser que sim, ou que não. O outono é assim...

Nos dias chuvosos a estrada ficava úmida. Também tinha beleza. Era o pisar do macerar. Macieza umectante. Alguns pássaros, ainda que distantes acompanhavam na esperança de algum bichinho na terra, saltitante. Sempre havia um inseto descuidado, coitado. 

Eu ia com minha mãe procurar pinhas para enfeitar o Natal. Mas já? É que as pinhas tem de descansar. Secar bem, para abrir os gomos por inteiro, feito flores de madeira, prontas para enfeitar a ceia. E elas estavam lá, espalhadas pela estrada. Algumas pequenas e quebradas. Outras perfeitas. Colocávamos as melhores no chapéu de palha. E o sol tímido não esquentava nossas cabeças. O outono é assim...

Levávamos, eu e ela, um cajado. Galho duro que eu procurava feito detetive no meio do mato. Logo achava um pequeno jogado e ajudava minha mãe a encontrar um cajado maior e mais largo. Nosso andar era calmo e cheio de perguntas sem respostas. A cerquinha caiu! Foi o tempo ou foi o vento? Os dois. O outono é assim...

Hoje, os passeios e o chão de folhas secas ficaram na lembrança dos outonos da minha infância. Em algum sítio da memória. Tenho pisado em terrenos mais urbanos. Ouvindo sons de carros e lamentos humanos. As caminhadas na areia ainda resistem, mas as pisadas somem rapidamente com as ondas do mar.

As folhas, o cajado e minha mãe ao lado, continuam eternos. A saudade bateu hoje em mim. 

Foi o tempo ou foi o vento? O outono é assim...      


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sábado, 14 de março de 2026

OITO CACHOS... NADA MAIS!

Ela subia num degrauzinho de madeira para ficar mais alta e ajudar por alguns minutos no caixa. 

A venda da Dona Emília era daquelas antigas, com prateleiras de madeira escura, grandes sacos de juta com bordas enroladas, cheios de arroz, feijão e milho em grãos. Latões de óleo. E uma vitrina de doces coloridos que juntava crianças feito formiguinhas no açucareiro.

Na lousa preta, na porta principal da venda, escrito com giz, o chamariz: "Aqui tem, o melhor sorvete de ameixa do Belém!" Devia ser. Aos sábados fazia fila na venda da Dona Emília.

A casa da família era no andar de cima e perto do meio dia, minha vó subia para aprontar o almoço, entornar as ameixas no leite cremoso e fazer mais um latão do sorvete famoso. 

O avô, que tinha levantado às três da manhã para comprar as mercadorias, acordava a contragosto e descia para tomar seu posto, até minha mãe, pequenina chegar e se oferecer para ajudar.

As meninas do bairro só pensavam nos vestidos e nos cabelos de domingo. Minha mãe continuava no caixa, lendo um livro ou um gibi. Foi assim até a adolescência. As meninas liam revistas. Minha mãe, Machado de Assis.

A revista Cruzeiro com as estrelas de Hollywood definia a roupa e os cabelos da moda. As costureiras do bairro trabalhavam para reproduzir igualzinho, encontrando os tecidos perfeitos.

Minha mãe escolhia um vestido antigo que não servia mais para a irmã mais velha e vestia. Dona Emília ajustava no corpo com a ajuda da velha máquina de costura. Mas o cabelo era a parte mais dura. Não tinha paciência, nem desenvoltura.

Algumas garotas contavam seus cento e vinte cachinhos. Sessenta pra cada lado. Ou nem saiam para o desfile de sábado. Ser "Shirley Temple" ( imagem) dava um trabalho danado. A manhã inteira com bigudins pendurados, pensando nos cachos e nos futuros namorados.

Poucas horas antes do "footing", minha mãe largava os livros e corria para fazer seus oito cachos. Quatro pra cada lado. Nada mais. A tarefa a aborrecia demais.

Pouco antes de sair ela soltava as madeixas. Os cachos lambidos escorriam da sua cabeça. Ela sorria. Não ligava. Não combinava com as duras cabeças empoladas.

Meu pai, um dos rapazes cobiçados do bairro do Belém, disse certa vez o que viu de diferente na minha mãe, no meio de tantas divas hollywoodianas com seus cabelos de spray.

Sua mãe tinha a justa medida. No vestido simples, o corpo bonito transparecia. Sua boca alegre sorria. 

E o cabelo... ah, o cabelo, natural e leve. O vento desenrolava e ele bailava... e se mexia! O cabelo também sorria.


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quarta-feira, 4 de março de 2026

SEM EIRA, NEM BEIRA..


                   

Ali, no Centro histórico de Cananéia , algumas verdades  aprisionadas ainda ecoam nos casarios mais antigos.

Paredes grossas feitas de pedra, conchas e sambaquis guardam  energias densas da escravidão. Muitas casas são hoje rústicos restaurantes e guardam masmorras e tristes objetos no porão. 

Servem peixes e a famosa ostra da região. Mas o som dos escravos parece ecoar em nossas mentes. Há uma angústia em quem visita os velados ambientes.

Cananeia é litoral sul paulista, chamada “Cidade Ilustre do Brasil”. Assim como Paraty, carrega histórias nas velhas pedras ascentadas nas ruas e caçadas.

Foi nesse primeiro povoado que viveu o degredado Cosme Fernandes, homem mau, que chegou aqui, antes mesmo de Cabral. 

A maioria das casinhas coloniais está conservada e é possível ver nos telhados a antiga divisão social.

Os ricos construíam o telhado com três camadas: eira, beira e tribeira. Os mais pobres — nem eira, nem beira! Daí a expressão que retrata alguém sem posses, sem um tostão na carteira, cuja casa só tem um telhado. Sem eira, nem beira! 

A maioria é gente simples, como os pescadores do local.

Um simpático morador nos levou até o Sítio do Cardoso. Lá, a gente chega e escolhe o peixe que vai comer no almoço, feito ali, na hora e no fogo.

Escolhemos paraty e peixe-galo e seguimos em direção à trilha de bromélias e araçás que levava até o mar.

A praia rústica, as armadilhas indígenas feitas de gravetos e os golfinhos ao fundo davam a moldura da natureza preservada e linda.

Uma tartaruga marinha veio nos cumprimentar e dar boas-vindas.

Na volta, o peixe já frito, a cachaça de cataia e um pescador de camarões contando causos do mar.

Tudo simples. Como a gente bem podia ser.

Sem besteira! Nem eira. Nem beira.


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 Rua Tristão Lobo, Cananéia 


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