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segunda-feira, 27 de abril de 2026

MEU GATO ARNALDO


Era um gato de rua. Totalmente urbano.

Viveu seis vidas em São Paulo, duas delas na zona leste. Nasceu na Mooca, num telhadinho movimentado, ao som de oito miados: o dele e o dos sete irmãos meio acinzentados.

Depois, vadiou pela zona oeste e terminou as duas últimas vidas na Barra Funda, entre latas imundas e uma marca de pneu nas costas. Atropelado, mais uma vez, graças à sua felina insensatez.

Já lhe faltavam alguns reflexos na sexta vida, e um motorista, sem intenção, desviou de um caminhão na descida. Foi uma traulitada doída. Ele não reclamou. Bateu as botas de novo.

Mas bateu também o medo de estar por uma vida apenas. E o felino das quebradas, acostumado às áreas de risco, entre latas de lixo e gatas sem compromisso, enfim se coçou.

Arrependido das andanças por muros farpados, das mordidas em ratos infectados, dos esgotos de onde saía encharcado… e, principalmente, da fome cruel de algumas vidas — que, como as feridas, doeram no corpo e na alma.

Um pouco de amor aos pelos teria evitado o pior.

Decidiu mudar de ruas. Correu atrás de uma perua, dessas vans que levam pacotes do correio. Entrou no meio do reboleio e se escondeu. O destino? Nem ele sabia. Mas já não queria o risco da cidade grande, nem largas avenidas, nem cruzar com gatinhas fúteis e iludidas.

A vida dos gatos urbanos andava decadente.
Queria virar a esquina.
Aproveitar a última vida, em latas mais tranquilas.

A van chegou ao destino: Boraceia, meu condomínio.

Saiu da carona de mansinho, com a cara lavada de quem conhece os truques da boa chegada.

— Sétima vida, pensou. — Vai maneiro, professor.

Adotou outro nome. Nada de apelido de rua. Agora é Gato Arnaldo. Quase humano. Experiente. Gabaritado. Com pose de quem sobe de costas no telhado.

Ontem, Arnaldo descansava no teto de vidro do meu pergolado. Espaçoso, esticado, dormindo no sol quente.

Chamei. Não veio.
Coloquei comida. Não quis.
Deixei no potinho.

Parece feliz. Faz o que quer, rodando pela bela redondeza.

Não caça mais ratos, nem restos de lixo urbano. Deixou de vez o ambiente tóxico e insano.

Agora tem jardim, comida dos vizinhos e um teto de vidro. Está maduro, sereno e decidido.

Pois é, Arnaldo…
Tenho um resto de dias nesta minha única vida, pelo menos que eu saiba. E vou seguir seu exemplo.

Tomar sol o dia inteiro.
Ficar deitada, cochilando ou lendo.

E, se me chamarem…
podem gritar.

Subo pro teto…
e não atendo.



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quarta-feira, 15 de abril de 2026

QUANDO EU ABRI O COFRE...

A casa da tia Zilda era um museu. Poltronas de veludo desbotado, com o entorno barroco, dourado. Um aparador que ela chamava de Itajér. Em cima dele, duas garrafas de vidro bico de jaca. Uma com menta. Outra, Anis. Sabores infantis. 

Às vezes, ela me deixava colocar o dedo indicador e degustar o licor. Havia também um tapete de pele de carneiro vermelho. Vasos de murano, italianos. Muitos quadros e enfeites antigos. 
O objeto que eu mais gostava era um cofrinho batizado por ela de “barrigudinho”. Feito de coco com uma fechadura de aço no umbigo. Eu adorava aquilo. A Tia Zilda abria o barrigudinho e eu libertava todas as moedinhas, sem me importar se valiam muita ou pouca coisa. 

Outro objeto que despertava minha atenção era um Dom Quixote, de ferro! Ficava sobre a mesa. Inspirador. Embora eu estivesse longe de compreender Cervantes. E assim seguia a viagem fantástica, descobrindo os verdadeiros tesouros da casa da Tia Zilda. Em cada canto, um objeto curioso. 

No final da visita, o sorvete de mamão que ela trazia numa forminha de plástico com um palito no meio. Eu devorava inteiro. E antes de ir embora, corria para o quarto antigo para ver de perto o cofre de ferro que ficava lá meio escondido. Ninguém, nunca, havia comentado nada comigo. O que teria lá dentro? Mapas? Enigmas? Poções de bruxas ou feiticeiros?   

Estremeci de medo, quando tia Zilda me disse ao pé do ouvido os números secretos pedindo que eu guardasse segredo. Dois dois, cinco dois! Giramos os botões. Para um lado e pro outro. Pronto! A porta destravou e se abriu com o leve toque da minha mão.

Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros... 
O sonho ficou desfeito. 
O cofre, sem graça, só tinha... dinheiro!


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sexta-feira, 3 de abril de 2026

A MARRA... E A BENGALA!

- Não vai até o orquidário sozinho. Cuidado com a quina do armário. Não esquece o agasalho. 

As palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, de fininho.

Bastava eu passar pela porta e lá ia o seo Sylvio do jeito que bem entendesse, caminhando lento, errando os endereços, atravessando ruas e avenidas perigosas e tirando fina das carros. Ninguém lhe botava freio, muito menos agasalho. 

Levava incontáveis tombos, mas não quebrava muita coisa. Os anjos já o conheciam e o protegiam, numa espécie de acordo. Havia sempre um roxinho nas mãos e no ombro. Arranhava a testa e os joelhos. Pra diminuir nosso receio e cuidar da sua velha rebeldia, pagamos a Luzia que cozinhava e lembrava dos seus dezessete remédios por dia. Para o estômago, coração, pressão, disfagia.

Uma vez, meu pai caiu no meio da calçada. Meu irmão encontrou, então, a solução. Comprou uma bengala! Daquelas feias, de quatro garras curvadas. Deixei na entrada da casa e olhei de esguio o semblante de meu pai, que mostrava ar de desprezo e indignação. 

- É presente do meu irmão! Falei rapidamente e fui embora, sem maior explicação.

A semana passou e seo Sylvio me chamou para uma conversa séria:

 - Senta aqui e presta atenção. Liga pro seu irmão. Eu não preciso de bengala de garra. Tira ela da sala! Eu nunca vou usar essa lambisgaia!

E terminou o seu discurso com a questão definitiva na ponta da língua: - quem é que manda em mim, ainda?

Sorri, dando um beijo de filha em sua testa ferida, marcada pelas rugas, recentes machucados e sinais dos anos de vida. 

E devolvendo o mínimo da sua autoridade, falei com desprendimento e amor: - quem manda ainda é o senhor!

Fui embora, pedindo aos anjos que reforçassem a proteção.

 

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quinta-feira, 19 de março de 2026

FOLHAS DE OUTONO



Eu caminhava nas tardes de outono pela estrada forrada de folhas secas, marrons e douradas, caídas das copas das árvores. Foi o tempo ou foi o vento? Eu perguntava e eu mesma respondia, os dois! O outono é assim. Tempo de ventos e renovação. Algo sempre morre. O novo toma lugar.

O caminho de terra sombreado pelos galhos acumulava várias camadas de folhas, produzindo um crepitar seco e quebradiço ao pisar. Muitas vezes eu ia com os pés descalços só para tatear. Apreciava o som de cada passo. E o piar de alguns pássaros completando a trilha natural. 

As aves entocadas também trocavam suas plumagens. De quem é essa pena? Sabiá laranjeira, eu dizia sem convicção. Pode ser que sim, ou que não. O outono é assim...

Nos dias chuvosos a estrada ficava úmida. Também tinha beleza. Era o pisar do macerar. Macieza umectante. Alguns pássaros, ainda que distantes acompanhavam na esperança de algum bichinho na terra, saltitante. Sempre havia um inseto descuidado, coitado. 

Eu ia com minha mãe procurar pinhas para enfeitar o Natal. Mas já? É que as pinhas tem de descansar. Secar bem, para abrir os gomos por inteiro, feito flores de madeira, prontas para enfeitar a ceia. E elas estavam lá, espalhadas pela estrada. Algumas pequenas e quebradas. Outras perfeitas. Colocávamos as melhores no chapéu de palha. E o sol tímido não esquentava nossas cabeças. O outono é assim...

Levávamos, eu e ela, um cajado. Galho duro que eu procurava feito detetive no meio do mato. Logo achava um pequeno jogado e ajudava minha mãe a encontrar um cajado maior e mais largo. Nosso andar era calmo e cheio de perguntas sem respostas. A cerquinha caiu! Foi o tempo ou foi o vento? Os dois. O outono é assim...

Hoje, os passeios e o chão de folhas secas ficaram na lembrança dos outonos da minha infância. Em algum sítio da memória. Tenho pisado em terrenos mais urbanos. Ouvindo sons de carros e lamentos humanos. As caminhadas na areia ainda resistem, mas as pisadas somem rapidamente com as ondas do mar.

As folhas, o cajado e minha mãe ao lado, continuam eternos. A saudade bateu hoje em mim. 

Foi o tempo ou foi o vento? O outono é assim...      


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sábado, 14 de março de 2026

OITO CACHOS... NADA MAIS!

Ela subia num degrauzinho de madeira para ficar mais alta e ajudar por alguns minutos no caixa. 

A venda da Dona Emília era daquelas antigas, com prateleiras de madeira escura, grandes sacos de juta com bordas enroladas, cheios de arroz, feijão e milho em grãos. Latões de óleo. E uma vitrina de doces coloridos que juntava crianças feito formiguinhas no açucareiro.

Na lousa preta, na porta principal da venda, escrito com giz, o chamariz: "Aqui tem, o melhor sorvete de ameixa do Belém!" Devia ser. Aos sábados fazia fila na venda da Dona Emília.

A casa da família era no andar de cima e perto do meio dia, minha vó subia para aprontar o almoço, entornar as ameixas no leite cremoso e fazer mais um latão do sorvete famoso. 

O avô, que tinha levantado às três da manhã para comprar as mercadorias, acordava a contragosto e descia para tomar seu posto, até minha mãe, pequenina chegar e se oferecer para ajudar.

As meninas do bairro só pensavam nos vestidos e nos cabelos de domingo. Minha mãe continuava no caixa, lendo um livro ou um gibi. Foi assim até a adolescência. As meninas liam revistas. Minha mãe, Machado de Assis.

A revista Cruzeiro com as estrelas de Hollywood definia a roupa e os cabelos da moda. As costureiras do bairro trabalhavam para reproduzir igualzinho, encontrando os tecidos perfeitos.

Minha mãe escolhia um vestido antigo que não servia mais para a irmã mais velha e vestia. Dona Emília ajustava no corpo com a ajuda da velha máquina de costura. Mas o cabelo era a parte mais dura. Não tinha paciência, nem desenvoltura.

Algumas garotas contavam seus cento e vinte cachinhos. Sessenta pra cada lado. Ou nem saiam para o desfile de sábado. Ser "Shirley Temple" ( imagem) dava um trabalho danado. A manhã inteira com bigudins pendurados, pensando nos cachos e nos futuros namorados.

Poucas horas antes do "footing", minha mãe largava os livros e corria para fazer seus oito cachos. Quatro pra cada lado. Nada mais. A tarefa a aborrecia demais.

Pouco antes de sair ela soltava as madeixas. Os cachos lambidos escorriam da sua cabeça. Ela sorria. Não ligava. Não combinava com as duras cabeças empoladas.

Meu pai, um dos rapazes cobiçados do bairro do Belém, disse certa vez o que viu de diferente na minha mãe, no meio de tantas divas hollywoodianas com seus cabelos de spray.

Sua mãe tinha a justa medida. No vestido simples, o corpo bonito transparecia. Sua boca alegre sorria. 

E o cabelo... ah, o cabelo, natural e leve. O vento desenrolava e ele bailava... e se mexia! O cabelo também sorria.


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quarta-feira, 4 de março de 2026

SEM EIRA, NEM BEIRA..


                   

Ali, no Centro histórico de Cananéia , algumas verdades  aprisionadas ainda ecoam nos casarios mais antigos.

Paredes grossas feitas de pedra, conchas e sambaquis guardam  energias densas da escravidão. Muitas casas são hoje rústicos restaurantes e guardam masmorras e tristes objetos no porão. 

Servem peixes e a famosa ostra da região. Mas o som dos escravos parece ecoar em nossas mentes. Há uma angústia em quem visita os velados ambientes.

Cananeia é litoral sul paulista, chamada “Cidade Ilustre do Brasil”. Assim como Paraty, carrega histórias nas velhas pedras ascentadas nas ruas e caçadas.

Foi nesse primeiro povoado que viveu o degredado Cosme Fernandes, homem mau, que chegou aqui, antes mesmo de Cabral. 

A maioria das casinhas coloniais está conservada e é possível ver nos telhados a antiga divisão social.

Os ricos construíam o telhado com três camadas: eira, beira e tribeira. Os mais pobres — nem eira, nem beira! Daí a expressão que retrata alguém sem posses, sem um tostão na carteira, cuja casa só tem um telhado. Sem eira, nem beira! 

A maioria é gente simples, como os pescadores do local.

Um simpático morador nos levou até o Sítio do Cardoso. Lá, a gente chega e escolhe o peixe que vai comer no almoço, feito ali, na hora e no fogo.

Escolhemos paraty e peixe-galo e seguimos em direção à trilha de bromélias e araçás que levava até o mar.

A praia rústica, as armadilhas indígenas feitas de gravetos e os golfinhos ao fundo davam a moldura da natureza preservada e linda.

Uma tartaruga marinha veio nos cumprimentar e dar boas-vindas.

Na volta, o peixe já frito, a cachaça de cataia e um pescador de camarões contando causos do mar.

Tudo simples. Como a gente bem podia ser.

Sem besteira! Nem eira. Nem beira.


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 Rua Tristão Lobo, Cananéia 


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

NO ESPELHO É MAIS FÁCIL...


Ela ensaiou horas diante do espelho. Decorou frases de efeito tiradas de um livro de autoajuda perfeito. Buscou as palavras mais duras. Um misto de amor e amargura. Uma conversa sem freios ou rodeios. Flechas certeiras no coração do ex-companheiro.  

Planejou um choro discreto. Muito equilíbrio e um resto amargo de afeto. Era o discurso perfeito para um encontro casual. No saguão do restaurante habitual ou no caminho do toillete. 

Imaginou-se de vestido leve, salto alto e olhar sexy. Ele, com ar de cansaço, desgosto, saindo do trabalho e uma expressão de arrependimento no rosto.

Finalmente Beatriz diria o que tinha guardado por anos. A dor da traição. A solidão e o desabar dos seus sonhos. O quanto foi cruel o parceiro, desprezível e desumano. Nem os cinco dias, dois meses e seis anos, tinham conseguido apagar. 

Não foi assim que se deu. 

Naquele sábado tumultuado ela entrou no mercado do seu Nereu. Bermuda velha, chinelo velho e cabelo que ela mesma prendeu. 
Ele, estacionou em frente com sua Mercedes, reluzente. Terno elegante, ar de contente e um par de óculos escuros. Os dois enfim se cruzavam, agora mais maduros.

- Beatriz? 
- Joa...quim!
- Parece nervosa. 
- Bobagem. Estou bem... bem feliz. 
- Que ótimo, estou com pressa, muita pressa! 
E partiu, dando um beijo frio em sua testa.

Beatriz engoliu todas as palavras pensadas e treinadas, por mais de seis anos, dois meses e agora, seis dias. 

A vida, é sem ensaio, Bia. 


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A FLOR GUARDADA

Entre as páginas amarelas e o cheiro de papel envelhecido encontrei a flor presa e amassada. 

De aparência seca e desmontada, mas ainda flor, embora o tempo lhe tivesse roubado a cor.

Passei a mão com cuidado, como se acariciasse um pássaro, frágil. Tentei lembrar por que a guardei. De quem era? Em que momento da minha vida ela se tornou tão  importante para ser preservada? O silêncio alto me incomodava.

Aquela flor sem história não me dizia nada e carregava tantas possibilidades. Lembrança de um encontro no passado? Onde as palavras foram sufocadas e nas páginas, lacradas? Uma paixão breve que deixou seu rastro leve? 

Quem sabe, um presente da natureza! Uma flor caída no caminho se dissolveria num jardim vizinho e eu não a deixaria para trás. O livro, então, tornou-se um cofre. Um abrigo onde o tempo não iria tocar. 

Ou simplesmente por nada. Eu, criança, tentando esconder a flor roubada. Maldade infantil para ver, um dia, suas pétalas amassadas. 

Seca, prensada entre as palavras, a flor guardou sua história dentro de outras histórias. O dia em que foi colhida e a luz do sol que brilhava no dia que sumiu no livro e hibernou.

Eu continuo olhando a flor, murcha e dormente. Nós, humanos somos assim. Guardamos coisas sem motivo aparente e esquecemos as mais importantes. 

Fechei o livro. Deixei a flor onde estava. Quieta e deitada, sem interferir.

Não quis movê-la do lugar, como se respeitasse sua missão...  de me fazer sentir.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

NÃO FOI TEMPO PERDIDO...


Lennon parou por cinco anos para cuidar do filho Sean. Fazer sua comida e seus caprichos. Caminhar no Central Park, sem Paul, George ou Ringo. 

Paul deu um tempo. Quase um ano. Numa fazenda, cuidando das plantas e dos bichos. Linda, mais que linda, trouxe Paul de volta. Com os Wings e asas renovadas, vieram novas canções, novas jornadas.

Michael Jordan se cansou da NBA. De tanto triplo-duplo que fez. Largou a cesta e no sábado foi jogar baseball. Durou pouco. Jogou mal. Deve ter pensado  nos vinte e quatro segundos em que o tempo estourou.  E em vez da bola,  o pai  enterrou - naquela triste noite, que ele não ganhou. O tempo passou. Air Jordan voltou. E novamente voou.

As pausas... são tempos de espera. Muitas vezes, necessárias. Nas obras de Vivaldi, entre ritmos contagiantes, também sentimos pausas breves e elegantes. Não resistimos por muito tempo na mesma pressa constante.
 
Parei cinco anos aproximadamente, quando cuidei verdadeiramente de alguém. Com todo meu tempo e atenção. Tempo de amor. Delicada dedicação, tendo minha mãe e seu Alzheimer como companhia. Conversas estranhas onde nada, muitas vezes se compreendia. O tempo passava e eu não percebia.

O tempo ilude quem cuida. 
O relógio parava quando eu chegava às três da tarde. O tempo passava sem alarde. Ele insiste em sempre passar. E vai colocando ordem na casa e as coisas no lugar. Regenera o que estava se esgotando. Esgota o que já estava no fundo estragando.

O meu abacate verde amarelou e secou no meio da quarentena. Não comi. Não percebi. Foi rápido feito uma centelha. E a menina Lia, com leucemia, se recuperou depois de seis meses no hospital. A pausa, tratou o mal.

E quando Renato Russo parou na adolescência na cama do seu quarto, semiparalisado, tinha a mãe e o violão do lado. Fez lindas canções pensando em Mônicas e Eduardos. Deixou seu legado. Mais tarde, pausou de vez e partiu.

Cada pausa traz um sentido. 

O tempo gasto por amor... Não é tempo perdido!





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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A PONTE DA MINHA ALDEIA

                                             

Um erro no jornal. O repórter distraído trocou a imagem da Ponte Pensil de São Vicente pela foto da Golden Gate. 

Mas como são diferentes...                 

A Golden Gate não tem moleques atrevidos que pulam soltos e desprotegidos no mar atlântico vicentino, mar de belezas e tantas incertezas.

A Golden Gate não tem no sopé, encravada, a casa das bananadas! Não tem, do lado de lá, junto às filas de carros que andam feito serpente, um bocado de ambulantes e diferentes gentes. Velhos, crianças, jovens, deficientes. Sob o sol escaldante. Ou nas noites frias e cortantes... - Olha a cocada! Limpador de para-brisas. Pano de chão. Bandeirola. Castanha do Pará. Esfregão...

Também não tem, logo alí no Japuí, as Marinas e seus ricos iates. Ao lado de casinhas simples dos pescadores com seus barquinhos de pequeno porte. 

Não, a Ponte Pênsil não é a Golden Gate. Muito menos São Francisco é São Vicente!

A Ponte Pênsil é a cara do Brasil e suas implacáveis diferenças. É o Brasil com todas as suas mazelas. Mas ainda assim, consegue ser bela. E na carona de Fernando Pessoa, pode ser pequena, menor e mais velha, mas é a ponte mais bela, porque é a ponte da minha terra.

Rústica e castigada, como a pele e os olhos dos meninos que dela pulam sem medo e sem porquês. 

A ponte pênsil tem veias de aço e madeira que balança. 

Tanto me alegrava, quando eu passava, criança e agora balança, 

em pensil esperança, como o meu coração!

 



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Retratação foi publicada logo após a postagem ter sido apagada, do facebook 
      
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

QUEM BEBE DESSA ÁGUA...



Um jarro de água e goles de calmaria. O interior de Minas é assim. Minas verte suas águas naturais. Algumas, medicinais. Uma bica em cada canto. Nas praças, nos parques das águas em São Lourenço, Poços de Caldas e Monte Sião. Delícia de região!

As minas d'água possuem milagrosos efeitos. Dizem os moradores satisfeitos, só para nos provocar. Estendo a mão. Provo todas. Porque não? Água boa pra pele, pros cabelos. Água pra curar reumatismo, diabetes, dor nos joelhos. Para curar o estresse. E acalmar o coração. Bebo à exaustão. Vai que cura tudo de uma só vez? Fui com cinquenta anos e volto com uns dezesseis! 

Experimento as alcalinas, suaves e leves. A seguir, as sulfurosas, mal cheirosas, quase não descem. As ferruginosas, com o gosto final de metal. Cabo de guarda chuva mineral. E meu Deus, quanta chuva havia! Era àgua por todos os lados. Nos lagos, riachos, nas bicas e por toda a chuvosa viagem apreciando a mineira paisagem.

Lavamos a alma e o corpo pro ano inteiro. Circuito das águas em fim de fevereiro! Minas em sua essência. Boa prosa, café, bica d'água e pão de queijo! E em cada momento, uma canção de Milton Nascimento. 

No meio do caminho, um desafio sem muito sentido: o poço dos desejos! Escrito na madeira num poço de pedras da velha fazenda. E podiam ser três! Três desejos para satisfazer.

Interrompi minha paz e refleti em silêncio. Pensei em ser jovem outra vez. De melhor? Só o corpo, talvez. Ou, ganhar milhões em dinheiro e ter andar com seguranças, sem poder caminhar em paz pela vizinhança.

Antes do terceiro desejo, parei. Apenas estendi a mão e bebi a água pura que vertia da fonte. Sem pedidos, nem desejos. Apenas entendendo o valor do momento. 

A riqueza, de quem bebe da mãe natureza!



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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

COM QUE ROUPA EU VOU?


Era uma mala grande e vazia. Aberta em frente de casa. Deixada numa noite fria...

O que eu coloco na mala? O vazio me cavocava. Vou pegar duas calças e uma saia. Colocar bem espaçadas. Ainda vai sobrar espaço. Posso colocar uma jaqueta e um casaco. Não sei pra onde vou. E quem me convidou.

Coloco escova de dentes? Cremes? Sabonetes? Coisas de higiene pessoal? Alguns hotéis oferecem. Que hotel será esse? Não há um bilhete, voucher, nem sinal de estadia. Nada além da mala vazia.

Vou colocar livros. Meu vinho favorito. Acho bom colocar bombons. De licor. E se escorrerem pelos tecidos grudando os vestidos? Levo sabão. Tesoura. Linha e agulha. Alguma coisa que faça costura e remende qualquer estrago. Não sei que horas eu parto.

Que tipo de roupa levar? Será sério o lugar? Vestidos longos, sapatos altos, colar. Ou melhor sandália, camiseta velha e uma almofada de sentar. A mala vazia me olha pedindo pra repensar. Coloco perfumes? Ou sementes naturais? Não sei nada mais. Aonde vou? O que vou precisar?

A mala é muito grande. Cabe grandes travesseiros. Devo levar dinheiro? Cheques, cartões? Ou cartas guardadas de amor? Ninguém a meu lado para dizer. Só a agonia da mala vazia prestes a me enlouquecer.

Vou encher de coisas sem muito pensar. Misturar trecos. Objetos. Uns sem sentido, outros de valor. Um secador, um coador, um diploma, uma nota de cem. Meu coelho de pelúcia também. Roupas íntimas! Pode ser que eu fique muitos dias.

Agora sim, a mala está lotada. Abarrotada. Deixada no mesmo lugar. Eu sigo com o vazio de não saber como e quando vou viajar.

Vida e morte. Ambas são assim. Uma mala que a gente carrega e não leva no fim...

 

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