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quinta-feira, 11 de junho de 2026

AS TEVÊS E AS COPAS...


Na copa de setenta eu via tudo em branco e preto. Gerson, Pelé, Jairzinho... Nada de Canarinho ou seleção verde e amarela! Todos eram cinzas. Até o chapéu mexicano que colocaram no Pelé, na festa final do Tri, era cinzento.

Anos mais tarde, revi a cena toda colorida, em tons vibrantes de amarelo, verde e vermelho.

Uma vizinha viu tudo colorido. Mais ou menos colorido... Ela comprou uma tela de plástico, cheia de ondas horizontais, e fixou na frente do visor do seu velho aparelho de tubo. Aquilo dava tons verdes, amarelos e azulados às imagens, num tecnicolor fajuto e furta-cor. Ela gostava. Gritava animada... Gooool!

Já a copa de setenta e quatro foi uma loucura geral. Todo mundo atrás da tevê em cores, que acabava de chegar. Quem tinha mais dinheiro já via desde setenta e dois, quando ela estreou oficialmente por aqui. Muita gente nem viu!

Lembro do meu irmão, recém-estagiário, comprando a nossa tevê com o primeiro salário. Sonho de ver colorido a seleção faturar. Deu azar. A Canarinho foi de lascar. Com Riva e tudo. Valdomiro é o único nome que consigo lembrar...

Depois vieram outras copas.

Setenta e oito, de Coutinho. Ter uma tevê em cores já era normal. Brasil, campeão moral.

Oitenta e dois... a tristeza estampada nas telas e o choro do garotinho na capa do jornal.

Daí por diante, as tevês foram evoluindo... e o nosso futebol, sempre fora da final. Em oitenta e seis, o Brasil perdeu outra vez. E foi pra França, sem saber que viraria freguês!

Já em noventa, as tevês de tubo começaram a afinar... e o futebol do Brasil, a definhar. Lazaroni foi de amargar.

Mas em noventa e quatro, com Parreira e os baixinhos Bebeto e Romário, o Brasil e as tevês ganharam poder de resolução! Brasil tetra campeão. E som estéreo pra gritar goooool!

A copa de noventa e oito assisti numa tevê de vinte e nove polegadas. Vi um Zidane gigante acabando com a mascarada.

Já em dois mil e dois, minha primeira tevê plana, ligada de madrugada! E os três erres em grande jornada. Era o penta que chegava.

De lá pra cá, as tevês se modernizaram. Aumentaram de tamanho e de preço. Agora é LED, 4K, Smart TV.

E o futebol arte do Brasil? Mudou pro outro continente!

Craque agora tem chuteira colorida e cabelo diferente. Joga bem só longe da gente.

Os técnicos influencers mandam recado. Não basta torcer pro Brasil... tem que gastar uma grana suada nas bets e nas lojas, comprando tevê de cinquenta, sessenta, oitenta polegadas!

E o tamanho do nosso futebol?

Depois dos sete a um... melhor não comparar.

Em tempos de Neymar...
não é mais tamanho de jogador.

É tamanho de superstar!


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terça-feira, 9 de junho de 2026

A RUA DE TERRA LARANJA...

                 

    

Tudo ficava meio alaranjado. 

Os pés, as canelas, os braços e o rosto perto do nariz e da boca que com a mão eram tocados. A rua de terra da vizinhança deixava suas manchas de alegria laranja nas crianças. 

Meninos empoeirados jogavam e corriam descalços na frente do golzinho de dois paus improvisados. 

Eu morava na casa branca da avenida de asfalto. Rua Conselheiro Justino, que se transformou, mais tarde, na gigante Radial Leste. Virando a esquina, na rua de trás, era a rua de terra alaranjada. Pequena, com casinhas de um lado, e do outro, um muro alto de fábrica, de tijolo descascado. 

De dia e de tarde a rua ecoava ruídos humanos. Risos de meninas e meninos brincando até ao anoitecer, quando voltavam imundos pra casa. Minha mãe sorria quando meu irmão, no banheiro, perguntava: o que é pra lavar direito, mesmo? - Tudo. Dos pés ao fio de cabelo. Capricha nos dedos e nos joelhos! 

Às vezes ele pedia ajuda. Bater com o peito do pé na bola de capotão molhada e dura criava uma espécie de pele cascuda. Lama dura. Tinha que passar creme e esfregar com força e até escovão. Não reclamavam. Era o preço da diversão. 

Segunda feira, os pés já limpos na meia branquinha e com sapatos engraxados, seguiam para o colégio no ônibus do Colégio do Carmo. 

Era nos finais de semana que a rua de terra fazia valer o seu destino de rua feliz...

Lá se encontravam bons e antigos vizinhos, todos com filhos. 

Os portugueses e sua varanda de orquídeas. A família italiana com vinhos e cantorias. Os espanhóis da venda de empanadas... 

e emoldurando toda a rua, a paisagem laranja colorindo os muros e calçadas. 

Foram quatro anos sonhando com a rua de terra que eu via na pele dos garotos só de passagem. Eu não tinha idade.

Foi na semana das festas juninas que veio o batismo e a inauguração: - Podem levar a menina na rua de terra. Mas não descuidem um só minuto dela! 

Toda arrumadinha, vestido de remendos e fitas juninas, larguei de pronto a mão do meu irmão e sai correndo pra tocar o chão. 

Tirei os meus sapatos fechados, estendi os dedos, alarguei os passos e pisei na terra laranja, sujando meus pés limpinhos com rebeldia e carinho. 

Depois achei uma poça d’água e coloquei os pés pra enxaguar. A cor laranja se espalhou pelos poros, pelos pés, pernas e canelas... 

Rua de terra. Agora eu sabia... o prazer que era.


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