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terça-feira, 1 de setembro de 2026

OS LENÇÓIS DE CAMBRAIA!

Ela guardava os lençóis num baú de madeira muito bem polido.

Tinha detalhes em dourado e uma linda fechadura com cadeado. Ficava no sótão do sobrado. 

Eu nunca vi aberto. Sabia por alto e em retalhos de conversas, dos tecidos finos que  guardava e que embalavam o meu imaginário.

O enxoval vivia no baú desde seu casamento. Eu pescava aqui e ali algumas pistas do seu rico conteúdo. Bordados ingleses, crochê, guipir, matelassê, toalhas rendadas e os... cobiçados lençóis de cambraia. 

Hilda era referência no bairro. Conseguiu formar três filhos doutores em plena década de sessenta, onde a maioria virava trabalhador operário. 

O seu sobrado era simples. No interior, boa mobília e presentes de família. Um piano que o filho mais velho comprou. Um vaso italiano de murano. E fotos da viagem à Europa que o filho do meio a levou. Veneza! Paris! Moscou!

Os filhos da Hilda eram tão exaltados que em nossa casa virou uma espécie de bordão, carregado de ironia. Se algo extraordinário acontecia... - Foram os filhos da Hilda! A gente dizia.  Minha mãe piscava. Minha tia sorria.  Elas amavam os filhos da Hilda!

No ano passado saímos de férias para Jurerê.

Sem reservas de hotel, em pleno fevereiro, procuramos um bom aconchego. 

Paramos numa pousada pequena e, da praia, um tanto distante. A piscina pequena lembrava um tanque. O quarto diminuto. A dona anunciou o preço absurdo. Quase mil reais a diária!

Toda empinada, olhando para a cama king arrumada, a senhora completou... 

-Aqui a diária é mais cara.  Os lençóis... são de cambraia!

 

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