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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CASA DA JUREMA

Quando eu vi pela primeira vez aquela lagarta verde listrada com duas anteninhas róseas e olhos pretinhos na folha grande do vaso, eu fiquei encantada. 

Criança pequena, segui com alegria o serzinho estranho que andava quase desabando e depois voltava à base, folheando. 

Chamei alguém que pudesse me explicar o bichinho diferente, com cílios no corpo e cara redonda de gente. 

Triste foi ouvir que eu não poderia pegar. Ela queima! Como pode? E eu até lhe dei nome: Jurema!

Jurema queima? Jurema é malvada? Jurema é bichinho e não sabe de nada. 

Apesar do pesar e da distância imposta, simpatizei com a lagarta verde e rosa e, todo dia, a procurava entre as folhas e caules. Tinha dias que dormia e não se mexia. 

Outras vezes, comia e me deixava observar. Fazia buracos nas folhas, minha mãe não iria gostar. Eu protegia a Jurema. Jamais iria contar. 

Foram semanas na companhia da lagarta esquisita e seus passeios divertidos. Eu me via nela, olhando as folhas gigantes por ângulos invertidos. E me preparava, também, para o desconhecido.

Num dia cinzento, Jurema desapareceu. Jurema partiu? Morreu? 

Meu olhar não se aquietou até encontrar a estranha casinha. Um casulo de seda amarronzado no meio do vaso. Lá estava ela e se preparava para se transformar. Com duas asas prontas para voar.

Jurema não deu pistas. Não deu na vista. Esperta, me seduziu e se recolheu. Esperou o tempo preciso. Não adiantava acelerar. O tempo no casulo é o tempo certo do maturar.

Domingo cedo comecei a ver Jurema quebrando a sua crisálida e botando a nova cara, ávida, para fora do lar. 

Agora tinha outro corpo. Asas moles se desdobraram até endurecer. Tinha novas cores, olhos e desenhos. Foram duas ou três horas observando o processo lento. Privilégio de criança, que não se importa com o tempo.

E Jurema, borboleta, voou. 

Dei tchau com minhas mãozinhas pequenas e ela partiu cheia de graça. Deixando a lembrança da sua amizade

e o meu sorriso, parecido com o dela, de ainda... 

lagarta!

 

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

OS LENÇÓIS DE CAMBRAIA!

Ela guardava os lençóis num baú de madeira muito bem polido.

Tinha detalhes em dourado e uma linda fechadura com cadeado. Ficava no sótão do sobrado. 

Eu nunca vi aberto. Sabia por alto e em retalhos de conversas, dos tecidos finos que  guardava e que embalavam o meu imaginário.

O enxoval vivia no baú desde seu casamento. Eu pescava aqui e ali algumas pistas do seu rico conteúdo. Bordados ingleses, crochê, guipir, matelassê, toalhas rendadas e os... cobiçados lençóis de cambraia. 

Hilda era referência no bairro. Conseguiu formar três filhos doutores em plena década de sessenta, onde a maioria virava trabalhador operário. 

O seu sobrado era simples. No interior, boa mobília e presentes de família. Um piano que o filho mais velho comprou. Um vaso italiano de murano. E fotos da viagem à Europa que o filho do meio a levou. Veneza! Paris! Moscou!

Os filhos da Hilda eram tão exaltados que em nossa casa virou uma espécie de bordão, carregado de ironia. Se algo extraordinário acontecia... - Foram os filhos da Hilda! A gente dizia.  Minha mãe piscava. Minha tia sorria.  Elas amavam os filhos da Hilda!

No ano passado saímos de férias para Jurerê.

Sem reservas de hotel, em pleno fevereiro, procuramos um bom aconchego. 

Paramos numa pousada pequena e, da praia, um tanto distante. A piscina pequena lembrava um tanque. O quarto diminuto. A dona anunciou o preço absurdo. Quase mil reais a diária!

Toda empinada, olhando para a cama king arrumada, a senhora completou... 

-Aqui a diária é mais cara.  Os lençóis... são de cambraia!

 

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