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sexta-feira, 4 de março de 2022

PRECE PRETENSIOSA DEMAIS...

Se possível for... Devolva-me o oceano com sua profundeza e cada uma de suas miudezas. Devolva o tom azulado dos dias calmos e serenos. E o ondulado cinzento, vivo e remexido pela força dos ventos. Prometo contar cada onda nascente e todos os peixinhos que couberem no seu ventre. Apenas deixe, mais uma vez, que no oceano eu entre...

Devolva-me o céu infinito com o brilho das estrelas. Contarei cada uma delas, sem me importar com o passar do tempo e se vai amanhecer mais cedo. Ficarei observando dias e anos, deitada no chão tamanho que me acolhe. Apenas deixe mais uma vez que os céus eu olhe...

Devolva-me os parques cheios de crianças. Com seus risos e gritos. Serei uma delas, brincando nos balanços, abraçando e beijando seus rostos. Apenas deixe que sem máscaras e sem medo, eu abrace a todos.

Devolva, sobretudo, a paz e a alegria do mundo. Que o vírus invisível retirou. E a guerra dilacera, deixando nas casas vazios de solidão.

E se não for pedir demais... Devolva-nos os que partiram. Os bons e os maus. Prometo amar diferente. Dar minha mão, caridosamente. Apenas deixe-me aprender a ser gente.

E se possível ainda for... Daria pra recomeçar tudo, do ponto onde o mundo descarrilou?

 

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A CAPELA DA CURVA DA ESTRADA...


Ninguém passava perto dela. De noite? Só matusquela. Ficava na curva da estrada de terra batida meio avermelhada. Nenhuma casa ou comércio na quebrada.

Era feita de cimento queimado do chão ao teto. Na frente, arame farpado, pedindo respeito e cuidado.

Ao entardecer, no vão sem porta e mal acabado, dava pra ver o interior assombrado. A capelinha pequena e escura era cheia de estátuas sem cabeça e vasos quebrados. Tudo no chão espalhado. Anjos caídos e santos de gesso, jogados.
 Eu tinha meu medo ali rondando, engessado.

As imagens quando quebram não devem ser jogadas fora, diziam os devotos. Melhor é deixar na capela, rezar e ir embora. Cruz credo, Nossa Senhora! 

Nunca entrei naquele lugar. Nem  cheguei perto. Preferia igrejas grandes. Arejadas. Com Santos completos e intactos. 

Na linda Igreja matriz de São João Del Rei, quase todos os santos tem cabelos humanos. Alguns,  empoeirados. As santas, tem cachos encaracolados, às vezes, louros e enchumaçados. Na maioria, porém, os cabelos são lisos e disformes. Uma tradição secular.

Os cabelos me impressionaram mais que o ouro das paredes e o exagero barroco que não deixava um vaziozinho sequer. Quem teria doado os cabelos? Beatos pagando  promessas? Provas de amor? Ofertas?

Doar o cabelo para o santo era um sacrifício e tanto para conquistar o coração de uma mulher. Ouvi isso numa canção do Clube da esquina. Ah, Minas! Igrejas e magia.

Mirei aqueles altares. As imagens. Os cabelos de verdade. Lembrei da capela pequena e simples da curvinha da estrada. Que me dava medo com os seus santinhos quebrados, tristes e desolados.

A gente muda com o tempo. Hoje, quem diria, naquela pequena capelinha, em paz com Deus e sem grandes assombrações ... eu entraria.

Mas levaria uma figa.



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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

ALCACHOFRAS... QUALQUER DIA...

Ela me ensinou a tirar cada folhinha daquela flor escura esquisita e cravar os dentes para tirar o recheio. Molho salgado com um pouquinho de queijo. As alcachofras da tia Nadir ainda continuam como antes, fumegantes, na minha memória e o sal das alcaparras aguça a ponta da língua, criando uma saudosa caudalosa saliva.

Dona de um colo macio, peitos redondos e fartos, ela me erguia e colocava em cima da mesa para ver de perto as alcachofras desabrochadas no prato. Chamava de “Carciofi”, um jeito meio italianado. Eu olhava curiosa o preparo. Forno grande. Panelas de alumínio areadas. Tomates vermelhos duros e bem cortados e as alcaparras salgadas que ela provava, espremendo seus olhos de tamanha azedura. Punha tudo em fervura.

Foi no recém inaugurado shopping que encontrei pela última vez com a tia Nadir. Lembramos das alcachofras generosas que ela fazia nos tempos da minha infância... -Eu ainda faço, igualzinha! Vou fazer e chamo você, qualquer dia.

Anos depois, encontrei no mesmo lugar a sua filha, a prima Eloá, nome inspirado na esposa do velho Presidente Jânio Quadros. Foi um encontro repetido e intuitivamente estranho. Comentei das alcachofras e da saudade que eu sentia da minha tia, já que seu grande coração não aguentou muito tempo e ela se foi, levando junto com ela sua risada, seus enormes peitos, suas receitas e segredos.                                    

Eloá lembrou do molho, do queijo, das alcaparras e ainda me falou do preparo da coroa, o coração da alcachofra que eu nem sabia que existia. As folhinhas dentadas já me davam sabor e alegria.

A minha é igualzinha. Qualquer dia eu faço e chamo você. Qualquer dia.

Prima Eloá também se foi. Igualzinho sua mãe, o seu coração também não aguentou. Agora as duas devem cozinhar juntinhas. E um dia vão me fazer alcachofras à quatro mãos.

Promessa é divida. Aonde quer que seja. As alcachofras vão reunir a família, desabrochando numa grande ceia. Qualquer dia.

 

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VEM AÍ...  VEM QUE TREM POESIA.

AGUARDE!

TUDO NUM SÓ LUGAR...

AGUARDE!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

DISCUTINDO A RELAÇÃO...

 

Em casa tinha pato, coelho, tartaruga, cachorro, pintinhos... E uma coruja que iluminava as noites com seus olhos grandes e acesos tocando medo na vizinhança. Era uma boa coruja. Bem agourada. O mundo animal coexistia em liberdade dando alegria à nossa infância.

Os bichos soltos, vira e mexe apareciam em espaços alheios. O coelho corria atrás do pato. O papagaio denunciava o fato. E a cachorra, sempre bondosa, com os pintinhos em cima da barriga rósea. Sissi era dócil. Amiga. Peluda. Mas o que surpreendia era o seu ódio pela tartaruga!

À noite dormiam no mesmo espaço. A cascuda era dureza. Em câmera lenta e sorrateira, mordia a cachorra na pata traseira. Sissi não latia. Segurava a agonia e preparava o revide. Colocava o focinho e virava a tartaruga de casco pra baixo. Com as patas para o ar! Até que alguém fosse desvirar.

Até tomate cru a Sissi comia para tirar da inimiga íntima o motivo da sua alegria. Era um ódio danado. Talvez, uma disputa direta pelos nossos afagos. Colocamos as duas em quintais separados.

Para nossa surpresa, a tartaruga cruzava a cozinha todo santo dia para dar no quintal da cachorra. Outra vez, era a Sissi que ia até o outro quintal só para ficar rosnando para a cascuda. Havia ódio e amor naquela rusga.

A briga só terminou quando a Sissi envelheceu e perdeu a energia da disputa e o prazer da vingança. Já velhinha, queria sossego e paz. A tartaruga ficava no seu canto e não provocava mais.

Talvez, dentro do seu casco, seu velho e mole coração soubesse a imensa vantagem que tinha. O tempo é distinto entre as raças. Por muito mais anos ela ainda viveria. 

Agora apenas curtia... o resto curto e sonolento da canina companhia.

  

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

PRISCILA COMEU AS PINHAS DE NATAL...



O espírito natalino sempre foi muito tocante para mim. Olhava nas ruas os enfeites luminosos, os arcos e guirlandas nas portas, renas de neon nos edifícios e temas harpeanos ecoando nas lojas...  

Mas as festas de Natal em si, embora amorosas e agradáveis,  traziam doloridas ausências. Faltava sempre alguém à mesa. Um tio, a mãe de um cunhado, o irmão amado. Fragmentos de imagens do passado que me davam um aperto danado.

Este ano o tom da nossa decoração foi mudado. Mais modesta, sem muitos requintes. Resolvi apostar na simplicidade.

Nada de árvore ou presépio gigante. Nem decoração barroca para uma fé ainda pouca. Nada de bolas douradas, enfeites de purpurina e laços de fita brilhantes. Era simples a manjedoura. Um pouco de feno e algumas pinhas bastavam. Cristo em mim falou mais alto. Decidi por madeira e simplicidade.

Voltei do interior com um saco de pinhas novinhas, colhidas do chão de terra vermelha sob os pinheirais de Biritiba. Havia tempo que eu não fazia algo assim. Arranjei feno, armações de arame e madeira. E Reis magos comprados em um carrinheiro, numa feira.  

O presépio simples, rústico e com pouco dinheiro montei perto da cortina. Sem perceber que Priscila, a nova integrante da família olhava de fino com interesse leporino para as pinhas fresquinhas.

Numa escapada noturna, sem o nosso olhar de censura, lá se foi o natalino cenário, com as pinhas roídas até o talo. O feno, espalhado pelo chão. Só o Jesus de madeira ficou intacto. Deus, achando graça da sua criação...

Os Natais mudaram. Muitos se foram. Outros chegaram. Papai Noel anda meio sem graça. Priscila ganhou espaço. Natal de novas certezas e outros tipos de laços. Mas veio com alegria e pureza. Mesmo com todo o embaraço!

 

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FELIZ NATAL, CHEIO DE PAZ...

PARA TODOS OS AMIGOS E LEITORES

DO INESPLICANDO!

 

 

 

 

 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

BANDEIRA, NO DIA DA BANDEIRA!



Era um peso danado ser a primeira da classe. Eu carregava um misto de vaidade com aborrecimento. A auto-exigência de ter as melhores notas, o melhor comportamento. Pra que tanta cobrança assim, pequena curumim? Hoje, não cobro nada tão serio de mim. Fui assim até meus dezesseis ou dezessete anos. Eu mirava a perfeição. Nove, eu aceitava. Oito, era decepção.

No dia da bandeira, a escola inteira se preparou para a festa. Enfeites, bandeirolas, fitas, professorinhas ufanistas. E eu, a primeira da lista. Escolhida para declamar a poesia de Manoel Bandeira. Foram dias e dias ensaiando café com pão, café com pão, café com pão. Virgem Maria que foi isso maquinista? Agora sim, café com pão, café com pão. Eu torrava o pão e a paciência dos meus irmãos, recitando em casa, o trem da repetição. Café com pão, café com pão. Eu queria a perfeição. Eu era tão exigente...

No dia da festa, o que era certo entortou. Perdi a hora. O despertador falhou. Às sete, a cerimônia começava. Levantei sete e meia passada. Saímos, minha mãe e eu, em disparada.  Roupas, às pressas colocadas, cabelo mal penteado, cara mal lavada. Corremos pelas ruas, desvairadas.  Passa poste, passa boi, passa boiada... Era o próprio trem de ferro em disparada para conseguir chegar ao menos antes da festa terminar. Eu, que era tão exigente...

Ao nos ver no portão da escola, com ar de súplica e esbaforidas, Dona Margarida, minha generosa professora pediu à diretora que encaixasse minha apresentação antes de encerrar a manhã festiva. E lá fui eu na frente de todos, reunindo a coragem que restava e com toda a força na fornalha, declamei o poema, sem muita interpretação...

Café com pão, café com pão, café com pão! Piuiii... Todos aplaudiram. Cantaram o hino, enquanto eu olhava no alto do mastro, a bandeira verde amarela que como eu, ainda tremulava.  

Teria sido uma vitória.  Não para mim.  Eu me daria uma nota três.  Eu era tão exigente...

 

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terça-feira, 9 de novembro de 2021

A PRIMEIRA VEZ... É AZUL!


As pernas eram finas e magrelas. Quadriculadas em azul, efeito do vento frio vindo do sul. Saltavam contentes espalhando água pro alto e pra frente. 
Era a primeira vez que as crianças viam o mar. Num dia feio pra danar.

Foram longos meses de espera. Anchieta ou Estrada Velha? A rota antiga era mais bela. Curvas sinuosas, cachoeiras e mirantes para olhar o alto da serra. Além dos pontos de parada e os marcos da Independência. Rancho da maioridade. Calçada do Lorena. E o pouso Paranapiacaba, provável parada de Dom Pedro ensaiando o grito e lustrando sua espada, sem muita paciência.

Decidiram pela via Anchieta. Mais rápida e segura. Afinal, tocar o mar era a mais esperada aventura. Em cada curva da pista, o horizonte azulava a vista. Ao longe e ao fundo. O oceano Atlântico, vasto e profundo.

No meio da serra já pesava a atmosfera e os meninos sorriam quando seus ouvidos  entupiam: - Prende o nariz e assopra, diz o pai, que o ar faz a troca!  Logo mais,  nível do mar. Praia a vista! Sol, areia branquinha e lindas conchinhas.

Mas não é que o tempo virou? A praia ficou cinzenta, o mar calmo encrespou e o dia que era quente, esfriou. 

Os meninos correram para as malas resgatando seus maiôs listrados de tecido elástico. Com uma fivela de metal do lado. - Podemos ir mesmo assim? As alminhas secas e aflitas imploravam por um sim.

A mãe, que sempre agasalha a cria, vestiu os garotos com duas malhas finas e encheu seus corações de energia.

E lá foram os meninos. Blusa de lã e maiô cafona, pular as primeiras ondas de suas vidas. O tempo não atrapalhava. Nem o cinza do mar. Nem a malha que pesava.

Saíram felizes da água enquanto o pai desapontado, lamentava.

- Sabe pai, onde a gente entrou, só naquele pedacinho? 

lá, o mar estava azulzinho!


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