Páginas

quarta-feira, 1 de abril de 2020

AS PRIMEIRAS MANHÃS...


A primeira manhã de um dia lindo, é um filho sorrindo... Cheiro de café forte, coando. Pãozinho quente, estalando. Dia bom de trabalho. Afetos. Gestos. Família. Amigos por perto.

A primeira manhã das férias... É o sol entrando pela janela. Ou a chuva. Ou o vento. Não importa. É manhã de preguiça por dentro. Tempo de relaxar. O corpo e a alma. Na rede. No campo. No mar. Ou no cantinho desarrumado do seu quartinho amado, sem ninguém pra atrapalhar.

A primeira manhã do casamento... Na cama, o outro do lado. Não por um momento. Agora, por um estado. Casados! Ruídos noturnos. Travesseiros roubados. Quem dorme de qual lado? Manhã de enlaces, reencaixes e entusiasmo. Manhã dos enamorados.

A primeira manhã depois da morte e da dor... depois do sono anestésico e consolador... É a manhã do cansaço. Da soltura do laço. Manhã de um coração que passará várias manhãs, aos pedaços.

As primeiras manhãs são muitas vezes, aulas restauradoras. Mesmo depois da briga. Da fadiga. Do carnaval. Do mal. Da chuva. Da epidemia... O Mundo estará de volta. Aulas. Trabalho. Rotina. Utopia. E um resto que sobrou, de música e poesia, para amenizar o dia.

A primeira manhã, depois de tudo... é sempre um recomeço!



*                              *                                                      


VISITE O CANAL  INESPLICANDO NO YOUTUBE E RELAXE COM CRÔNICAS E MUSICAS!






quarta-feira, 25 de março de 2020

SERÁ QUE ELE VEM?


Não veio o amigo que viria no domingo. Nem o sol quente como no último verão. Não veio a chuva na secura do nordeste e ficou ainda mais agreste aquele chão. Não veio o dinheiro emprestado. O aumento esperado. Não veio nem o cunhado pra final do campeonato.

Parece, às vezes, que a vida bate uma estaca. Tudo para. Não vem nada. Nem uma ameaça. Nem uma pedra falsa. É aí que o segredo desliza por entre as frestas... Os ciclos da vida! Às vezes, festa. Às vezes, nada resta. A coisa estanca, desbanca e atola. 

Nessa hora, prepara outro caminho... Convida um novo vizinho, abre um outro vinho. Esquece o e-mail. Entrega em mãos, um pergaminho. Ousa. Caminha. Espera. Mas, sem muito esperar... Talvez a sorte seja um presente ao persistente. Experimente! Setecentas e oitenta vezes. Ou dezoito meses. Tente sorrir. É um bom jeito de reagir. 

Não veio a encomenda do Sedex? O que veio foi engano? Mude os planos! Não veio o casamento sonhado. O filho planejado. A promoção do ano? Pro José, veio muito menos. O Bonde não veio. Não veio a utopia. E tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou... 

Mas comigo Drummond se enganou. A esperança, pulsante e viva, veio dentro de mim escondida. É semente pequena e ativa. Verde como a grama que me acalma e me anima. Fiz a casa. Pus comida. O pássaro ainda não veio. Não ouso buscar. Sei que iria voar. 

Preparo apenas o jardim e o coração. Está tudo pronto. Até mesmo o sonho de vê-lo pousar. Na hora certa... Ele virá!     



*                                   *                                                                         





quarta-feira, 4 de março de 2020

A MÚSICA DO CHAPÉU...


Passei a infância ouvindo o refrão:
"o meu chapéu tem três bicos. Três bicos tem meu chapéu. Se não tiver os três bicos. Não pode ser meu chapéu."

A melodia grudava no meu ouvido como o chapéu no cocuruto. Meu pai cantava. Minha mãe completava. A tia me cutucava. Eu sorria.
E o coro, assim, parava. 

Anos mais tarde vim saber o que era o tal do chapéu de três bicos ou três abas.

O famoso tricórnio se tornou popular nos anos vinte. Todos usavam. Civis e militares. Virou moda. Ganhando até a canção. 

As músicas e os costumes familiares passam de geração em geração. 

Eu lembro de ter que pedir a benção pra minha tia: - Bença tia! E um beijinho em sua mão. Passei anos fazendo o cumprimento até que minha mãe me libertou: - Deixa a menina à vontade. Beijos e abraços sem formalidades.

Ainda hoje, lembro da benção que eu pedia.

As gavetas ancestrais se abrem de vez em quando e a gente se pega imitando os nossos pais.

Sirvo a mesma sopinha de legumes que a avó Emília fazia. Mordo os lábios de nervoso como meu pai e meu irmão.

Há um pouco deles em mim. O queixo da mãe. O jeito de rir do vovô.

Velha alma de retalhos costurados com linha de amor e cuidados.

Quando peguei o meu sobrinho no colo, começando a chorar... tirei seu chapeuzinho e com a peça na mão comecei a cantar: O meu chapéu tem três bicos. Três bicos tem meu chapéu... Se não tiver os três bicos...

O menino ergueu os olhos e começou a sorrir...  
Era o velho arquivo, funcionando. 

Agora, eu entendi!



*                                             *                                            


           

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O BARULHO DA CHUVA...


A chuva me acalma...  O barulho da chuva fina me acalma. É como se alguém me dissesse, lenta e tranquilamente... não faça nada agora! Não está vendo? Chove lá fora!  Não tenho que sair na rua. Não vou poder ir na reunião... Vê que bom! 

A chuva é o consentimento meteorológico do não! Posso adiar os mais chatos compromissos. Os encontros tensos que, na verdade, pouco me interessam... A chuva permite a desistência! E com apoio de todos e natural compreensão. O céu está caindo. Sacudindo seus pingos. A chuva é tão forte que eu não posso sair. Desculpe, vou ficar por aqui! Olhando pro alto, vendo água cair... 

É lindo o céu em prantos. Pelos quatro cantos. Lavando o verde, as plantas, as palmeiras, as sementes... O ritmo dos pingos é uma orquestra viva. Aquosa sintonia. Volumosa melodia... Fortíssima! Bravíssima! Com sibilantes rajadas e rufar de trovões. 

No meu jardim encharcado, nos galhos, nos bancos e no telhado... Até nos degraus da escada molhada. Eu ponho a pontinha dos pés, com medo da terrível deslizada. Queda ligeira. Danada! E assim me retraio... Saio ou não saio? Entro na chuva? Piso com os pés na terra encharcada? Ou não faço nada? Tudo passa. Tudo lava. Vou esperar a chuva passar... 

Porque quando chove, nada é pra já! O corpo para. Mas a alma lavada... deixa “ tu-do-pra-lá...”


*                  *                      * 

VEM AÍ...

"VEM QUE TREM POESIA..."    AGUARDE!




terça-feira, 28 de janeiro de 2020

DELICADEZAS...


Entrelaçando. Retorcendo. Revirando os fiapos de madeira... Com seu biquinho feito uma agulha fina de rendeira, ela foi formando, num tricô de galhos miúdos, a sua leve casinha! Pequena e redondinha. No fundo, uma portinha.  

Em poucos dias já se via o esboço do ninho. Delineado com bico e carinho. Coisa de artesão. Ficou bem preso e protegido, entre as folhas de um verde amarelecido pelo sol quente do verão. Por vários dias, assisti a árdua jornada da alegre passarinha que ia e vinha. Levando gravetos e linhas. Construiu no meio da planta, na minha varanda, a sua delicada casinha... Não me perguntou nada. Não precisava. Alguém mais importante que eu, a autorizava. 

E no recém formado ninho, nasceram os filhotinhos. Batizei: João do pio, Bicuda e Pedrinho... Cresceram escondidos, até voarem sozinhos. A mim, bastou acompanhar. Sem assustar. 

Têm me encantado as delicadezas... Das pessoas e da natureza. Duas faces de mesma leveza. A gota de orvalho quando rola suave pelas folhas e balança leve na incerteza... Cai? Não cai? Amparo na palma da mão, com humana delicadeza. Os colibris beijando as flores sem distinção de cores. Experimentando vários sabores. Suaves beijos, que mal tocam a boca e aumentam ainda mais o desejo. E as mães, ajeitando seus filhos junto aos seios... São tantas e santas, as delicadezas... 

Depois de semanas, o ninho já estava vazio. Bateu um vento e caiu. Leve como surgiu. Sobraram palhas secas e alguns fiapos amassados. Peguei delicadamente nas mãos e voltei para o meio dos galhos... Servirá para outro pássaro? Um pardalzinho? Um canário? 
Deixei na mesma planta o pequeno lar empalhado que vi delicadamente se formando. E, de tão feliz, amanheci cantando...



*                                *                              *                              *
                           
AGORA...   VEJA A CRÔNICA FALADA...  E VIAJE NAS IMAGENS!
                                       









quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

DÁ PRA CONSERTAR?


Tio Carlos era contador de piadas. E tinha uma profissão que desapareceu. Consertava máquinas de escrever! 

Fez isso durante décadas, numa loja do centro velho da cidade... Com o passar dos anos, seus clientes foram diminuindo. Alguns, desaparecendo. Até que zeraram. Lembro da sua alegria, quando levei, nos anos noventa, minha Olivetti Lettera 80 pra ele consertar. Queria a peça funcionando. Uma relíquia em cima da minha mesa lateral. Lembrança dos primeiros textos poéticos, imitando escrita manual. 

Depois disso, não vi mais o velho Carlos. Sua esposa adoeceu e ele aproveitou a idade avançada para se aposentar do ofício. Os amigos da delegacia ao lado devem ter sentido falta das suas piadas, do sorriso simpático e do sotaque madeirense... 

Lembrei dele esta semana, quando vi o senhorzinho que conserta guarda-chuvas perto da minha casa... Sempre sentado no seu banquinho, ao lado da velha Kombi cor creme mal emassada nas portas e laterais. Podia chover ou fazer sol que lá estava ele, às voltas com suas varetas. Soube que a quitanda em frente era da família. Mas, depois que ela fechou, nunca mais havia visto por lá o tal senhor. Pensei em depressão. Lembrei do Tio Carlos e seus dias de inatividade. Sozinho em casa, sem fazer nada. Nem trabalho. Nem amigos. Nem piadas...  

Semana passada fiquei feliz ao rever a Kombi e o velho consertador. Ele voltou! E estava sentado com um guarda-chuva preto na mão. Começou a chover. Apertei o meu passo e tentando alegrá-lo perguntei com sorriso largo... Tenho um guarda-sol em casa sem uma das varetas. O senhor pode consertar pra mim?  

Ele me olhou estranhamente e indignado com a minha total incoerência disparou: hoje, não! Não está vendo que está chovendo? Hoje conserto guarda chuva. Se amanhã fizer sol, a senhora traz o guarda-sol...  
Sai, com os pingos da água fria molhando meus ombros... 



*                         *                              *                          *



COMPARTILHO A MINHA ALEGRIA... E O SUCESSO DO LANÇAMENTO DA

 ANTOLOGIA " ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU" DA CHIADO EDITORA, 

 NA LIVRARIA CULTURA EM SÃO PAULO !  

OBRIGADA A TODOS QUE COMPARECERAM... FOTOS NO @INESPLICANDO




LEIA AGORA , O MEU POEMA SELECIONADO,


LUA DOIDA 



A lua anda.
Branda. No meio da noite. No fim da rua.
Ah, a lua...
Surge na janela. Imensa e amarela. Linda donzela.
Às vezes, é filete minguante. Feito a vida. Foice cortante.

São tantas, as luas...
Lua dos amantes. Das cartas de tarô...
Lua pequena e distante. Lua vermelha de sangue.
Lua cheia. Dos homens. E do lobisomem.

Lua dos nevoeiros. Do sertão. Dos seresteiros. 
Lua do brilho prateado no mar...
Lua de Ushuaia. Lua de Madagascar.
Lua dos loucos. Como ela, a girar...

É doida a lua, sim! Lua que bóia e flutua. 
Dona de estranho poder. 
Acorda os poetas. Faz criança adormecer...

E depois de tanta aventura, a lua ainda anda,
nas noites escuras... 
Completamente nua!

É doida a lua.   


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A CASA QUE ESPIA...

São duas janelas. Ou dois olhos? Espiando sobre o muro... 
Ela deve ter uns cem anos de existência. E resistência. Tem os cabelos armados pelas árvores. Estilo despojado e legal. Juba natural! O nariz e a boca não se vê. Imagino um sorriso triste. Irônico, talvez.

A casa fica no meio do velho caminho que vai dar na Ponte Pênsil, em São Vicente. Tem cara de gente. Os olhos, abertos e atentos. Com uma dose de sofrimento. Deve ter sido linda no passado. Hoje, maltratada, vê tudo ao seu redor, estagnado. Será que acompanhou  a construção da ponte? O intenso movimento dos dois lados? E o sangue dos operários que trabalhavam sol a sol, derramado? Alguns morreram por lá. Tristes gemidos dentro da casa ainda devem ecoar. Não ouso entrar.

Hoje, a casa só espia e ouve o tiritar das tábuas de madeira soltas na ponte a chacoalhar. Sempre gostei da sensação do tremular. Mas ela não deve gostar. Difícil deve ser descansar. Carros passam e buzinam. Pescadores, em grupos, chegam pra pescar. Meninos loucos, pulam da ponte pro mar. E a casa a espiar. É a vida que lhe resta olhar. 

À sua esquerda vê a velha estrutura pênsil e sua linda arquitetura. Embaixo, os barcos passando fazendo onda e espuma. E o sol se pondo defronte, na linha do horizonte. Mas é bem à sua frente que a casa se desespera. Vê a casa das bananadas. Desde mil novecentos e nada. Ainda útil e movimentada. Ponto certo de parada. Todos entram e a visitam para comer e se deleitar. 

E para a casa que espia, minguada, ninguém dá nada. Nem tinta, nem reboco. Nem pomar. A casa só espia, espia, espia... 

Até que um dia, alguém, mais cruel, venha seus olhos tampar.      



*******************

Foto : Tony Lamers



Atualizando... a casa foi demolida em 2022. R.I.P.




*                           *
                        

PRESENTEIE COM OS LIVROS DE CRÔNICAS

                        INESPLICANDO. 

DISPONÍVEIS NA AMAZON, ESTANTE VIRTUAL

E PAPALE'S EDITORIAL.

E PARA AS CRIANÇAS... " O VOO DE TÁBITA" LANÇAMENTO DA PAPALE'S! 

CORRA, PORQUE A TÁBITA... VOA!