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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

UMA NOITE... E NADA MAIS!


A vida é sopro. Fagulha. Trem que passa ligeiro num exato movimento. Quem não embarca, perde o momento. Segue outra viagem. Qual efeito borboleta, novas e diferentes facetas vão aparecendo. Outras pessoas. Novos encontros. Outros acasos. Algumas vezes, achamos a sorte. Em outras, fracassos. 

Quem pode saber? Se cruzamos de repente com alguém que irá mudar nossos planos para sempre? Um amor. Um parente. Um bandido. Um futuro marido? O que teria acontecido se aquele dia você não tivesse adormecido? A chave esquecido? Ou, simplesmente se arrependido? Tão humana essa nossa pretensão. Doce ilusão. De controlarmos alguma coisa em nossa trajetória. Prever nossos dias. Nossas horas. Se a qualquer momento vamos embora. E nos tornamos só memória para quem um dia nos conheceu e amou. 

Naquela noite ela nasceu... Branca. Brilhante. Cheirosa. Perfumando o ar do jardim. O forte aroma me fez sair de casa para sentir. Era a dama da noite! Olhei feliz, num rápido apreciar. Amanhã vou fotografar. 

Mas a dama da noite é breve. Única. Singular. No dia seguinte não estava mais lá! Restava fria no chão. Murcha. Sem vida. Com um mórbido aroma de recordação. Olhei sem pegar. Outras damas viçosas estarão hoje à noite no seu lugar. Mas aquela se foi. Perdi. Como algumas chances na vida, que passaram despercebidas num instante fugaz. 

A linda dama saiu de cena depois do primeiro desabrochar. Exibiu seu perfume e beleza. Depois fechou-se para o mundo e caiu. Outra dama entrará no palco esta noite para se apresentar... Mas aquela dama. A mais branca. Única. Que brilhava pra mim na noite escura. Nunca mais.
Não deixe passar!


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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

OS CAMPOS DE TRIGO...


À noite. No silêncio. Entre o sono e o sonho. Eles me convidam para entrar... São os campos de trigo! Lindos. Espécie de abrigo. Infinito... Imagem que vai surgindo em minha mente. Recorrente. Será o paraiso?

Entro feito o vento, em suave movimento. As plumas balançam ao roçar dos meus dedos. Sigo caminhando leve, na direção do sol. Às vezes, flutuando. Tocando com as mãos a plantação. Pés descalços. Rosto ao vento. Aquietando a alma, o coração, o pensamento.

Dizem que os campos de trigo tem grande simbologia. Espécie de santidade. Um portal. Uma passagem... Mistério e magia. Não procuro explicação. Aproveito o tempo que durar. Uma noite apenas. Ou, até o dia raiar.

Sei que logo mais será hora de acordar. Sair da cama e do sonho. Respirar um mundo duro. De cimentos e muro. À cada instante, mais veloz e menos seguro. Parecemos loucos. Tolos? Inimigos na Selva. Krig-há Bandolo! Donos de regras. Armados. Patéticos soldados, tristes e desalmados. Perdidos. Em lados separados...

O grão do trigo morre para depois germinar. Está em nossas mãos, um outro pão? A mais justa divisão? O novo plantar pede pressa. Todos em força tarefa. Namastê, amém, oxalá! E que algum anjo torto ou Deus mesmo, venha nos ajudar! Esta terra aqui já foi um bom lugar pra se habitar.

Enquanto isso, à noite eu sonho. E viajo nos campos de trigo. Meu refúgio. Minha pausa. Meu abrigo. Só um pouco de paz... é o que preciso! 




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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A MAIOR PALAVRA...


Anticonstitucionalissimamente! Eu era criança e me orgulhava de pronunciar com destreza a maior palavra da época. Hoje, ela já deve ter perdido o status. Não tive tempo de olhar no Google Dicionário. Outras mais extensas devem ter chegado e ocupado o lugar... 

As palavras têm vida própria. Peso. Energia. Tamanhos diferenciados. Às vezes, mudam, com o tempo, seus significados. Mas continuam mágicas. E ao notar que eu conversava com minha mãe usando expressões corretas e boas palavras, a senhora sentada ao lado no ônibus comentou: - ela é tão pequena e fala tão bem! Olhei para frente e disparei pa-ra-le-le-pí-pe-do! Sílaba por sílaba. Deixando minha mãe encabulada! Eu já era vaidosa naquela época... 

Gosto também dos neologismos. Palavras inventadas, do nada. Que ficam perfeitas na composição... Drummond, no famoso poema, disse com ironia, não estar à altura do atual gráu de evolução. Da falta de amor... E sensualizou moderneticamente: “Faço meu amor em vidrotil? Nossos coitos serão em modernfold?" Essas palavras não pegaram, mas a crítica, pegou! 

O que falar de Veríssimo, o filho, criando frases compreensíveis com palavras totalmente descabíveis? “A senhora entrou com uma bandalheira preta no funeral..." Ela certamente usava um cachecol, ou tecido escuro jogado nas costas. Mas que ficou bom, ficou!

As palavras grandes ou gigantes como eu gostava quando criança, ainda são muito usadas por bruxas ou feiticeiras. Em séries e filmes de magia. São muitas em Harry Potter, Senhor dos Anéis... E os mais antigos vão lembrar da frase mágica da simpática babá Mary Poppins que, com ela, abria seu guarda-chuva e voava... Supercalifragilisticexpialidoce! 

Lembro do episódio que o garotinho repetia a palavra inúmeras vezes, mas não conseguia voar. Mary Poppins insistia...Vamos lá! Fale! E não esqueça, coloque o essencial: amor!  Palavra curtinha. Quatro letrinhas bobas. E a mais poderosa de todas...



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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

É TORTO ASSIM?


Deve ter sido o anjo torto! Aquele que saiu entortando a vida de Drummond em Itabira. Deve ter passado aqui pelas bandas de Santos, lá pelos anos sessenta. E entortado os prédios da orla, em particular no bairro do Embaré.
Pelo menos uns sete ou oito edifícios são visivelmente inclinados. Alguns para a direita. Outros para a esquerda, Alguns parecem que em breve irão se tocar. O mais curioso é que vejo estes prédios tortos há mais de trinta anos e não percebo mais essa tamanha estranha inclinação.
O dia a dia torna mais débil a nossa percepção. Ou é o nosso olhar que anda meio torto e perdido nas telas do celular. Somente na semana passada, quando um amigo avisou que desceria a serra com um grupo de engenheiros e arquitetos trazendo alunos para visitar os prédios tortos de Santos, fazer medições e análises do terreno sedimentar é que a ficha caiu.
Comecei a enxergar os prédios tortos novamente, destacando-os dos demais. E são bem tortos! A proximidade nos faz perder o grau. Por isso não reparamos que a filha engordou demais, até que o médico a considere “uma adolescente obesa”. Achamos o marido levemente calvo, até que o amigo distante pergunte como vai o querido “careca” elegante?  
A intimidade nos cega? Ou com o passar do tempo, vemos menos com os olhos e mais com o coração? Afinal, não acho que são feios ou desajeitados os prédios tortos de Santos. Fazem parte do belo, harmônico e desalinhado cenário. Coisa de anjo torto, em livre imaginário.
Aposto que o senhor italiano, curvado pelos anos, que é guia há mais de trinta anos na Torre de Pisa, não acha que ela seja torta. Diria que é mística. Com uma bela e leve “inclinazione" turística! 



 Foto: G1
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sábado, 17 de agosto de 2019

AINDA VEMOS... GALOS E QUINTAIS!


Há tempos eu não via e ouvia um galo cantar. Tão perto e no meio de carros, ciclistas e pedestres. Era a alegria ciscando solta nas ruas! Como dizia o grande poeta norte-americano e caminhante convicto Walt Whitman, é nas ruas que se encontra a poesia. O inusitado também!  

Saí a pé para comprar orquídeas e vasos... A loja de plantas havia reformado. Agora, tinha uma entrada mais ampla e pelos lados. Original. Mas para entrar, teria de passar por um quintal rústico e simplório. Onde se consertam bicicletas e acessórios. Tudo muito bagunçado. Tralhas, pneus, engenhocas e penduricalhos.

Cruzei a terra amarela com ares de rural atmosfera quando ouvi um galo cantar. Canto forte! De bicho contente. No meio de tanta gente. Olhei pro outro lado e a mãe galinha orgulhosa passeava com seus sete ou oito pintinhos, livres e ciscantes na sua cola. Pequeninos. Ligeirinhos. Saídos há pouco do ovo. E o Galo cantou de novo! Perto da esquina da estação de trem. Entre rodas e bicicletas. No meio da muvuca e do vaivém... 

E veio a surpresa maior. Um grande aparelho de som tocava alto e em bom som, a canção do Belchior! Galos, noites e quintais! Voltei sorrindo e cantando no alegre e diferente  entardecer. Feliz como o poeta americano que só andava a pé e via nas ruas a poesia acontecer. 

Ou, como Belchior. Alegre como um rio. Um bando de pardais. Pois ainda havia galos, noites e quintais...


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quarta-feira, 24 de julho de 2019

VIAJA... QUE MELHORA!


A fila de idosos era imensa na loja de departamentos. Só mulheres. Ruidosas e em pé, na longa e lenta fileira. Os homens idosos, na certa, deveriam estar em filas de bancos, INSS, lotéricas... Eu estava a dois passos delas e um pouco mais distante, na faixa etária. Apoiada em um pequeno balcão à espera da gerente que demorava horas. Foi inevitável ouvir a conversa de duas senhoras... 

A primeira, mais arqueada e entristecida. A outra, falante e jovial. Ambas davam sugestões de como passar o tempo. Sem solidão, nem baixo astral. - Eu pago uma loja a cada semana! Uma numa esquina. Outra, a três quarteirões do Centro. Eu me divirto desse jeito. - Eu, não posso andar muito tempo, disse a mais tristonha. 

Olha só minha perna, a idosa mais risonha falou mostrando no meio da fila e sem receio, uma cicatriz no joelho. Não me importo não. Não paro em casa. Em vez de remédio, eu tomo é ônibus! Vivo viajando. Ontem fui até Peruíbe e de graça. Chego lá e dou uma volta na praça. Tomo um cafezinho. Quatro Reais, no máximo! Mas tem que fazer uma coisa.... e deu o roteiro completo... saio do Centro e vou até Tude Bastos. De lá, tomo o ônibus pra Peruíbe. Não pago passagem. Não é vantagem? 

- É muito longe, a outra replicou. - E o que é que tem? O ônibus leva, meu bem. A gente vai de carona, sentadinha na poltrona. Dando uma larga risada... amanhã vou até Mongaguá. Cada dia um lugar. E já caminhando para o caixa, aconselhou a alegre senhora. -Aprende agora: tá com dor? Viaja, que melhora! 

A fila andou. Sai da loja. Pensando nas mulheres, que em maioria vivem mais que os seus parceiros... Geralmente sós e sem muito dinheiro. Acho que farei como a segunda senhora. Tomarei mais ônibus que remédios. Visitarei lugares e conversarei com todos nas ruas e praças. 

Até a viagem final, aquela que não tem volta. Mas como acho que ainda tenho um certo tempo. Vou conhecer o litoral inteiro... e de graça!


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terça-feira, 2 de julho de 2019

DE CARROÇA NA RUA AUGUSTA?



Chuva fina. Cena comum em noites frias. 

Sozinha, na esquina da rua Augusta com a Paulista, eu esperava o trólebus que deslizava com seus suspensórios de borracha na longa e lenta subida. Íngreme, feito a vida.

Meus pensamentos desviavam dos carros, ignorando as buzinas, enquanto um aperto estranho invadia meu peito jovem paulistano.

O sinal se fecha e então, tudo em mim vira um grande e retumbante silêncio. 

Ouço apenas e claramente o tilintar dos cascos dos cavalos se aproximando. Mulata e Ferrugem! Os animais que puxavam a rústica carroça de meu avô, abarrotada de sacos de cereais para vender na feira. A feira livre da Paulista.

Na verdade, era uma feirinha que acontecia aos sábados, no final da Avenida, endereço nobre dos casarões e das últimas fazendas dos barões do café. O dia começava às três da manhã e junto com meu avô, ia um ajudante e um lampião para iluminar a escura e íngreme subida da rua.

Às vezes, o peso era tanto, que eles desciam da carroça para poupar os cavalos amigos. Ferrugem e Mulata trabalhavam duro, como meu avô. Ganhavam favos e afagos. Sentiam na pele a dor e a gratidão.

Na hora singela do pregão da feira, os comerciantes transformavam a avenida em festa, com suas frases bem humoradas e sorrisos largos. Já na Consolação, grandes árvores e a mata virgem e densa completavam o cenário antigo da década de quarenta. 

Meu avô ia gostar de ver os artistas de rua, as bandas de música e os ambulantes, agora aos domingos, devolvendo à avenida Paulista, a antiga alegria, a caminhada, o lazer.

O ônibus elétrico chega. 

Subo rapidamente, olhando pelo vidro de trás. E num lusco-fusco esbranquiçado e mágico, vejo o vulto da velha carroça, os cavalos e meu avô, com o lampião na mão. 
Deu um breve sorriso e um carinhoso piscar de olhos. Depois, fez a curva fechada na primeira alameda e sumiu no meio da noite, no meio do nada.

O tranco do trólebus me fez trepidar. Outro tranco e tudo voltou ao normal. A chuva, o frio, os carros e as buzinas.... 

Menos meu coração, que continuou apertado, naquele galope ancestral.                                                      

                                                                                        
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Foto: Sãopauloinfoco
https://www.saopauloinfoco.com.br/rua-augusta/