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quarta-feira, 8 de maio de 2019

VOLTO LOGO...


Os filhos já eram grandes demais. Os netos, pequenos demais. A esposa lhe dava pouquíssima atenção, cuidando da casa e dos netos. E sempre que podia, lhe dizia não! Com ou sem razão. 

O Nicolau, então, convidou a nora para passear no teleférico naquela tarde linda de domingo. Ela rejeitou, dizendo que não gostava de altura. E continuou clicando o celular por mais três horas... Deu pra virar criança, agora? Nicolau ouviu da sua esposa e velha senhora, em tom de deboche. 

Lá se foi o coitado pro seu canto com o peso da incompreensão, calvície, varizes, aposentadoria e solidão. Nicolau resmungava consigo mesmo. Melhor era cuidar das plantas ou ver televisão. Atividades que ainda lhe deixavam fazer sem maior complicação. 

Foi na segunda-feira que tudo mudou. Deu um clique no Nicolau. Acordou às oito, tomou café e disse à mulher... vou comprar cigarro e já volto! Imaginou o tempo que levaria para comprar um ingresso e ir sozinho, livre e incógnito, passear no teleférico e logo em seguida, voltar. Sem nenhum familiar pra lhe encher a paciência. Ou contrariar. 

Mas a vida é tão injusta, não é mesmo, Nicolau? Bem naquele dia, o teleférico deu uma pane. Ficou seis horas parado. Sobre a montanha. Com as cadeiras no ar! Nunca houve caso igual. Veio repórter, jornal, Tevê regional. Cobertura total! Só dava o Nicolau... Balançando suas pernas roliças a mais de vinte metros de altura. E a família enlouquecida, vendo pela TV toda a aventura e o resgate final. 

E agora, Nicolau? Ninguém te avisou... que cigarro faz mal?

   

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quarta-feira, 20 de março de 2019

QUEM MORA LÁ DENTRO?

Um buraco gigante na terra. Uma fissura. Imensa caverna cheia de água e úmida atmosfera... Não dá pra descrever ao certo. Foi uma experiência mística e única, conhecer as furnas! Até então, para mim, apenas o nome de uma hidroelétrica em Minas Gerais. Tudo era bem mais.

As furnas são imensas. Profundas. Extensas. Mexem com a nossa alma, o nosso interior. Diferente dos arenitos, formações rochosas que pela ação da chuva e do vento, formaram gigantescas figuras como a taça, a garrafa e outras esculturas naturais que lembram animais. Contando, claro, com uma imaginação bem generosa... Tudo está por perto, no belíssimo Parque Vila Velha, que respira ares medievais, na cidade de Ponta Grossa. 

As furnas são imensas. Impressionam pela beleza e profundeza. De um lado, a vegetação radiante, onde o sol alcança, trazendo um verde vivo, dando margem à vida e à esperança. Do outro lado, umidade e escuridão. Cinza de solidão. E o barulho intermitente dos pingos de água que soam feito cristal, ditando um ritmo de melancolia, e o frescor natural. 

São cinquenta e três metros de profundidade. Somente os biólogos descem lá com rapel, penetrando nessa espécie de templo. Quem viveria lá dentro? Além das algas e fungos? Quem se adaptou àquelas circunstâncias? E vive ali, isolado das diferentes formas de vida e convívio do nosso mundo? 

Os andorinhões-de-coleira-falha são pássaros ousados que colocam seus ovos nas paredes e são vistos na paisagem. Mas são os lambaris que vivem lá de verdade! 

Vivem lá. Moram lá. Uma espécie que conseguiu se adaptar à caverna mudando suas nadadeiras... São os lambaris das furnas! Espécie pouco conhecida. Endêmica. Esquisita.

Fico imaginando, se pudessem sair das furnas e conhecer grandes lagos ou mares abertos... Alguns, certamente nadariam velozes, livres e felizes, no novo e imenso universo.
 
Outros, talvez, continuariam reclusos, porém seguros. Isolados na sua furna profunda.  Adaptados e sós. Como alguns de nós...      


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quarta-feira, 6 de março de 2019

"VERGONHAZINHA..."

Vergonha de tudo. Da espinha. Da marca da vacina. Do joelho grande na perna fina. Do nariz de batata! 

É dolorido esse tempo impaciente, entre criança e adolescente. Quanta vergonha a gente sente! Vergonha do corpo que espicha. Do sanduíche da mãe de pão com salsicha. Vergonha da roupa que não combina. Da voz que desafina. Do elogio exagerado da tia. Eu lembro de cada vergonhazinha que eu sentia... 

O distintivo do colégio minha mãe prendia com alfinetes no bolso da camisa branca de tergal. Eu achava um improviso total. Nunca cogitei pegar agulha e linha para costurá-lo. Era vergonha boba que eu sentia! 

O tempo foi passando e aos poucos, a minha timidez se desmantelando. Hoje ando bem sem vergonha. Às vezes, cara de pau. Nada mais me deixa mal. Nem o corpo maduro. As pintas nas mãos e nas pernas. A roupa meio velha. Nem a farofa que na boca cheia  esfarela. Levo a alma leve e quiçá, mais bela. 

Já não tenho bobagens a me preocupar. Falo sozinha se me der na telha. Entro no mar e sento na areia. Danço e canto nas luas cheias. Solto palavrão vendo coisas inúteis na televisão. Por que, não? Ando falando com desconhecidos. Nas ruas. Nas filas. Edifícios.

Acordei e dei bom dia pro zelador, para o vizinho e um vendedor. E com bom humor, sorri pra aquele senhor charo que insiste em me ignorar. Um dia ele vai aceitar. 

Eu, que tinha vergonha de espirrar e dizer... atchim.  
É dura a puberdade, sim! 
Quando ainda não se sabe...  que a gente relaxa depois da meia idade.



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RECORDAÇÃO DA BIENAL DO RIO 2019...

UM ENCONTRO PRA LÁ DE ESPECIAL...





terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

ONDE ANDA A ANTA?

                               
                                                                                                 
Não era uma pegada qualquer. Era enorme. Na minha cabeça, tomada de surpresa e receio, diante dos vestígios sulcados na terra, era como se fosse de um urso ou de uma onça pintada. Mas não existem ursos no litoral de São Paulo. Nem mesmo ali, colado na mata atlântica. E as onças... bem, quanto às onças, tenho minhas dúvidas.

As pegadas apareceram numa bela manhã, num pedaço estreito de terra que mais tarde se transformou num lindo jardim na lateral da casa de praia que tínhamos acabado de construir. Havia uma. Duas. Três pegadas. E seguiam em direção ao terreno ao lado, floresta ainda virgem.

Depois de algumas opiniões e da observação de que era uma pegada ungulada, de mamífero, veio a feliz sensação de que não corríamos risco. Que mal faria, um boi, uma vaca, um cabrito? À noite, o mistério se desfez por completo...

Na rua de asfalto em frente a nossa casa, com pocotós lentos e ritmados, ela veio desfilando calmamente. Uma anta! Uma bela anta. Adulta. Que passou altiva, parando na esquina para comer alguns raminhos verdes. E sumiu logo depois de ter ganhado pão e carinho dos vizinhos, espantados como nós.

A anta morava ali, no nosso condomínio. E tinha direitos e total acesso. Livre. Dona do pedaço que um dia já foi sua casa, seu espaço. 

Meses passaram e não vimos mais a anta. Onde anda a anta? Aonde a anta anda? Passei a me perguntar brincando com a sonoridade infantil da frase que me divertia mais do que me preocupava.

Deve estar por aí tomando conta da mata que um dia foi sua. Sua, dos tiê-sangues, saguis, pica-paus que foram espremidos pelos condomínios de casas, ruas urbanizadas e piscinas de cimento. Coisas impróprias para antas andarilhas...

Foi numa dessas casas, bem na última, que dava acesso ao pé da mata, que o homem, selvagem, colocou uma cerca de posse e arame farpado: propriedade particular!   

Com seu andar apressado para à casa voltar, a anta se enroscou na cerca e por ali ficou por horas tentando se desvencilhar. Nenhum vizinho amigo veio para ajudar, passou a noite ali, inteira, a sangrar...

Onde anda a anta? A anta morreu. Deve andar em outro planeta, outras matas. Outros campos.
Em outro melhor lugar, para anta viver e andar...


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Foto da anta: Tony Lamers

                                
  


domingo, 3 de fevereiro de 2019

GARÇOM, SEM PRESSA...


Nada mais deselegante que garçom plantado na porta do restaurante. Parece estar nos dizendo... Pode vir, mas coma depressa! Já deu a minha hora. Louco pra ir embora...  

Quando é assim eu dou pista e parto pra outro lugar. Afinal, comer é mais do que devorar primitivamente. Com mastigadores dentes. Caças, suflês ou massas ainda quentes. Pera lá! Já evoluímos o suficiente. 

Um bom jantar tem de ter entrementes. Escolher o prato. Esperar chegar. Olhar o entorno do ambiente. A conversa? Deliciosa e reticente... Com muita calma. Saboreada com a alma. Observando o movimento da boca e o brilho no olhar. Não podem faltar inesperados cheiros, temperos, cores e sabores. Sejam simples amoras ou grandes amores.

Um bom vinho também não combina com pressa. Deve ser sorvido lentamente. Durante uma, duas horas ou mais. Minutos imortais. E no final, o tempo para as frutas ou licor, tanto faz. Um jantar pode ser inesquecível. Jamais à toque de caixa. Coisa mais sem graça. 

Por isso, ou escolho um bom lugar ou prefiro em casa o jantar. Lá não temos fila. Nem horário pra terminar. Sentamos em qualquer lugar. Não é preciso reserva para datas especiais. Nem falar francês ou calçar sapatos sociais. A alma sim, deve estar elegante.

E o querido convidado, do meu jantar prolongado, nunca tira a carteira no fim. Só beijos e abraços... Depois, é claro, do pudim.


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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

DÁ A MÃO PRA MIM?


Bastaram poucos segundos. Olhares alegres e miúdos. Pronto! Já eram amigas.  
Qual o seu o nome? Larissa! E o seu? Luiza! O próximo passo foi Luiza sentar-se na areia sob o nosso guarda sol colorido  protegendo a sua pele branquinha do verão escaldante do litoral quarenta graus. Antes, acenou para a avó informando que estava ali, em boa companhia. Agora, com uma amiguinha! 

Pedimos que fizessem castelos de areia. Preferiram fazer bolos. Muito mais simples. E certamente mais gostoso. Escolhi cobertura de brigadeiro, feita com pinguinhos de areia molhada. Ambas sorriram animadas. Agora vamos buscar água?  

Luiza, com sua expressão pura, pediu que Larissa passasse o baldinho para a mão esquerda e segurou sua mão direita com ternura. As duas pequenas caminharam em direção ao mar. Mãos dadas. Duas. Três. Seis vezes. Não colocavam água suficiente, para voltarem mais e mais vezes.

A cena das meninas de mãos dadas ficou gravada em minha mente. Derreteu feito sorvete em  sol quente o meu adulto coração.  Imagino o mesmo encontro, Lulú e Lalá, daqui uns vinte, trinta anos à frente... 

Lulú, empresária bem sucedida, bilingue, solteira. Lalá, casada, massoterapeuta, blogueira... Pediriam, no máximo, para olhar a cadeira. Fariam perguntas por educação. Onde você trabalha? Pra onde viaja? Votou em quem, por favor? Pronto. A amizade acabou. Cancelada! Juntas no mar e de mãos dadas? Nem pensar.

Mas Lulú e Lalá são crianças. Tem sementes de esperança. Preferem fazer amizades e bolos na areia. Não fazem separações.

Amanhã voltarão novamente a se encontrar. De mãos dadas e mergulhar. No mar que continua igual para todos...  
Que saudades da criança que um dia fomos.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O AMOR QUE MACHUCA...


Reconheço dois tipos de nordestinos.
Aquele que fala grosso e é talentoso desde menino, como o Lua, Suassuna, Dominguinhos.
E aquele que fala fino. Um tipo franzino de corpo fininho. Mas que dele não se duvide. É cabra da peste, como se fala no Nordeste. Não trate com desdém. Quem tentou, não se deu bem. 

Gilsinho era assim. O melhor jardineiro que já conheci. Bom na tesoura e no cortador. Trabalhava com amor. Cuidava da grama. Arrancava o mato e o espinho da flor. E quando a praga se espalhava pelo chão, fazia uma lenta e perfeita catação.

O problema do Gilsinho não era a preguiça. Muito menos a fé. O problema era "a mulé”! 

Todo domingo, Gilsinho vinha prosear no nosso alpendre e se punha a lastimar. Amo muito a danada. Mulher boa. Só um pouco destrambelhada. Apronta demais quando bebe. E como bebe, a desgraçada. Cuido dela e dos quatro filhos. Nenhum dos quatro é meu. O problema é de madrugada. Larga eu e os filhos e vai pra balada. Já fui buscar ela travada. E ainda por cima, me trai a desalmada.

Ouvimos os tristes relatos, imaginando o desvario da mulher. E Gilsinho completava: - mas eu amo essa bandida! Desgraça na minha vida. E saia cabisbaixo da nossa casa, por entre a grama aparada e as flores do jardim.

No domingo passado, Gilsinho veio arretado dizendo ter encontrado a solução. Agora já deu! - Mandou a mulher embora, Gilsinho? O que aconteceu? 

Quem vai embora sou eu. 
Vou voltar pro nordeste. Sou cabra da peste. Aqui fico mais não. A danada me enfeitiçou. Largar dela eu sei que não largo. 
Mas matar, eu sei que mato! 

Falou com autoconhecimento e as mãos aflitas segurando a tesoura afiada de cortar espinhos.

Faz muito bem. Vai em paz, Gilsinho!


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