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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

É DOIDA A LUA?




A lua anda! Branda. No meio da noite. No fim da rua. 
Às vezes surge na minha janela, imensa e amarela. Bela donzela! Às vezes é filete minguante. Feito a vida, Foice cortante.
Outras vezes é nova. Branca de luz e magia. Lua das musas e fadas madrinhas. 
São tantas as luas... Lua dos amantes. Das cartas de tarô. Lua pequena e distante. Lua vermelha de sangue. Lua cheia. Lua dos homens e do Lobisomem. 
Lua de São Jorge.  Lua do teatro No. Lua dos nevoeiros... Do sertão, dos seresteiros. Lua do brilho prateado no mar. Lua de Ushuaia, do deserto de Madagascar! E dos loucos como ela, a girar.
É doida a lua, sim! Lua que boia e flutua. Dona de estranho poder. Acorda os poetas, faz criança adormecer. 
E depois de tanta aventura, a lua ainda anda, nas noites frias... completamente nua!
É doida a lua!   
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Poesia adaptada da crônica É doida a Lua ( Inesplicando Vol1) 
Veja o vídeo poema no youtube neste link https://youtu.be/WyHhxiCYtek

quarta-feira, 12 de julho de 2017

NÃO PERGUNTE... COMA!


Linda. Cor de laranja, redondinha. Physallis! 
Foi a fruta exótica escolhida para esta semana. Tenho tido esta vontade ultimamente. Descobrir novos sabores. Novas notas. Paladares diferentes. Chega de vida insossa. Não mais!
Por isso gostei tanto da minha recente estada num Hotel no Espírito Santo que tinha nos fundos uma imensa árvore de seriguela. Caiam no chão de maduras. Vermelhas. Doces e agrestes. Eu me fartava antes e depois dos passeios.
E não são só as frutas. Tenho tido desejos de experimentar outros sabores. Comidas de outras culturas. Feitas em grandes panelas. Nem tão leves e deliciosas como os physallis e as seriguelas. Na nossa visita ao Uruguai, pedi ao amigo “Reyes” que nos levasse para comer algo bem típico e exótico de seu país.
Ele não teve dúvidas. Mercado central! Começamos  a degustação com o famoso drink  "medio y medio". Coquetel que mistura vinho branco com espumante. Depois uma bela lasca de provolone torrado na chapa. A seguir, a experiência inesquecível. Pedaços de carne de boi e cordeiro embrulhados em papel alumínio.
Eu estava prestes a perguntar o que era cada um deles quando Reyes disse a frase que recordo até hoje:  "No pregunte. Coma!" E assim, fui abrindo e degustando  os pedaços de carne de cheiros e sabores fortes e desconhecidos. Sensação difícil de traduzir.
Terminamos o almoço hermanados e empanturrados. Reyes com sua calma uruguaia explicou que se tratava de uma “parrillada”. Típica. Legítima. E que eu havia experimentado linguiça com sangue de boi, cérebro, rins, glândulas e intestino delgado!                                                                                        No pregunte, coma! Agora compreendi a razão. Para os menos corajosos, no entanto, recomendo sem medo... os Phisallis!

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terça-feira, 11 de julho de 2017

ALMAS SALGADAS

 
Desconfiei, por um bom tempo, que Dorival Caymmi e Jorge Amado fossem a mesma pessoa. Um só ser. Pertencente a uma única e gigante família baiana. Um segredo escondido pela mídia, só para nos atrapalhar.
É que aqueles cabelos branquinhos, a fala baiana arrastada e o eterno canto pro mar, trazem no picaré da minha memória essa dúvida que vai e vem. Eram um? Ou eram dois? Deixo a resposta baianamente pra depois.
O mar é para todos os peixes. De qualquer canto ou lugar. Quem ama o mar não enjoa. Nem se cansa de olhar. O mar é coisa viva. Refúgio das almas mais antigas. Hipnótico e denso. Imenso energizar.
Sou da família do mar. Nem Caymmi, nem Amado. Sou mistura não muito rara de paulistana com caiçara. Adotada pelas praias. Hoje, de alma mais úmida e salgada.
A maresia me inspira. Misturo peixe com poesia. Aroma de poema marinado. Que invade minhas narinas e as marinas onde ancoro meu coração. Longe do oceano, morro aos poucos. Feito peixe fora do mar. Alma, com medo de secar.
Um líquido salgado hoje corre nas veias. Sofro de mar-dependênciaE o coração bate espraiando, como as ondas nas muretas em noites de lua cheia.
Mergulhei em Santos e me enamorei do mar. Daqui não saio mais. 
O mar quando quebra na praia... é bonito demais!


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terça-feira, 4 de julho de 2017

FAVOR, TIRAR OS SAPATOS...


Como é bom tirar os sapatos. Sempre gostei!
Certa vez, na casa de amigos, tive que tirá-los para adentrar a casa. Nada de imposição. Apenas sugestão do casal. Possivelmente, um hábito de família...
Confesso que não estava preparada. Não eram japoneses, nem nada! Pensei nas pessoas que ficariam constrangidas em terem que tirar seus sapatos. Estariam sujos ou arrebentados? E se as meias não estivessem limpas? Furadas, talvez?  
Não tive nenhum dos problemas e tirei sem muito pesar... Percebi na verdade, um ar de conforto e intimidade. Sentada no chão entre pufs, almofadas e chás da tarde! Meus amigos gostavam assim. E com amigo não se discute.  
Continuo gostando de ver as pessoas tirarem os seus sapatos... Eu sempre tiro para pisar na grama, no mato ou na areia da praia. É feito fio terra. Descarrega!
Como a moça elegante no fim da festa. Com seu vestido preto de fenda, que começa a cambalear pra lá e pra cá. É bom vê-la descalçar o salto doze e se acabar na pista feito louca. Descendo da pompa até o baile terminar. E ela acaba no sambão. Com os pés no chão. É tão bom!
E tirar os sapatos novos, depois de um evento ou um longo casamento? Quando o calcanhar lateja, num pulsar de tormento. Que doce momento!
Já tive muitos desses prazeres. Mas nada se compara à bailarina que tira suas sapatilhas. Pés divinos. Sempre moídos. Pontinhas em carne viva. Pas de Deux! De doer! E o jogador de futebol? Que tira as chuteiras depois do jogo suado? Incontáveis pisões deve ter levado!
Tirar os sapatos é muito bom. Agora mesmo, saí do meu salto alto para escrever mais a vontade. Mais humilde. Quem sabe, um texto mais belo. Com os meus pés no chinelo. Largo... e velho!

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quarta-feira, 28 de junho de 2017

FECHA ESSA TAMPA!


Nunca gostei de fechar nada. Tampas, portas, gavetas, canetas...
E durante muito tempo fiquei procurando uma justificativa para esse desmazelo!  Acabei encontrando... Não gosto de coisas encerradas. Finalizadas e trancadas! Armários. Cadeados. Muros entre as casas. Elas me trazem a idéia de aprisionamento. Sufoco.
Sempre, em meus melhores sonhos, imagino lugares amplos. Ambientes claros e abertos que interagem. E com muito sol, de preferência!
O espaço largo me agrada. Mas não que eu não tenha culpa em não fechar as coisas. Realmente não sou boa nesse quesito. Canetas, por exemplo. Não só as deixo abertas, como promovo uma verdadeira dança com elas. A minha vai parar na mesa do amigo. A do amigo vai para outra sala. E por assim vai...
As tampinhas? Nunca sei onde deixei. Mas que tirei, tirei. Mea culpa, confesso! E sofro por isso. Imagina a quantidade de vezes que tive que ouvir...  Fecha essa tampa! E eu vou lá quietinha, resignada e fecho. Mas não gosto, não. Imagina, então, a sensação de fechar um bar? Fechar uma festa?... nem pensar!
Gosto de partir antes de acabar. E pensar que a festa vai continuar. Ah, o inacabado, como é livre e reticente...
Por isso escolhi morar de frente pro mar, bem na garganta de São Vicente que desemboca no mar aberto... Quando a vida apertar,  vou ter uma saída por perto!  
E assim, nessa mesma toada, a reencarnação me cai bem. Nada de acabar por aqui e ponto final. Voltar várias vezes seria perfeito! Viver novas vidas. Novas experiências. Outros personagens em mim mesma. E depois, sim, morrer. Por que não? Sabendo que vou voltar!
Ah.. mas por favor, na hora do caixão... não, não fecha a tampa !!!
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quarta-feira, 21 de junho de 2017

LÁ NO JACARÉ


São duas as Biritibas. Não muito distantes de Mogi das Cruzes. Uma é a Mirim. A outra é a Ussú. Só isso já bastava para tornar curiosa a nossa visita à cidade que ficava a poucos quilômetros do sítio onde eu descansava o final de semana: Biritiba Mirim! Doce, rústica e pacata...
Quando a noite escureceu a mata e o som das cigarras já trazia um ar de melancolia, decidimos procurar algo mais alegre na cidade grande, que não era tão grande assim. Mas era sábado! Alguma coisa devia acontecer por lá.
Meia hora de carro e avistamos, do lado direito da estrada, uma grande construção. Um armazém enorme que, soubemos mais tarde, havia abrigado a Lobo’s, maior discoteca da região, há anos desativada. Passamos lotados. Não era o programa desejado.
Seguimos na pista e do outro lado se via um posto de gasolina. Bem iluminado. Com uma subida que dava no centro de Biritiba. Havia uma entrada principal com um pequeno portal e arvoredo. Adiante, a rua que abrigava o comércio inteiro. Lojinhas de roupas, materiais de construção e ração para animais.
Aberta mesmo, só uma pizzaria no final da rua, na praça da Igreja. Ali sim, Biritiba fervia, acesa! Paramos o carro atrás de alguns cavalos em postes amarrados. Seus donos estavam em grupos e conversavam ao som de música sertaneja. 
Eram moços e moças de bochechas vermelhas de quem toma sol com poeira todos os dias no campo, no meio da natureza. Era animada a prosa. Bebiam cerveja e energéticos com pinga de alambique. 
No meio daquele pique, encontrei o Edú, caseiro do sítio. - O que se faz de bom por aqui, amigo? Ele respondeu num caipirês meio tímido...  - “aqui é só o esquenta, ué! Depois, nóis vai tudo pro Jacaré!”
Pegamos o carro, estacionado atrás de três velhos cavalos e seguimos em direção a saída da cidade. A casa tinha dois andares. Era velha e esquisita.  Pintada de preto por fora com uma luz verde piscando na janela de cima. Saia fumaça, calor e mulher. No alto, a placa: Forró do Jacaré! 
Olhamos, sorrimos e ali mesmo paramos. No dia seguinte, o galo e as galinhas do sítio iriam nos acordar cedinho com outros planos... Ficou somente a lembrança alegre da pacata e nada ingênua Biritiba! 
E daquela noite quente... no forró do Jacaré. Ué!

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

QUEM MANDA NA CHUVA?.


Era só eu cantar, para a chuva parar. E eu repetia baixinho o refrão:  - Para chuva, para. Para chuva, para, até que ela fosse, lentamente, cessando. Eu, com meu pequeno canto, seguia acreditando dominar a natureza. Devia ter cinco ou seis anos. Tempo de mágicas e algumas certezas.
Hoje não canto mais esse mantra de infância. Nem tenho mais os poderes de uma criança. Mas a minha relação com a chuva continua curiosa. Um misto de tristeza e louvação! 
É nos dias de inverno, frios e cinzentos, de chuvinha miúda e contínua, que minha alma se encolhe. Úmida do nariz aos pés, não faço bem o café. Nem um sambinha triste sequer. Afino. Desafino. Tudo adio. Nada termino. Espero a chuva passar.
Mas as sementes explodem contentes. E minha alma se rende à beleza e ao poder das águas correntes.  
A chuva de verão é minha preferida. Aquela que vem curta e grossa. Bate nas costas. Com seus patacões quentes e esparsos. Estouram na calçada e no asfalto, refrescando o calor e reduzindo o abafo. Depois vai embora, trazendo de volta o céu azul e o sol a brilhar. Com sorte, um arco-íris vem coroar. 
Um dia eu não consegui fazer a chuva parar... Eu cantava na janela entreaberta e a chuva, arredia e esperta, não se deixava dominar. Meu irmão mais velho chegou atrevido para o mantra atrapalhar. E trocando a letra com total descrença, começou a cantar... -Vem chuva, vem! Vem chuva, vem!
Pois não é que a chuva voltou? Forte e intensa. Com gotas de desavença. Pingos de indignação! Que ato traiçoeiro. Chorei o dia inteiro. 
E foram os primeiros raios e trovões, entre dois pequenos e amáveis irmãos.
Não é bom contrariar os deuses da chuva...  Aposto que não!
  
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