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terça-feira, 27 de setembro de 2022

O PEDAÇO FINAL DA TAÇA


Ele colocava milimétricamente as figurinhas. Coisa que eu nunca conseguia. Eu começava bem os meus álbuns na infância, mas bastavam duas ou três semanas e já entortava uma figurinha para a esquerda. Outra avançava a linha de cima. Outra sangrava para um dos lados. Ficavam tortas as páginas do meu lambuzado  e desenquadrado álbum. 

Mas meu irmão não. Ele tinha o dom. Fazia a coisa com técnica e perfeição. Passava o pincel com a medida exata de goma arábica nos quatro cantos por detrás do papel. Calculava com o olhar, indo e vindo, aproximando e voltando, até fixar a figura sem medo, do lado esquerdo. Depois com o dorso da mão esticava a figurinha para ficar lisinha no álbum limpinho e sem muito manuseio. O meu, sempre com as pelotinhas de cola no meio.

Eu tentava consertar, tirando e colocando novamente. Doce ilusão. Rasgava sempre um pedacinho. Eu fazia um remendo, criando um monstrinho, o que era imperdoável para o Silvinho. Passei anos vendo meu irmão preencher seus álbuns na infância. Geralmente de futebol e torneios. Ele preenchia por inteiro. Não era pra qualquer criança, aquele zelo.                                                   

Na hora de abrir o pacotinho tinha um ritual. Rasgava a parte de cima, um centímetro, na horizontal. Colocava as figurinhas sobrepostas e justinhas, uma atrás da outra. Depois ia puxando lentamente a detrás, criando pra si um suspense. Subia lentamente a última delas, desvendando enfim o segredo. Tenho. Tenho. Não tenho! 

O final do álbum era mais tenso. Vários pacotinhos com repetidas. Ele separava dois montinhos com um elástico. O das mais fáceis e o das cobiçadas, prateadas, que por duas ou três figurinhas comuns eram trocadas.                                                                                                  

Num antigo álbum dos anos setenta, faltava só uma para completar a figura da primeira página. O pedaço final da taça. Ele demorou semanas para encontrar. Trocou com um desconhecido. Não deu pra negociar. Pagou com cinco figurinhas e sua bolinha de gude vermelha. Valia a pena. 

Voltou pra casa e colocou a figurinha na página, desta vez, sem colar. Ficou assim por mais de um mês. Tática? Superstição? Compreendi sem perguntar a razão...  Era melhor fingir que faltava sempre uma. Assim continuava trocando com gosto e agora mais generoso.                   

No domingo, dia da final, colou com cuidado a última peça que faltava. Milimétrica e perfeitamente. Na minha frente. Album completado. Folheado e fechado. Era o pedaço final da taça Jules Rimet. Fomos para frente da Tevê.  4 a 1 pro Brasil! Penso que meu irmão, supersticioso, contribuiu. 

E eu... que colei o Jairzinho, no lugar do Tostão? Ainda bem que ele não viu.


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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

DEITADINHA...

                                                             
Eu procurava o único pedacinho de sol da manhã e deitava no azulejo quentinho do meu quintal. A casa era fria nos dias de inverno e a luz artificial não aquecia. Eu recarregava a minha bateria naquele cantinho nos ensolarados dias.

O colégio tinha um pátio grande e uma palmeira imponente no meio. Eu corria para ela no recreio. Lanche na mão e a alegria de sentar ao sol no quadrado de terra descoberto olhando o céu aberto. O sol a pino. Eu sem teto.

Os anos adultos e duros vieram. O tom pálido diário do trabalho. Dias de escritório. Os pais mais velhos recolhidos em seus apartamentos de escuras cortinas. Junto deles, minha rotina cuidadora de filha. Nas pausas eu corria até a praia e deitava na areia. Esteira em frente ao mar para ver o por do sol e minha alma úmida secar. Alguns minutos bastavam para o amor de novo me ensolarar.

Os colibris saem de manhã com um mínimo de energia. Precisam achar rapidamente comida para ganhar simplesmente a vida. Batem asas num movimento absurdo, oitenta vezes por segundo. De flor em flor vertendo a energia para sobreviver a cada dia. Vivem no limite.

Um mini-colibri minúsculo é o único que descansa profundo. Tão pequenino, ele se deita numa folha e hiberna por poucos segundos. Depois volta ao mundo.

Olhei ele na foto deitadinho. E me vi na folha, num dia frio...  naquele meu quintal quentinho.       

 

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foto: Revista Pazes/Raul Simgh

terça-feira, 23 de agosto de 2022

MEU QUARTO OITENTÃO...


Demorei um tempão na confecção. Cada foto tinha um porquê. Um coração na revista. Um anúncio de tintas. Um ator de tevê. Os posters maiores em destaque. Fotos de cantores pops em coloridos almanaques. Capas de LPs.

A parede da casa, com muitas ressalvas, era a mãe que doava para a obra artística com ares amadores e quase sempre inacabada. Geralmente num quartinho escondido. Às vezes, a parede do próprio quarto, para privilegiados.

O melhor amigo ou amiga vinha ajudar nos recortes. Revistas da moda. Contigo, Carícia, Pop, Placar, Quatro rodas... Valia adesivo, selo, receitas, envelopes. Tamanhos diferentes, para não deixar careta a composição paredesca anos oitenta. Toda colorida, com letras distorcidas. Figuras do rock, cabelos enormes, blazers com ombreiras. Excessiva e psicodélica pintura. Muito de inocência querendo ser loucura. 

A cola branca diluída em água fria fazia a pasmaçada. O pincel era qualquer um de tinta que a gente encontrava. Cada figura colada, um novo aleatório desenho se formando. Como se revelando o caledoscópio das nossas almas.

Cores e nomes em sobreposição. Idolos emergindo no papel da parede que embalava a geração. Coração analógico e estudantil. Mostra e diversidade multicor daquele Brasil.

A parede dos anos oitenta! Retalhos de momentos adolescentes. Mistura de rocknroll, mpb, meias coloridas e golas diferentes.

Era a nossa Internet... na parede!  


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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

DE BEM, NOVAMENTE!


Ele me disse que sabe cantar o Hino nacional de ponta a ponta! Sem errar nenhum pedaço. Sabe o que eu acho? Ele está me enganando...

E lá se foi o Sílvio carregando o peso dos seus oitenta anos. Passos lentos e ritmados, pela calçada da vizinhança, até encontrar uma papelaria. Queria achar aqueles cadernos antigos que tinham o hino nacional estampado na parte de trás. Não existiam mais!

Tivemos que imprimir o hino, em letras garrafais, só pra ele conferir... E não é que o Flávio sabe mesmo? Cantou direitinho. Do ouviram do Ipiranga até o finalzinho. Pátria amada, Brasil! Cantarolou e sorriu.

Era uma amizade tardia. Feita na vizinhança. Por quem sabe que é preciso um amigo por perto. Mesmo que esse amigo não esteja sempre certo. A amizade dos sozinhos. Dos velhos e vizinhos. Que contam da vida e seus amores. Dividem as dores, bulas, remédios e dissabores.

Quando quebrava o chuveiro, o Sílvio chamava o Flávio pra consertar. - Não precisa pagar o conserto. Mas o café, eu aceito! Era sempre na mesma padaria. Quase todo dia.
- Desse jeito vai sair caro. O Silvio se divertia... 

De noite ou de dia viviam se cruzando na vizinhança. Sem muito combinar. Sabiam os horários que estariam por lá. Prontos para prosear. Riam e brincavam. Às vezes brigavam. Eram dias sem se falar.

Encontrei o Silvio chateado. - Briguei com o Flávio. Ele me ofendeu. O Flavio então apareceu, triste e cabisbaixo. Olhou para o amigo Silvio e reconheceu: - eu queria pedir desculpas. Mas você é mais teimoso que eu!

Peguei o dedinho mindinho dos dois velhinhos e promovi a reconciliação. Que tal um café na padaria? 
- Dessa vez eu pago, disse o Flávio, sorridente.  
- Até que enfim! Silvio "alegreceu".

E as duas velhas crianças seguiram em frente. Passos lentos... 

Amigos, novamente!


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Foto:Getty Images/iStockphoto
Informações extraídas do IPTC Photo Metadata





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quarta-feira, 20 de julho de 2022

A FLOR COM FRIO...



Os três irmãos vestiam os pijamas quentinhos por dentro da calça. Camisa de manga longa debaixo de uma malha grossa. Gola alta até o pescoço e um gorro que cobria a pontinha das orelhas. Só o nariz desencapado e as bochechas vermelhas realçavam a pele lisinha entre sorrisos alegres e gelados.

A caminhada pela fria trilha de Campos começava. As crianças e as flores superavam o frio em diferentes arrepios. Cada um do seu jeito, metabolismo e sentimento.  Na mata, pétalas de flores vidradas com uma película de água condensada desenhavam um cenário de quase neve. Ares europeus. Uma flor amarela se destacava gelificada entre elas. As flores deviam estar acostumadas. As crianças, não.

No caminho da fria estrada, árvores de pera d’água. Todas duras. Quase deixavam na polpa os dentinhos de leite encravados. Mais abaixo, uma paisagem de mato queimado e orvalhado.

O passeio deu energia às crianças. Alugaram bicicletas. Alegres no caminho plano. Na subida das ladeiras vinha o desânimo. Cada um carregava suas rodas e mochilas pesadas nas costas. O irmão mais velho vibrava a cada aragem mais fria. Sua alma invernada sorria. Foi feito para o frio.

Nem mesmo ao meio dia a coisa esquentou. Uma chuvinha veio. O frio aumentou um grau e meio. E o vapor mais quente se via saindo das bocas falantes.

O irmão do meio lembrou do café quentinho. Da casa e da lareira. Já tinha valido a pena. Enquanto o mais velho se deleitava e sorria, como um pinguim feliz na Oceania.

Eu era a florzinha friorenta que sofria. No caminho de volta pelo campo florido um radar de sentimentos me conduzia. Guiada por um perfume imaginário atravessei o mato alto que delicadamente me prendia com seus galhinhos secos e magros. Avistei a flor amarela. Abaixei gentilmente até ela. Assoprei o hálito quente nas minhas mãos e rodeei suas pétalas lisinhas. Aquelas que quase congelaram naquela manhã fria. 

As florezinhas e as meninas preferem o calor. Falei, segurando a mão quente dos irmãos como quem agarra um cobertor.                                  

Era a minha alma congelada pedindo para voltar pra casa.


 

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terça-feira, 12 de julho de 2022

CHAPÉU DE PALHA...

“Eu vou pra Maracangalha”. 

Deve ser um bom lugar pra descansar. Lá nas bandas da Bahia, com uma pracinha e um banco largo pra gente sentar. Lugar quente. Dorival Caymi levava o chapéu de palha. Posso levar.

Mas como deve ser calma a tal Maracangalha, talvez prefira algo mais agitado, com bebida, dança e batucado. Melhor ir para a Esbórnia! Seria um país? Um estado de embriaguês? Perto da Rússia? Prússia. Ou um povoado Galês? Certamente faz frio. Diferente do Brasil. Um lugar de boemia onde não são muito boas as companhias. Sozinho, não se vai pra Esbórnia. Em excursão, eu jamais iria!

Vou me embora é pra Pasárgada! Ali sim, é outra civilização. Manoel Bandeira descreveu tão bem. Mas ele era amigo... e eu nem conheço o Rei! 

Distante mesmo é onde Judas perdeu as botas. Os antigos iam muito pra lá. Depois, saiu de moda o longínquo lugar. Os jovens não conhecem. É longe pra danar. 

Pior é ir pra Tonga da Mironga do Kabuletê. Onde deve ser? Vinícius devia saber...

Vou mesmo é para Shangri-lá! Dispenso a trilha de Burt Bacarat. Vou no silêncio e no abandono. Lá, as praias são de sonho. O céu, azul clarinho. Campos em flor, belas montanhas e caminhos. Noites regadas a vinho. E todo céu escuro clareia com luar.

Fechado! Vou pra Shangri-lá! 

Vou devagar feito Caymi, com um chapéu de palha pra refrescar.

Não sei se volto. E já vou avisando... vou sem celular!

                                                              

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sábado, 2 de julho de 2022

OFUSCOU...

Já tive fusca, como muitos. 

Hoje ando com um carro antigo, importado. Paro no farol e ouço do motorista ao lado: 

- Que ano é ? Quantos cilindros? Que carro lindo! 

Não sei bem onde estão os cilindros. Sei onde fica o tanque de combustível e pra mim já está bem. Abro o teto solar acenando para o astro rei e passeio devagar. Tem sempre alguém querendo comprar...

O carro é antigo. Ano noventa e cinco! Logo, logo, vai virar placa preta,  por sua originalidade e conservação. Eu mesma, não tenho essa ambição. Trocarei algumas peças em meu corpo, se preciso for.  

Mas ele é o meu xodó. Parece com os antigos carros dos anos sessenta. Fino e esportivo. Cor de sangue. Tipo Mustangue. Porém, mais comum e barato. O banco se inclina e se deita. Quem for muito grande, não entra! Feito sob medida, gosto de pensar assim. Mas tem sempre alguém querendo comprar...

No mês passado achei um bilhetinho: - Quer vender? Me liga. Jaiminho! Oras, Jaiminho, é questão de carinho. Dinheiro nenhum pode pagar. Joguei o bilhete fora. Que ache outro para namorar!

Acostumei tanto com gente cobiçando o meu Cálibra que outro dia achei estranho...

 Levei meu marido para buscar um fusquinha 66 que saia da oficina, cor azul calcinha. Eu vinha na frente com o meu carro vermelho atraente e ele logo atrás. Na esquina de um bar, um grupo de homens saiu rapidamente para olhar. Vão perguntar do meu carro, podia apostar...

Necas. Olharam todos para o fusca velhinho que vinha atrás, rodas fininhas, calotas branquinhas, espelhinhos originais. O olhar era de encantamento e emoção.

Meu carro vermelho era atração. 

Mas o fusquinha... o fusquinha azul, era amor!


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