No dia seguinte, a cena se repetia e ele perguntava, agora para a mãe:
* * *
VEM NOVIDADE POR AÍ;;;
Por anos naufraguei num mar de dúvidas, O local cantado por Herbert Viana era real ou uma metáfora usada com beleza e inspiração, simbolizando uma luz no fim do túnel para alguém perdido num mar de incertezas e solidão? Mais tarde descobri que a “lanterna dos afogados” é nome de um bar, no livro Jubiabá de Jorge Amado. Lugar onde as mulheres dos pescadores esperavam seus maridos com suas lanternas em punho na ânsia de ajudá-los a achar o caminho de volta.
Dizem que algumas delas, em desalento, vagavam mudas e chorosas, mas sem ares de revolta. Outras, ainda em desespero e aprisionadas pelo tempo, mantinham acesas suas luzes e a esperança de ver seu amor voltar depois de muitos anos. Triste mar de enganos. Eles nunca voltavam. Talvez a ideia da canção tenha surgido do livro. Não duvido.
Eu me vi assim, por uns minutos, naquele farol noturno esperando uma embarcação que não vem. Um tempo que demora e não chega. Vendo a tempestade próxima e um mar em desassossego. Só o refrão da canção para me consolar.
Continuei no farol com o pensamento além mar. Devo tocar o barco? Esperar? Pedir a Iemanjá para ajudar? Sei lá. Eu estava em Penha. No farol das águas calmas. De noite bonita e sem viúvas aflitas. O que balançava era somente a minha alma aflita.
Olhei com doçura a luz do farol e senti a esperança que vinha nas águas renovadas que chegavam do alto mar. E feito Herbert Viana e as viúvas em Jubiabá, cantei baixinho, pra eu mesma escutar...
Eu tô te esperando... vê se não vai demorar!!!.
Derrubei dois livros abertos suavemente sobre o sofá da
sala. Joguei a manta sem muitos cuidados. Juntei três cadeiras e espalhei
objetos em desordem na mesinha do lado. Pronto. O toque de liberdade, sem perder o conforto.
No escritório, afastei a poltrona abrindo as cortinas
da janela convidando o sol a chegar mais perto. Deixei o notebook aberto.
Adentrei o quarto, amontoei os cobertores criando e redesenhando macias montanhas. Empilhei seis travesseiros. Como se as crianças tivessem brincado por lá o dia inteiro. Aventura pura e sem censura.
Na cozinha comecei o recheio do bolo caseiro. Selecionei os ovos, o leite e a manteiga, deixando uma nuvem de farinha salpicada em neve sobre a mesa.
Desci do armário quatro taças de vinho, as preferidas dos amigos. Completei o cenário, abrindo todos os vidros da varanda pra que a brisa balançasse alvoroçando as
plantas. Queria o movimento. Alegria, mais que vento.
Depois, liguei o rádio cantando alto um velho e conhecido refrão. Queria o coro, não um solo de violão.
Pronto. Sinais de vida alterando o silêncio das coisas. Movendo as roupas, empilhando as louças.
Enchendo minha alma de presenças e esperanças. A casa... delicadamente desarrumada.
*****

Passei inúmeras temporadas de férias na cidade de Itanhaém quando pequena. Meu tio tinha uma linda casinha com rampa de pedrinhas arredondadas, na rua que dava na praia dos pescadores. Da cidade em si, lembro pouca coisa.
Recordo a antiga ponte de madeira. A cama de Anchieta. A estátua de Mulheres de areia, em sua primeiríssima versão, com Eva Vilma de Ruth e Raquel, e Guarnieri como Tonho da Lua. Além de alguns personagens da rua.
Lembro bem é do Seo Alcides. Que eu pensava ser o prefeito da cidade.
Na verdade, ele dirigia o caminhão da coleta de lixo, mas meu tio insistia em chamá-lo de “prefeito”. Grande sujeito. E tinha a panca e a autoridade do fictício cargo.
Era moreno, cara redonda e um dos olhos semi esvaziado. Um homem forte e calado que metia medo na garotada. Morava na rua em frente à casa do meu tio e tinha uma
esposa, cujo nome, minha memória seletiva, deixou escapar.
Passei muitas tardes sentada na varanda da casa do Seo Alcides, que tinha um carinho especial por mim, a menor de todas as crianças que passavam férias em Itanhaém. Éramos amigos. O prefeito e eu!
Depois de anos, eu já adolescente, meu tio contou uma história que surpreendeu.
No meio de uma importante reunião da Fiesp, repleta de diretores e
executivos da indústria, meu tio estava sendo pressionado pela queda das vendas. Era calorosa a discussão sobre mercado e crise financeira, quando a nervosa secretária adentrou a sala com o velho telefone
de fio na mão: -Sei que não devia interromper, mas acho que o Sr. Diretor
vai querer atender. Ele disse que é urgente! É o prefeito de Itanhaém...
Meu tio, rápido e estratégico, tirou o telefone das mãos da secretária e
atendeu com ares de poder: - O que é que há? Diga lá, prefeito!
Pode falar...
Era o Seo Alcides, o motorista do caminhão coletor, parando a reunião da Fiesp!
A Rua João Pessoa é uma linha
reta que vai dar no Porto de Santos, cruzando o centro antigo da Cidade. Zona das
bocas e da antiga boemia. Dos famosos Love Story e Fugitivo. Região do cais. Notívago
caos.
De dia, o comércio já não cresce. À noite, quando escurece, as mulheres aparecem feito mariposas. E se espalham pelas casas noturnas, salteando alegres entre clientes e copos de cerveja. Som de forró e música sertaneja.
São muitas. Algumas, atrevidas. Outras simpáticas e coloridas. Expostas! Com pernas à mostra. Porém, mais discretas que os rapazes da General. Com saltos quinze e meias arrastão. De humor ácido e escrachado. Vozes finas e físicos avantajados.
Conheci alguns desses personagens na saída do trabalho, no lusco-fusco confuso das sete da noite. Todo cuidado é pouco no velho centro da cidade. Nessa hora tudo se mistura. Trabalhador e meliante. Policial, vendedores, ambulantes. E as mulheres da noite surgem dos casulos ocultos da avenida. Borboletas esvoaçantes.
O Centro histórico fervilha. Tem cheiro de gasolina e maresia. É a zona do Porto. Beira do cais, onde tudo começa e termina. Rota de muitas vertentes. Entrada dos esperançosos. Saída dos descontentes.
Foi no meio de toda essa gente que eu vi uma moça na esquina. Cara de menina. Corpo de adolescente. O que fazia? O que tinha em mente? Queria dinheiro ou presente? Passei com meu saquinho de pipoca doce e quente que ela me pediu com o seu olhar. Queria provar. Como quem quisesse, talvez, fugir e brincar.
Estendi a mão e ofereci a pipoca. Ela pegou e sorriu. Guardei na lembrança. O bonde passou. Ela subiu. Segui com o meu saquinho de pipocas quase vazio. Mas no fundo, lá no fundo, achei um grãozinho ainda puro de esperança. Seu sorriso era de criança.
****************
VEM NOVIDADE POR ÁI...
O UNIVERSO INESPLICANDO VAI FICAR MAIOR!
AGUARDE!
Vinte de julho, bem no meu aniversário, um fulano americano fincou a
bandeira na lua como se fosse sua! A lua foi vista nua e crua. Pálida e empoeirada.
Sem ar na atmosfera. E com um tecido enrugado de crateras.
O astronauta impiedoso desalmou a lua dos nossos sonhos, Vimos na tevê o vazio abandono. Uma lua metade escura, sem sinal de água e de vida,
ainda que branca e linda, vista de longe no escuro do céu.
De criança, deitada num pedaço de chão, eu ia até a lua e voltava
num foguete imaginário. Pensamento aéreo, solitário. Gratuito. Expresso-rápido.
Desviando de asteroides, deuses e pássaros. Eu chegava perto da lua, sem nela
pisar. Bastava me aproximar. Sentir o brilho e a energia que encantavam as noites
de luar. Lua amiga e antiga. Dona de raios e feitiçarias.
Depois que o homem pisou na lua, algumas canções perderam a magia. São
Jorge e seu dragão partiram pra outro planeta. Não vemos mais a menina do anel
de lua-estrela. E a Lua da Luiza, que boiava na estrada nua, não mais flutua. O
homem do foguete, desencantou friamente a lua!
Não temos mais o que esperar. O homem faz
bate e volta de lá pra cá! Tem até uma estação pra estacionar com taxi-lunar! Esqueçam as
quimeras. Ir à lua, virou viagem de férias. Resort de ricos. Puro capricho.
Mas cuidado, astronautas, não sabem do feitiço e o altíssimo custo que terão de pagar.
“Quem na lua pisar, poderá dormir. Mas não mais sonhar”
* * *
ATENÇÃO LEITORES!
AGUARDEM... NOVIDADES INESPLICANDO
PARA A PRIMAVERA!
As aulas de exatas e ciências eram as mais fortes do colégio. Mas havia música e arte. E a peça teatral dos alunos no fim de ano, um capitulo à parte.
Eles mesmos criavam, produziam e ensaiavam. Geralmente escolhiam uma comédia cheia de graça ou uma sátira de terror. E rezavam para passar pela censura dos padres e do reitor.
No dia da apresentação, os mais velhos e de batina assistiam na primeira fila, com orgulho e atenção. Logo atrás, os amigos, as famílias e eu, que não entendia quase nada, mas me divertia com o riso e os aplausos dos adultos.
Quando eu cansava, o irmão Martinez percebia. Sentava do meu lado e tirava do bolso as balinhas verdinhas santificadas. Tudo ficava mais doce e o meu "medo de padre" passava mais longe.
Meu irmão confessou, certa vez, que sentiu muito medo ao falar com o temido e compenetrado Padre Pedro. Foi na primeira missa de sábado, dentro do confessionário. Não tinha feito nada errado, restou inventar um pecado. Pecadinho. Bem levinho. Só pra não ficar chato.
Depois, voltou com sua pena de sete Ave Marias e um pai nosso! Meu irmão garante que não pecou. Não sei se acredito. Ele voltou muito feliz com o pequeno castigo.
Pra mim, foi merecido!