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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

POEMA: ÚLTIMA CARTA DE AMOR

 
 
Para os leitores do blogue, que pediram... aqui está a minha participação na obra....
COLETÂNEA TRÊS QUARTOS DE AMOR DA CHIADO EDITORA
 
 
 
ÚLTIMA CARTA DE AMOR

Não plagiarei os grandes poetas.
Nem falarei que são ridículas todas as cartas de amor.
Não direi que as rosas não falam. E que simplesmente exalam,

o perfume que roubam de ti...
Também não farei um só verso. Nem poema. Nem canção.
Não rimarei dramas e camas. Paixão com solidão!
Miro a profundeza do coração.
Na minha última carta de amor, escrita com tremores às mãos,
apenas rabiscarei: Vem!
E olharei eternamente a lua.
E restarei sem vida.
Até que chegue uma resposta tua!

 


Inês Bari

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Coletânea " Três Quartos de um amor", lançamento da Chiado Editora.
Para adquirir a obra, acesse o site:







 

 
 
 

 
 

 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A VITROLA E O PALHAÇO TRISTE...


 

Cada móvel da casa da minha mãe escondia uma lembrança. E uma leve nuvem de poeira.

Nos últimos cinquenta anos, ela conservou os mesmos móveis. Fortes, clássico, escuros. Não por apego, mas porque cada um trazia uma história. Além da sensação de território seguro.

Na sala, havia uma rádio-vitrola. Móvel grande, em jacarandá. Valvulado! 

Ainda funciona e nos faz lembrar do primeiro compacto simples que ganhamos, com selo vermelho e a música Vênus.

Mais tarde, um compacto dos Beatles com a maçã cortada ao meio. Revolution. Ouvíamos bem alto, os quatro cabeludos que queriam mudar o mundo.

Depois, minha mãe ganhou o LP “Italianíssimo” que rodava dia e noite e reforçava nosso sotaque italiano, próprio de uma família que nasceu na Moóca e cresceu no Brás, há muito tempo atrás. 

Em cima da vitrola, uma linda estante com livros dos grandes filósofos, lembrava que depois de criar os filhos, Dona Olga criou asas e decidiu estudar. Entrou na Usp em “filosofia pura” em oitavo lugar.

Os livros continuam na estante, na casa do meu irmão. Agora, são azuis esbranquiçados. Todos gastos e com capa manuseada. Com anotações e sublinhados, marcas de quem leu e releu inúmeras vezes cada página. Embora, com o tempo, ela não tivesse mais noção de quem era Nietzche ou Platão.

Havia também duas mesinhas na sala de estar,  de pés fininhos e  delicados, retrato dos anos dourados. E uma poltrona berger com um corte discreto no tecido fino, escondido por uma almofada de veludo vinho.

Mas o que chamava mais minha atenção, era o quadro de um palhaço triste em cima do piano, no quarto da televisão. 

De olhar tristonho, o palhacinho pintado tinha gola larga. Um quase sorriso na boca e uma melancolia nos olhos emoldurados.

Lembrava, para mim, o doce-amargo da vida. Paralelo de minha mãe e seus noventa e um anos. Lado a lado com a amargura de não mais poder caminhar sozinha nas ruas. 

Mas que pintava o rosto todos os dias para nos dar alegria... 

e mostrar que seguir adiante, muitas vezes, é uma arte.

Dona Olga, sempre nos fará sorrir.

                                
                                           foto: arquivo pessoal


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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

ESTAÇÃO SOLIDÃO

 
Nada encerra mais a angústia e a tristeza humanas do que o rosto dos solitários no trem da estação. Eles carregam seus tristes semblantes aonde vão. Nos metrôs. Nos ônibus. Em cada vagão.
Sentadas nos cantos, mulheres carregam bolsas e mágoas. Dos filhos, dos genros, cunhadas. Em pé, um homem desempregado. São tantos. Angustiados. Arqueados, de mãos vazias. Ar de melancolia.
Cada tristonho no seu canto. Desiludidos, com o olhar distante. Muitos olham pro chão. Na estação solidão.
São tristes e ao mesmo tempo são belos, os rostos sofridos das pessoas no metrô. Retrato de suas vidas, aventuras e amarguras contadas em rugas.  
Quando entrei no vagão às seis da tarde, o velhinho curvado já estava sentado olhando fixamente para o nada. O que ele pensava? O que dizia? Ainda sonhava? Conversava consigo mesmo, tentando se convencer. Reclamava de quem?
Talvez faltasse um ouvido ao lado. Um amigo. Um abrigo. Um som. Ou uma boa dose de conhaque do bom. 
O trem partiu para a próxima estação. 
Um fingiu. Outro dormiu. A cabeça caiu. Entortou. E o velhinho prosseguiu resmungando sei lá de quê. 
Torci para que alguma criança entrasse gritando. Esperrneando. Ou cantando alguma coisa idiota qualquer. 
Não. O silêncio era o anfitrião. Cada um que entrava, se calava.
E o velhinho continuou sozinho no seu cantinho até a última estação. 
Depois, saiu carregando seu pacote pesado de dissabores, nas costas e no coração.
O espelho humano, no vagão!


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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

BOLINHOS COM CANELA


A felicidade chega, às vezes, numa tarde modorrenta. Sem muitos planos. Sem pretensões. 
Chega fugaz, em meio à fumaça de um café recém passado. Fresco e perfumado. No meio de uma conversa com alguém que nos faz bem. Ou nas frases soltas e perfeitas das letras das velhas canções.
Pronto. A felicidade, à nossa porta bate! Como um bálsamo, invade.
E é preciso habilidade para conservá-la por alguns minutos ou simples instantes, antes que inúmeros assuntos e pequenos tormentos tomem conta do nosso pensamento, distraindo nosso coração. 
Basta um segundo e saímos da vibração. Ligamos o rádio. O celular. A televisão. E largamos, sem muito pensar, em algum canto a nossa paz.
Síndrome dos dias atuais. Nada satisfaz. Estamos prontos e preparados a querer mais. Sempre mais. E quando não, ganhamos ansiedade, pânico, depressão.
Não basta ser rico. É preciso passar o reveillon em Noronha. All inclusive! Não basta ter o mar, de graça para revigorar. É preciso uma piscina olímpica no terraço. Com um trampolim para saltar. Se possível, do último andar. Não basta um copo de vinho e o peito de um companheiro fiel para descansar. É preciso que ele tenha sucesso e dinheiro. E sexo tântrico, sete dias por semana. O ano inteiro.  
O muito já não é o bastante. Queremos o mega. O top. O super-ultra deslumbrante. E a felicidade? De binóculos, distante...
Até que chega a Tia Lurdes no meio da tarde singela. Com bolinhos de chuva na tigela. Feitos por ela. Salteados de açúcar e canela!
E percebemos como é simples rimar. Felicidade, simplicidade!



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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MINHA CARA... GELADEIRA!

 

Ela é de meia idade. Cinquentona. E continua linda, mesmo com as marcas do tempo acentuadas no frágil retoque da pintura. É o xodó da casa. Mas ela dá um trabalho...

É daquelas que sobreviveram aos modismos. Também não é “retrô". É velha mesmo. Bacias de ágata. Porta não aproveitável. Pés de porcelana. E um "N" de National na porta que lembra National Kid, marca tão antiga quanto a histórica série. Mas ela dá um trabalho...

Já foi pintada. Repintada. Transportada. Mal transportada. Ficou dois anos num guarda móveis à espera da compra de uma nova casa. E basta uma simples conta para perceber que o dinheiro gasto com o aluguel daria pra comprar umas cinco geladeiras novinhas em folha. Mas soubemos resistir. 

Ficou linda naquele canto da nova casa. Objeto de arte! De respeito. Destaque “vintage” na cozinha moderna. E não há quem não se encante com o charme da sua singela simplicidade. Mas ela dá um trabalho... 

Neste ano, a borracha ressecou. E o gás que era pouco, se perdeu. Mas quem iria consertar uma National? O Sérgio veio lá em casa. Disse que o tubo era ainda de alumínio e não dava para soldar. Sugeriu o seu triste fim.

Pobre Sérgio, não sabia o que estava propondo. E diante do nosso olhar fulminante de censura, decidiu tentar um remendo à altura. Um stent, cateterismo, superbonder... Sabe se lá o quê, mas ele conseguiu! 

Agora faltava a borracha. Só em São Paulo. Partimos. 

No local do conserto, vimos geladeiras novinhas. Leves e com muitos compartimentos. Espaços luxuosos. De plástico, e sem coração. Não!

A nossa National tem alma! É membro vitalício da família. Guardou tantas cervejas para os amigos. Carnes para os churrascos alegres de verão. Vinhos e frutas para as noites de amor.

Só um coração de gelo para querer trocar. Ela vai continuar com a gente, sim senhor! 

Mas ela dá um trabalho...


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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

PREFIRO AS CURVAS...


As linhas retas são diretas. Sem vai e vem. Mas são as curvas que me encantam. As curvas me fazem bem.
As retas são objetivas. Chegam direto ao ponto. Mas as curvas trazem emoção em cada volteio. Leveza. Balé. Desenho!
É por isso que meus olhos preferem as curvas. As curvas dos edifícios antigos, por exemplo. Aqueles prédios arredondados. De rampas longas e azulejos vazados. Anos cinquenta. Sessenta, talvez. Meu olhar se curva, diante daquelas curvas. Maleável doçura. Romântica arquitetura!  
Mas tem outras curvas tão lindas e incertas por aí... A curva do rio, que nos tira a certeza de onde ir. Mistério da vida. O eterno fluir...
A curva da estrada que pode dar em glória. Ou cilada. Vem um precipício? Ou um ponto de chegada?  As curvas não definem nada. As curvas tentam. Desorientam. Atiçam. Mas fazem sorrir...
E as curvas dos corpos? Sensualmente belas. A silhueta roliça das pernas. Dos seios. Dos entre meios. Curvas de prazer e tentação. E a mais profunda delas, feita de paixão: a curva da aorta. Porta do coração!
São lindas as curvas das ruas. Das praças. Rotundas. Levaria horas descrevendo... Curvas por todos os lados. A curva do laranjinha e a do S de Interlagos. A curva da retina e da lente de contato. A curva do arco da Torre Eiffel. E das fases da lua no céu. A curva da banana. Da serpente caninana. Da montanha. E da Terra, repleta de contornos e encantos.
No entanto, me contento em descer a Serra... nas curvas da estrada de Santos...         

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Crônica presente no livro Inesplicando Vol.1  À venda na Livraria Cultura e Martins Fontes.

Obrigada a todos presentes na palestra!



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O ASSOVIO MORA AO LADO...


Um assovio alegre. Muito alegre. Repetido várias vezes. Por dias. Por meses.
Durante uma reforma infindável no meu apartamento, tive que morar por um tempo numa casa emprestada. E com um vizinho de muro colado. Jardim com jardim. Quintal com quintal. E a mesma caixa postal.
Tudo era aceitável naquele improviso temporário. Até que, no silêncio da manhã, uma alegre marchinha de exército americano alguém começou a assoviar... lála, lalalala lala, lála! Um rapaz? Um soldado? Um velho desocupado ensinando um papagaio? Dormi mais um pouco, embalada pelo assovio intermitente. 
Veio a noite. E o assovio novamente. Lála, lalalala lala, lála... E era irritantemente contente. A mesma alegre melodia. De manhã. De noite. De repente!
Fui perguntar aos vizinhos, na esperança de mais algum descontente. Ninguém ouvia. Todos indiferentes. Toquei várias vezes a campainha do vizinho feliz, mas nunca encontrei ninguém. Olhei pelo muro. Vigiei a porta e a janela para ele não fugir. Mas não via o vizinho chegar, nem partir.
E ficamos assim. Dias. Semanas. Um mês. Dois meses. O mesmo assovio, dia e noite, feito açoite! Até que no mês de dezembro, voltei pro meu apartamento. Novinho em folha. Tão belo. E tão... sem ninguém.
Estou lá há uns três meses e às vezes, bate aquela solidão. É aí que de manhãzinha, eu confesso que sinto falta. E apelo, assoviando descaradamente... lála, lalalala lala, lá la.                                             
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