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domingo, 1 de junho de 2025

OS CASACOS DO ARMÁRIO

Bastam os primeiros ventos gelados se esgueirando pelas esquinas, minha alma arrepia e eu corro para abrir a parte alta do armário. Um compartimento meio escondido onde moram os casacos antigos.
Reconheço alguns de invernos passados... A jaqueta rosa que nunca usei. Aperta um pouco. Mas é tão linda! O Blazer xadrez que ganhei da Tia Lucinda. Só uso em reuniões formais. É sério demais. E outro laranja, que custou caríssimo. Uso pouquíssimo. Nem sei se valeu.
São tantos os casacos. O preto não é tão bonito, mas vai bem com qualquer coisa. Uso, quase infinito. Está até puído. Moído. Talvez o coloque hoje. Está decidido! Tão bom não ter muito que pensar...
As malhas também estão guardadas no armário. Olho todo ano para elas. Quando irei usar a amarela?  E o cardigan que comprei há três anos atrás? Usei numa tarde cinzenta, repleta de problemas. Depois nunca mais. Lembrança triste ele me traz...  
Todo inverno os mesmos pensamentos sobre os mesmos casacos. Alguns, passo batido. Nem lembro quanto tempo tem. Alguns, nunca usarei. No final das contas, vou vestir dois ou três.
E assim, eles ficam lá. Os clássicos, os ultrapassados, os mais descolados... Mostrando o tanto que não reinventei. Tantas combinações possíveis e diferentes. Que não tentei. Estão lá os casacos, parados e abraçados. Esperando uma ocasião que não vem. O por quê, eu nem sei. Guardei. Deixei. E todo ano é igual. Tiro alguns deles no outono pra tomar um ar fresco no varal e depois volto tudo para o lugar.

Mas, este ano prometo mudar. Escancarar o armário. Jogar fora as traças. Doar pares incontáveis de sapatos. E deixar apenas o que for vestir.

Os casacos... e os sonhos. Que ainda couberem em mim.      
           
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    terça-feira, 20 de maio de 2025

    SOFIA... QUEM DIRIA!


    Os seios enormes balançavam e saltavam dentro do decote à medida que ela caminhava. Trôpega, saindo pelo portão de ferro em direção à rua. O salto quinze, de pelica, em uma das mãos. E um longo vestido que arrastava papeizinhos amassados, tampinhas e bitucas de cigarro. A barra dupla, já meio suja, rente ao chão...


    Partiu ziguezagueando pela calçada no meio da madrugada num bate papo interno e solitário. Alcoólico. Hiperbólico. Melancólico. Na boca, risos, lágrimas e borras de batom. 
    -É a Dona Sofia! Ela tem saído assim nas últimas semanas, depois da separação, completou o porteiro do clube noturno, com ar de compaixão. Fui acompanhando o seu trajeto mambembe pelas ruas desertas, imaginando os estragos do desamor. 

    Talvez, um casamento de indiferença. Conveniência. Ou uma relação de muitos anos, com apegos financeiros. Briga por dinheiro! Ou, a descoberta de uma amante mais jovem. Uma mulher. Quem sabe, um homem? Ou nada disso. Apenas um porre! 
    Para afastar a solidão de nunca ter encontrado um amor desses desenfreados. De tirar a roupa e os sapatos. Pode ter tido tentativas frustradas ou apostas em pessoas erradas.
     
    A mulher cambaleante seguiu até virar a esquina e sumir na trilha escura da rua, e  dos meus pensamentos. Coisa de momentos. Tão humanos certos tropeços...

    Na semana seguinte, saindo do médico, encontrei a Dona Sofia. 
    Andar reto. Terno tubinho, todo fechado. Scarpin baixo. Figurino fino. Cumprimentou brevemente a secretária, deixando o consultório olhando de resvalo, com seus óculos meio grau e um ar profissional.

    Perguntei quem era, só para me certificar... -Dona Sofia! Ela é terapeuta de casais! Conserta a vida amorosa de todo mundo. 

    Dona Sofia, balbuceiei baixinho... quem diria?



    *                                *                                  *                                      *

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    quarta-feira, 7 de maio de 2025

    TIRANDO AS RODINHAS...


    Ela andava mais de seis quarteirões. Sempre de tardezinha. Logo após lavar a louça, as roupas, ajeitar as coisinhas. E não era fácil a caminhada. Minha mãe na frente e eu do lado, na bicicleta com rodinhas de alumínio cromado. 

    Devia ter uns cinco ou seis anos. As pernas magrelas roçavam no cano da bicicleta e o pedal escapava, ás vezes batendo duramente na canela. Atravessávamos avenidas, ruas e praças cheias de gente pra chegar numa fábrica onde havia uma imensa plataforma. Pista grande, de cimento. Sem gente. Sem movimento. Devia estar desativada há um bom tempo. 

    Ideal para o primeiro teste de liberdade. Ali eu poderia tirar as rodinhas e, enfim, pedalar sozinha, feito gente grande de verdade. Eram três ou quatro tentativas em vão e alguns medos e frustração. Na semana seguinte, tudo se repetia... Que energia a minha mãe tinha. 

    Ela tirava as rodinhas e seguia sempre ao meu lado. Às vezes, um pouco atrás. Eu ia ziguezagueando e entortando. Pondo o pé e parando. Eu vacilava... e lá estava ela em um segundo. Pronta pra me segurar no mundo. Não tinha como cair. Não podia desistir. Ela sorria e me fazia recomeçar.

    Ah, mãe, que falta me faz. Nesses dias inseguros. É tanta gente cortando nossa frente, jogando nossa bicicleta contra os muros... Já tirei as rodinhas faz tempo. Ando sozinha,  todo o tempo. 

    Às vezes olho para trás... e vejo seu sorriso novamente. Meu porto seguro. Amor confiante. Sempre presente, me dizendo — suave, firme, eternamente:

    — Vai, filha. Valente. E sem rodinhas.
    Estou por perto. Segue em frente!




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    quinta-feira, 1 de maio de 2025

    AMOR COM FRITAS...


    - Minha mãe fez batata frita! 
    Desse jeito, cheio de alegria, o menino me informou o cardápio do dia. Agarrando fortemente minhas pernas e provocando risos nas pessoas que estavam na fila. Depois completou... ela me deu conchinhas também! Tirou umas duas ou três do bolso e me mostrou o seu novo tesouro.

    A mãe, desconcertada, veio rapidamente ao nosso encontro...  

    - Que menino tagarela. Gosta de uma plateia!

    As conchinhas pegamos ontem na praia. - Vamos Nicolas, larga da minha saia! E colocou o garoto no colo, ganhando um forte abraço no pescoço e um beijo estalado no rosto.

    Aquele gesto e os olhos brilhantes do menino aqueceram a tarde concreta e fria no meio da longa e demorada fila, a mistura de amor com batata frita. O prato bom do dia! 

    O banco era um alvoroço. Gente falando grosso. Idosos inconformados. Atendentes mal humorados. E as portas giratórias travando a fila numa coleta rotatória de chaves e celular. Tiravam também a paciência e os nervos do lugar.

    O Nícolas não estava nem aí. Ele queria era contar para todos ali, o sabor do amor que sentia. Que se misturava com arroz, feijão e batata frita. Prato feito. Perfeito. De mãe! Carinho expresso e explícito. De quem atendeu seu pedido. Como as conchinhas catadas uma a uma na praia. Que valiam bem mais que dinheiro, notebook ou celular. Sua mãe lhe deu seu tempo. Seu peito. E até as conchinhas do mar.

    Seus olhos vibravam acesos no sentimento imenso que ele tinha pra contar. 

    E quando eu já ia embora, ele saiu correndo me agarrando outra vez...

    - Eu me esqueci! Ela também fez um ovo! 

    E seus olhinhos alegres se estalaram... de novo!



                       *                              *                               

     

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    quinta-feira, 17 de abril de 2025

    ELA VENCEU!



    Tem um bonde que passa no Centro turístico da cidade. No último passeio pude ver, com tempo e detalhes, as velhas casas e armazéns do século passado. Paredes fortes e espessas. Algumas frontarias azulejadas. A maior parte desses imóveis, abandonada. Só vestígios do que já foram. Pedaços de antigas paredes e partes de telhados desabando. 

    No meio do desalento, mudas de plantas saltavam das paredes de concreto. Com seus caules verdes eretos. E no chão, uma flor amarela me olhava com alegria e espanto!

    A vida surgia das entranhas da rua. De cor viva e pura. Delicadeza que fura. Raízes fortes que romperam  estruturas e pelas frestas, espertas, chegaram à luz. Até nas ruas de trilhos, no vão dos velhos paralelepípedos, as flores heroicas saltavam do chão, feito primavera em explosão. 

    Lembrei da minha lágrima de cristo... Tentei por diversas vezes plantar trepadeiras no canteiro da casa onde morava. Nenhuma delas vingava. A tumbérgia não resistiu. Tão pouco, o sapatinho de judia. Até o maracujá foi se agarrando e cresceu, deu dois frutos e feito a camélia caída do vaso, morreu.

    Num dia inesperado, num pequeno buraquinho entre o cimento e a madeira da pilastra ela surgiu... Primeiro, um broto pontudo despontou. Depois uma folhinha. Mais outra. E outra mais vingou. Em poucos dias, alegres florinhas brancas de pistilo vermelho já se enroscavam no telhado cinzento e descorado. 

    De onde veio a lágrima, silenciosa e persistente? As plantas são mais fortes que a gente, de certo. Suas raízes rasteiam. Volteiam. Não desistem. E se embrenham furando o concreto. Rompendo o asfalto e o vazio como no velho centro, em seu quase mortal esquecimento. 

    Foi naquele buraquinho do meu canteiro, estreito e pequeno, que surgiu e cresceu exuberante a minha lágrima de Cristo. Bela. Singela! Regada e nutrida com tudo que precisa.
    Água. Luz. E o sal... da terra!






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    sexta-feira, 11 de abril de 2025

    A FEIRA, CONTINUA LIVRE

    Feira livre. Há um bom tempo eu não ia.

    Ela continua livre. Com suas cores e humores. Dos peixes às flores. 

    De cara, um sujeito tocava jazz no saxofone. Na placa não havia seu nome, mas a frase: “Vivo de arte!”.  Parei uns instantes, em solidariedade.

    Caminhar pela feira foi recordar a infância. Grudada na saia da mãe para não me perder. Lembrar onde estava o melhor preço, voltar no comecinho. Bater o calcanhar na roda do carrinho. E voltar carregada de frutas saltando da sacola.

    O cheiro doce da cana moída, do abacaxi e da laranja descascada pelo moço do facão permaneciam no ar. 

    As mãos de minha mãe escolhiam o abacate com um critério que só ela entendia. 

    O barulho dos pregões me assustava e encantava ao mesmo tempo. Cada banca parecia um palco, cada feirante, um personagem. Eu, na plateia,  com olhos atentos de criança.

    O moço que vendia queijos fazia piadas sem graça:  - moca bonita não paga. Mas tambem nao leva. 

    Eu parava numa banca de fitas de cabelo para olhar. Às vezes ganhava um mimo de criança. Noutras, voltava apenas com a lembrança.

    Essa magia a feira ainda tem. Tem mandioca cortadinha. Melancia em pedaços. Bananas em dúzia num cacho - e mais duas de presente! -  grita alto o feirante, alegremente. 

    Tem pano de prato de algodão, tampa de boca de fogão. Alho descascado. Raízes, condimentos e extratos.

    Muita coisa em saquinho. Verduras e legumes .cortadinhos. Três por dez reais! No final, leva um a mais. Dez é o pastel também. Parei para reabastecer.

    Um homem de pernas arqueadas sentou em dois banquinhos. E num espaço pequeno, dois namorados comeram juntinhos. Um de carne e um de queijo. Misturavam sabores. Davam beijinhos.

    No final da festa, um feirante com pinta de artista cantou alegre e bem alto uma versão do sucesso de Bruno Mars...


    - Alface lisa, alface crespa... couve flooooorrrr!


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    QUERIDA, ENCOLHI OS CHOCOLATES!


                                          

    Não é só uma impressão, amarga. Os chocolates diminuíram. Foram reduzidos e tornaram-se maldosamente pequenos. 
    Quem não lembra das barras antigas? Gordinhas, com vários gomos? O Lingote de chocolate vinha num papelzinho de seda dentro da embalagem amarela. Já era! Agora é uma barrinha magrela.  
    As moedinhas de chocolate? Eram da largura das patacas de cinquenta centavos.  Agora, não passam das de cinco! Coisa de sovina. Mesquinhez de Tio Patinhas.  
    Os bonbons também encolheram. O meu cerejão, virou cerejinha. E os chocolates de marcas famosas foram humilhados e cortados impiedosamente pela metade. Que maldade.
    Temos menos cacau e mais beleza. Ovos lindos, enormes e cheios de latex e leveza. A parede de chocolate cada vez mais fina lembra uma parafina. E tem sempre um brinquedinho lá dentro para dar mais peso. 
    Até os coelhos ameaçaram greve geral. Não são obrigados a transportar brinquedos. Isso é coisa pro Natal. 
    A culpa pode não ser dos chocolateiros, nem tão pouco dos cacaueiros. Talvez, a falta de dinheiro da população... 
    A indústria sacou e miniaturizou. A gente não percebe e paga ainda mais caro, levando a metade da tentação. Os ovos mais pesados com nozes e castanhas recheados? Só para filhos de abastados.
    Os chocolates diminuíram e ninguém bate panela. 
    Por isso, nesta Páscoa farei diferente. Comprei um panelão gigante. Vou derreter chocolate branco e preto, sem usar conservante. Farei um ovo caseiro gigante, de uns cinco ou seis quilos e meio. Vou me lambuzar por inteiro, sem gastar muito dinheiro.
    Vou avisando... é só um devaneio. 
    Tem gente já encomendando pelo whatsapp... o meu ovão de chocolate. 
    Novos tempos!
     
     
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