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AGRADECEMOS 350 K DE LEITURAS
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Branca e emplumada, ela caminhava sozinha na praia. Fitava o céu e o mar.
Deve ter escapado do bando do céu e veio dar umas bandas pelo chão. Pisava delicada nas areias fininhas e em algumas migalhas de conchinhas. Ia devagar, mansinha. Marchando em contemplação.
Eu era aquela ave solitária na praia. Sorvendo o silêncio e a beleza. Seguia com ela serena e sozinha. Retilínea. Pernas em marcha, esticadinhas. Água e sal entre os dedos, sentindo aquele prazer egoista em segredo.
Seria uma garça, gaivota,
albatroz ou pelicano? Às vezes me engano com as aves que voam sobre o
oceano. Era um ser alado somente,
na palidez da minha visão, sem maior classificação. Batizei-a Maria. A ave Maria. O divino ali cabia.
Naquele momento sem gente, o vento guiava minha mente por mares distantes e verdes. Eu velejava sem velas na suave atmosfera. Balanço manso da alma em terra.
A ave não me via. Eu me via nela.
O sol ardente de repente apareceu. A ave solitária abriu suas asas, agora aquecidas e mergulhou no mar. Depois, num ímpeto aéreo e belo emergiu.
O seu arrepio de penas me
sacudiu.
Cheguei mais perto sem ela perceber. Tinha ar de contente. Vi um bico sorridente.
O breve momento foi suficiente. Desmontou a cena. Voltamos a ver gente, gente e mais gente.
Ela voou. Eu voei também.
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OBRIGADA A TODOS!
Se pensar num presente para mim... me dê um
jardim.
Não hesite. Acredite. Um jardim seria o melhor
presente. Pode ser pequeno. Mas que tenha flores suficientes. Coloridas. Pode
ter orquídeas, sem vergonhas ou margaridas. Um ou dois arbustos, pedriscos e
musgos. Mas que venha com boa terra. Pode ter húmus. Adubo animal. Evite aqueles
pozinhos artificiais. Minhas flores costumam
usar coisas naturais.
A grama não tem muito que pensar, escolha a São
Carlos ou a esmeralda. Fácil de tratar. Basta sol e água. De vez em quando
tirar um bocadinho de praga.
Se for me presentear com um jardim... Não pense duas
vezes. Vai alegrar meu coração. Se for pequeno, levo na mão. Se for muito
grande, eu trato de arranjar um caminhão. Não rejeito jardins de modo algum.
Sempre sei onde colocar. E não precisa ter pomar. Bastam as flores e as abelhas
já virão. Junto com elas o beija flor, os grilos e muitos insetinhos escondidos
na grama pelo chão. Quero o combo completo com tudo que for e flor.
Quando for me dar um jardim. Fique à vontade. E muito
tranquilo. Sei da responsabilidade. Rega, poda, conversas ao pé do ouvido. As
plantas entendem o que exala, além da fala.
Se for me presentear com um jardim, não esqueça que meu aniversário é em julho. Inverno, de céu cinzento. Um frio intenso de trincar os dentes dos anões do jardim e colocar paletó nos gnomos e querubins. Então aproveita na hora da compra e traz um pouquinho de sol concentrado pra mim.
E um outro tanto, entre duas nuvens... pro meu jardim!
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Não vou estranhar o céu. Está ficando parecido com o meu paraíso. Tem chegado gente de prestígio. Pelo menos, pelo meu crivo, cultural, pessoal, esportivo.
Já tinha um bocado de gente fina. Em cada canto, alguém por quem eu derramei meu pranto, meu canto e teria tanto à agradecer. Alguém por quem rezei e chegou lá celebrando. Senna, com a bandeira na mão tremulando. Pavarotti, estremecendo as nuvens com seu canto. Elis Regina, Cazuza, Cauby, Elza, Ângela Maria e Aguinaldo.
Não vou estranhar o céu... imagina! Tem numa esquina Clarice, Drummond, Coralina, Suassuna. Coisa de Deus. Poesia pura. Tem Cecília,
Machado, Graciliano, Manoel de Barros. Veríssimo pai. Eu teria infinitos
dias para ouvir suas histórias, que agradam agora até Nossa Senhora.
Na praça de esportes celestial, Garrincha, Zito,
Carlos Alberto e Telê. Cruyff, Euzébio, Puskas e Pelé. Só olé. Nesse campo, a palavra não
enrola. Falam a língua dos deuses da bola. Chegou também Kobe Bryant,
veio com a filhota e ficam encestando nos arcos da glória.
Não vou estranhar o céu. Tem nuvem de samba com Carmem Miranda. Chegou a Nâna e foi recebida pela Clara, Beth Carvalho, Ataulfo e Noel. Chegou a Marília Mendonça, vinda direto do céu. Chegou de avião, antes da hora prevista. Foi muito bem acolhida.
E vem vindo gente todo dia. O último baiano que eu lembro foi Moraes Moreira. Depois chegou Gal, no mesmo dia que o Boldrin. Quantas noites eu ficaria sem dormir, ouvindo os dois cantando e proseando nos bancos celestes dos jardins.
Quincy Jones chegou faz um tempo e começou produzir o Michael, o Prince e alguns brasileiros... Erasmo e Rita Lee. No céu há músicos aqui e ali. E gente boa de texto e humor.
Ziraldo, o velho maluquinho também chegou. Boa praça. Já está caricaturando os amiguinhos. Ilustrando o céu com sua graça e pondo panelas na cabeça dos anjinhos.
Não vou estranhar o céu. Está ficando muito familiar.
Já tem meu pai, mãe, tios, prima, avó e irmão. Todos estão por lá! E aquele meu
receio de bater com as botas? Ir pro beleléu?
Isso já foi também. Não vou estranhar o céu. Aqui é que ando deslocada,
nesta cada dia mais desvairada — torre de babel!
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Noite de fogueira. Depois da
chuva forte da semana inteira. Sacamos do armário os velhos chapéus de palha e
roupas remendadas, aquecidos pelas lembranças das festas da infância. A nossa chama estava viva.
Os vizinhos da rua recolheram as toras de madeira nos terrenos vazios, deixando numa espécie de quintal de teto coberto. Três dias seriam um bom tempo para o secamento.
As bandeirinhas em papéis de seda lembravam Volpi nos postes, nas árvores, num alegre ziguezague. Rua fechada. Carro nenhum passava. Havia um clima de interior. Divisões de tarefas nos pratos da estação. Maria, caldo verde, Tereza, o milho, Tio João, o quentão.
Sábado veio e o céu anoiteceu. A noite caipira foi se enchendo de estrelas. São límpidas as noites frias de inverno. Brilhantes, como se Deus tivesse lavado as estrelas e pintado a lua de um branco fosforescente.
No meio da rua, a fogueira armada. De quatro em quatro, as toras empilhadas e ligeiramente úmidas davam certa apreensão. Só o fogo ardente daria vida à calorosa atração.
Começaram as tentativas. Um fogo pálido surgia e sucumbia. Álcool, abanos, gravetos fininhos. Nada adiantava. As crianças decepcionadas começaram a brincar de bola. Outros não ligaram, bebiam e conversavam. João pegou a viola.
Às duas da madrugada não havia mais nada. Nem gente ou comida. Nem fogueira e criançada. Sentamos resignados na frente das toras ainda inteiras e a viola tocou a última moda...
De repente um clarão de arrepiar. Estalos, crepitar. A chama forte começou levantar. A luz do fogo que hipnotiza. Ígnea viva que queima os afoitos. Acendeu os sonhos dos poetas e dos loucos.
Ficamos olhando a fogueira até o
dia clarear.
Mas muitos não viram. Dormiram.
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Seriam três de reticências?
Desviei o olhar
com medo de não ver a certeza.
Lá dentro, não me encontrar.
Olhei seus olhos. Vi pontinhos.
Seriam passarinhos?
Voando? Voltando pro ninho?
Debandariam assustados
num olhar arregalado.
Olhei seus olhos. Vi pontinhos.
Pretinhas jabuticabas? Sementes
de maracujá?
Lançadas na pupila côncava
que acolhia e semeava
em seu doce curvar.
Olhei seus olhos. Vi pontinhos.
Agora eram estrelas.
Planetas. Meteoritos.
Meus olhos se perderam
naquele vão infinito.
Moveram-se, enfim, os pontinhos.
Loucos elétrons girando
numa órbita de amor particular.
Vi dois seres aflitos
Prestes a colidir
e se reintegrar.
Iris e Osiris?
Eu e você?
Eram divinos.
Dançaram e se amaram
na beira do seu cristalino!
Inês Bari
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