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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

UM NATAL DIFERENTE?


Este ano... eu queria um Natal diferente. Com o jeito leve, de antigamente. Crianças barulhentas e amontoadas abrindo os presentes. A árvore de Natal caindo pelos cantos e o gatinho se esgueirando e sumindo, com cara lavada de quem nada teve a ver com isso. Traquinagem e malabarismo natalino dos felinos ...

Queria pratos fartos e gente roubando azeitonas com dedos lisos. Enfiando escondido, uvas ou cerejas na boca e sorrindo. Entornando um gole de cerveja do copo esquecido sobre a mesa, como fazia Tereza saindo depois à francesa...

Este ano eu queria um Natal diferente. Com as coisas tradicionais de sempre. Um Papai Noel de araque, amigo da família, de roupa alugada chegando à meia noite para alegrar a garotada. Identidade nada secreta. A melhor parte da festa. Momentos de magia. O perpetuar inocente, de geração em geração em geração, da lapônica fantasia...

Eu queria um Natal diferente. Com as músicas de sempre. Na tevê, no rádio ou qualquer mídia atual. Pois, mesmo que não pareça, chegou o Natal. Aceito ouvir harpa paraguaia, contanto que a gente não esmoreça. Que o silêncio e o temor dos novos tempos não prevaleçam!

Este ano eu queria um Natal diferente... Tudo muito simples, igual àqueles que um dia a gente fez. Não faço questão de presente! Este ano, eu só quero um Natal.... com abraços e gente!


Foto : Thinkstock

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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O ANDARILHO... ANDA!



O homem era magro e de semblante cansado. Com uma velha mochila nas costas e sotaque espanhol enrolado. Nos perguntou onde ficava Chapecó! Estávamos há pelo menos mil quilômetros de distância do lugar, sentados  tranquilos num restaurante em São Vicente, em frente ao mar. 

Enganou-se o andarilho? Era longe demais o seu destino. Devia haver algo errado. Chapecó é em outro Estado. Seguramos o riso nos lábios dizendo ao homem que ficava muito distante. Centenas de quilômetros adiante.

Sua expressão não se alterou. Qual o sentido? ele perguntou. Para o sul, respondemos dando conselhos para ele chegar até a pista e seguir andando sempre em frente, quase toda a vida...

O andarilho de olhar tímido e profundo pegou a mochila carcomida e foi sumindo pela rua do mundo. Só a lua que já aparecia, lhe fazia companhia. E ele há de ver muitas luas iluminando as noites escuras. Irá cruzar diferentes paisagens e gente. Colinas, montanhas. países. Quem sabe, continentes.

A caminhada poderá durar semanas ou meses. Ora desgastante, ora surpreendente. O andarilho sentirá na pele a chuva molhando e o sol ardente. Passará por ruas, becos, riachos, campos floridos. Verá mirantes lindos. Vai se achar e se perder.   

Depois de encontra o lugar, ele não vai sossegar. Porque o andarilho não para. O andarilho  anda. Sua vida é o caminhar. 

Nós, estáticos, continuamos só olhando... o andarilho ao longe se afastar...

 

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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Era um homem magro. Um metro e noventa. Olhos fundos. A pele enrugada e castigada de sol. Dizia poucas palavras.        - Sim, seora! Vou agora. 

Fumava e andava com um facão afiado na cintura. Cortando lenha, mato e tudo aparecesse de ruim pela frente. Dizem que assim, tinha dado fim a um traidor em Goiás, um tempo atrás. Eu tinha muito medo do seo Abel. 

De tarde era tranquilo passear. O sítio tinha três saídas. De um lado, o grotão, com um olho d’água e árvores grandes que fechavam a paisagem e davam ar de mata sombria. Havia uma ponte de eucalipto para atravessar. Mas eu não me atrevia. Eu tinha medo de encontrar o Seo Abel.

Do outro lado, um caminho suave que cruzava a horta e ia dar no lago. Lindo e raso. 

E, por fim, a saída principal passando pela casa do seo Abel, onde tinha um poste de madeira e uma fumaça que saía branca feito um fantasma da pequena chaminé.

Na noite fria de lua cheia eu quis ouvir o som do silêncio e me encher de brilho e poesia. Sai caminhando pela horta vazia, passando pelo milharal. Olhei para um lado. Para o outro. E dei dois passos para trás. Esbarrei num ser muito grande, com gravata, calça xadrez e mangas largas que parecia querer me abraçar. 

Tremendo de medo, saí correndo pegando o primeiro atalho. Sem perceber a cara mal feita de abóbora e os cabelos de milho debulhado, do qual era feito o pobre e velho espantalho!

Enchi o peito e sem qualquer preconceito gritei no meio da mata escura... - seo Abel, socorro! Seo Abel, me ajuda!  

E o rude caseiro de facão na cintura que me metia tanto medo surgiu feito um coiote ligeiro e se embrenhou na mata, me resgatando intacta com um sorriso sem graça. 

-Obrigada, seu Abel. 

As aparências e o medo, enganam.

 

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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

PÃO NOSSO...

Eram congelantes os invernos em Vila Real, terra natal de minha avó, em Portugal. 

Ela contava com olhos marejados que ajudava sua mãe fazendo pães durante o outono.

Depois de prontos, guardava os nacos dentro de um velho forno, embrulhados em um pano, para durarem todo o inverno. Tempos duros. Como os pães, que tinham de resistir, às vezes, três ou quatro meses.

Deviam ser cascudas as côdeas de pão, como ela chamava os pedaços que alimentavam homens e mulheres que trabalhavam no campo. Eram tempos distantes. Norte de Portugal, antiga província de Trás-os-Montes. Ela dizia: parece que foi ontem! 

Às vezes, nevava. As mulheres recolocavam o pão em torno do forno, perto das brasas que aqueciam a casa.

Fiquei com o pensamento em Portugal, naquele tempo frio perto do Natal e os pãezinhos quentes estalando em minha mente. Os nacos de trigo sem muito gosto e fermento, mas com um bom vinho tinto à mesa, servido em jarras de cerâmica portuguesa. Senti o sabor familiar das uvas, dos pães... da mãe da minha mãe.

Por isso, amo pão. Para mim, é sagrado. Bíblico. 

Gosto de tudo que é jeito... Pão de peito. Pão quentinho. Pão na chapa. Torradinho. Pão Italiano. Pão francês. Pão de leite. Pão de milho. Pão de cará. Pão branquinho. Escurinho. Pão-de-ló, marronzinho. Pão, pão, pão, pão! 

Feito em casa, então? Com suspense e emoção. Será que cresce ou não?

De criança, a grande aventura era entrar em casa, arrancar um pedaço de pão e voltar pra rua devorando o naco roubado. Era pão sozinho. Sem recheio no meinho. Eu beliscava a bisnaga inteirinha na volta da padaria.

Meu primo era mais apaixonado. 

Um dia, na volta do mercado, ele tinha um sanduíche engraçado: três fatias de pão com nada dentro. 

- Que sanduíche é esse, Reinaldo? 

Sanduiche de pão!

 - O que tem dentro? 

É de pão com pão, mesmo!     


  


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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

VISITA DOS ANJOS...


Eles começaram a entrar. Um atrás do outro. Dois pela janela. Outro pela varanda da sala. O último pela chaminé da lareira... Daniel, Gabriel, Samuel, Ezequiel! Os quatro aqui? E o mundo como fica? São milhões de pessoas, milhares de problemas... - Somos muitos, nada tema! Haverá sempre um de nós atento a qualquer problema...

A resposta me deu alívio e a certeza de que não estaria prejudicando ninguém. Aqueles com fome, as crianças nas ruas, os pedidos de ajuda... Não haveria de ser eu, o ser egoísta a postergar uma benção ou auxílio, segurando em casa e comigo, os quatro anjos amigos...

Logo vi que não. Eles estavam à vontade. De folga, talvez, naquela tarde. Olhavam minhas plantas, meus livros, meu jardim... Samuel se encantou com minha orquídea marrom da varanda com cheiro de chocolate. Daniel no quarto de ensaios, apreciava a guitarra folk, ameaçando um toque suave, parecido com Enya, ou Morricone. Mas era outra linguagem. Sons de querubins, com diferentes harmonias e timbragens. Ofereci uma palheta, ele não quis. Tocava sem usar as mãos... E se divertiu, quando tentei reger a canção...  

Ezequiel, no quarto ao lado, ajeitava os meus livros desorganizados na estante. Deu vergonha, por um instante... Mas não era repreensão. Apenas curiosidade. Viu a Bíblia, sorriu e colocou em cima da pilha. Foi quando Gabriel entrou na cozinha...

Entrei também, de fininho. Faço um café fresquinho? Ou, preferem chás, os anjinhos? Chá de hibisco, de maçã, ou de hortelã... Nenhum deles eu tenho. Vou fazer um chá comum, mesmo. Peço para sentar? Ofereço um jantar? Não é sempre que os anjos vêm nos visitar... 

Qual nada! Era visita rápida. Deixaram as flores balançando ao vento... A melodia suave durante horas no meu pensamento... E uma pluma da asa, perdida no meu travesseiro.

Acordei, sem vê-los. Não deu tempo...


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terça-feira, 20 de outubro de 2020

FRUTA NO PÉ!


Ela entrava correndo na pontinha dos pés para alcançar com sua mãozinha, a jaboticaba grudada no tronco da árvore do quintal da avó. Dudinha sabia a felicidade que é colher uma fruta no pé. A magia do alcançar. Tocar. Levar à boca e saborear. A natureza sem sofisticação. Fruta catada com a mão.

Na minha infância no bairro da Moóca, as árvores frutíferas enfeitavam as ruas e as praças. A casa de muro verde da esquina tinha uma caramboleira que se esparramava. Metade pra dentro e metade pra fora da casa. Ágil e esperta, eu era requisitada para subir nos ombros dos mais velhos e buscar as frutas mais amarelas. No chão, carambolas azedas e esmagadas. Ninguém ligava. Era cheiro de fruta amassada. 

Na praça central, um enorme abacateiro. Embaixo um banco de ferro desgastado. De vez em quando um abacate caía rápido feito um machado, assustando os descuidados. 
Minha colheita mais abundante foi no sul da Bahia. No estacionamento do hotel onde havia uma árvore de seriguela. Na ida e na volta da praia, eu enchia o chapéu de palha de frutas para ir devorando uma a uma. Eram doces e vermelhas. 

No dia de partir perguntei pra camareira nativa... Por quê ninguém daqui come as seriguelas? A moça pensou bem e respondeu com uma risada.           - Quem come essa fruta, não casa... 

Mostrei a minha aliança. Sorri e tasquei mais três seriguelas na boca. Fake news da roça, moça!   
                             
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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

DOIS "PASITOS" PRA LÁ...

Dois passos para cá era o Brasil. Com suas dores e dissabores. Derramando suas mágoas nas águas das cataratas. Dois “pasitos” para lá, a Argentina, com suas luzes, "hermanos" faladores, casas de churrascos e noites de amores. Os dois tão perto e por uma linha separados. A divisa dos países é feito a letra do tango "Por una cabeza!". 
O som pungente do milongueiro com todo seu drama se espalhava pela Quincha do Tio Querido, onde saboreamos um bife chorizo. Sabor diferente e caliente. O cardápio em espanhol e o Malbec até o final giravam nossas cabeças feito o casal no pequeno palco do restaurante. Por "una cabeza" não era o Brasil. Era a alma argentina rodando dentro da gente, inebriando o ambiente feito o leve vestido da dama em cetim.
Como bons brasileiros, pedimos cafezinho no final e pagamos em Real. Afinal, é na fronteira onde tudo se mistura. Como o Rio Iguassu que banha os dois países serenamente e por igual. Metade tango, metade carnaval!
Dois passos pra cá, o menino Xico jogava futebol entristecido pela derrota do Brasil. Do outro lado, não era o Xico, eram os chicos que riam da nossa derrota varonil. Contavam outras histórias e festejavam sua vitória. Carregavam pesos e também eram bons de bola. Mas não comparem Neymar com Messi. Nem Pelé com Maradona! Aí a garrafa entorna.
Deixamos de carro a fronteira cruzando a linha imaginária que nos distingue e nos separa. Enquanto as almas, livres, pouco se importam com países. Apenas dançam. Dois pra lá , dois pra cá... 
Com irmandade e beleza. Por una cabeza...


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Para ouvir o Tango de Gardel e do brasileiro Alfredo Le Pera no Youtube clique no link



https://www.youtube.com/watch?v=Gcxv7i02lXc


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