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segunda-feira, 20 de julho de 2020

O POETA CONGELADO


É incrível como, às vezes, o inverno bate gelado dentro da gente. 

Mais que no corpo, o inverno chega à alma. E é paralisante. 

O projeto que empaca. A compra da casa que não sai. A notícia que não chega. O dinheiro que não entra. O computador, sem conserto, que derradeiramente trava.

Parece que as coisas combinam. Uma espécie de complô. Como as lâmpadas da casa que queimam ao mesmo tempo. Quando é inverno na alma não há quebras, apenas o silêncio que congela. O poeta, assim, fica mudo.

E atire uma pedra nesse lago congelado quem já não teve o seu inverno na vida. Inverno de ideias. Inverno de amores. Inverno de grana e paixões. Tempos onde andar pra frente é o que nos resta. Os melhores planos simplesmente não acontecem. E a aposta da quina não chega nem perto de um dos números marcados. Zero!

Foi num desses invernos da alma que resolvi plantar uma árvore no jardim do meu quintal. Não iria gastar nada. Só água e tempo. 

Em poucas semanas teria flores para apreciar. Além de que seria muito bom ter o que fazer às manhãs até que o emprego chegasse, o amor batesse a porta ou um cachorro me fizesse correr mais rápido.
                    
Depois de várias semanas sem florescer, voltei ao jardineiro e perguntei o que acontecia.
 -Porque as flores não vêm?

 Pausadamente, ele respondeu: - você plantou uma quaresmeira! Ela ainda está se preparando. Tem tempo certo de florir.

Voltei para a casa, meu delicado casulo, recolhidamente esperando... 

até meu coração poeta descongelar.


                     
                     
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quarta-feira, 1 de julho de 2020

OS CINCO BOLOS DA ZEZÉ...



Zezé estava com nossa família há mais de quinze anos. Ajudou a cuidar dos meus sobrinhos. Depois, cuidou de mim, da minha desordem e da minha casa. Época em que eu mais precisava, trabalhando em três empregos. Rádio, dublagem, roteiros... Eu chegava em casa e Zezé surpreendia... Fiz um pudim de pera. Tá na geladeira! Zezé, tinha pera? Dei um pulinho na feira...

Zezé fazia ótimos pratos triviais e tortas salgadas. Aquelas que ficam grossas nas bordas e ligeiramente entortadas. Mas por dentro, o recheio enchia os olhos e nossa boca de água. Zezé era danada!

Uma coisa só destoou durante este tempo em que convivemos. Os bolos de cenoura! Eles nunca deram certo. Primeiro, ela tentou fazer surpresa. Deixou o bolo pronto sobre a mesa, com um bilhete ao lado... Ficou baixinho, mas deve estar gostoso. Que nada! Estava duro e solado. No dia seguinte, rimos e jogamos fora o bolo. Caso abafado.

Na semana seguinte ela tentou de novo, dizendo que foi culpa do ovo. Que estava muito gelado. Fez o segundo! Agora murcho e retraído. Como podia? Zezé acertava tudo em confeitaria? Já se sentia rebaixada na categoria. Mas que besteira, Zezé, você é ótima cozinheira. É só o bolo de cenoura, eu dizia...

E o bolo encasquetava sua cabeça. Bastavam sobrar duas cenouras e ela novamente se metia a besta. Cheguei a ver uns pedaços do bolo encruado jogados no lixinho ao lado. Ela não comentou o fato.

Na semana seguinte tentou de novo. Agora já eram quatro! Eu já evitava comprar cenoura, porque quando tinha, ela insistia. A culpa agora era do óleo. Vou por manteiga. Não, Zezé, deixa! E Zezé não parava... Até que mesmo com manteiga, leite morno, fermento novo e uma forte novena, ela estragou o quinto bolo. Então determinei... Chega, Zezé. Chega! Esse bolo não é pra você! 

Só mais um, por favor. Mais unzinho só, Dona Inês... Tá bom, Zezé, faz vai. E lá se foram, perdidos... seis!



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quarta-feira, 17 de junho de 2020

ESTRADA BONITA




A primeira vez na Estrada Bonita, foi como olhar um buquê de flores vivas. Lírios, sem-vergonhas, vincas, margaridas. 

Eu passeava os olhos pelas casinhas bem pintadas e floridas. Era ali a primavera toda espraiada e agradecida. Alguns ranchos de madeira com cerquinhas brancas, amarelas e azuladas. E em todos eles, uma horta e um jardim. 

Havia placas simpáticas, com palavras adoçadas. - Vendo bolos caseiros e mel! Uma rua dos sonhos, no céu?
Outras casas e convidativas placas. - Temos queijo branco e tranças de muçarela! Saí procurando Rapunzel na janela.

Mas era Helga, uma alemã bonita, de lenço branco e avental com cheiro de canela. Dos bolos, das cucas e pães de ló que vendia no vilarejo de uma rua só. Vilarejo do sul. De Joinville. Do Brasil. Gente germânica gentil que ali vivia e plantava. Produzia, vendia, trocava. 

A Estrada Bonita terminava de repente, numa pousada rústica e enigmática. Margeada por um rio salpicado de pedras redondas e amontoadas. Pequenas, médias e grandes. Parecia abrigar almas solitárias à noite. Mas de dia, a vista era revigorante. 
Pontes rústicas e portais. Rodas de água, bois e vaquinhas pastando na estrada. Grama verde e altos ciprestes que recolhiam a paz e devolviam em ar puro para os inebriados visitantes.

Voltamos pelo caminho florido à procura do restaurante antigo que ficava logo na entrada.

- Comida típica alemã! Eisbein, strudel, salsichão. Passava das três da tarde e as borboletas, famintas, voavam soltas em nossos estômagos vazios...

Subimos a escada e demos com a porta trancada! A placa principal do restaurante avisava: Fechado para almoço! 

Abri um sorriso.
Deve ser um hábito... aqui no paraíso! 


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terça-feira, 19 de maio de 2020

PODEMOS VOAR!


Ás vezes em silêncio, no meio de um falatório intenso, eu estava só em meu pensamento. Voava livre em ideias sem discernimento. A mente, sem manual, não distingue a ilusão do real. Está em nós a condução. Nos sentirmos sós ou não.

Quantas vezes num fim de semana, dentro do vestido mais lindo, eu tinha a alma inteira se despindo. O universo girando e eu mirando o chão, alheia à imensidão.

Pensamento é coisa sem certeza, sem tamanho. Atravessa cidades, oceanos. Feito um desejo imenso extravasando. Não se segura a revoada de pássaros no alto voando. 

Naquela rua solitária e fria, contraditória eu sorria. Lembrando de amores e fantasias. Eu cantava uma melodia, lembrava uma poesia. Não era fuga ou utopia. Eu pensava e minha alma sentia.

E no duro isolamento da pandemia, na cela pequena do meu aposento eu só tinha o meu pensamento. Avançava no futuro em saltos estelares. Mergulhava em redemoinho nos profundos mares. Voltava à casa da infância e dos lúdicos brinquedos. Ia até à lua e lhe dava um beijo.

No meu quarto fechado, meu pensamento é libertário. É leve. É livre. Ninguém detém. Ele vai aonde bem entender.
Continuo dentro de casa. E voando, fico bem!


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quarta-feira, 29 de abril de 2020

ABRIL QUE NÃO ABRIU (2020)



Março se foi... Abril não abriu. Se abriu, ninguém viu. As orquídeas abriram. As tartarugas saíram. Cruzaram a praia vazia e caminharam tranquilas para se salvar. As baleias e os golfinhos voltaram. Estão livres no mar.

Abril não abriu para os humanos e os nossos sorrisos se fecharam. Vidas se perderam. Nossos olhos se arregalaram. Abril não foi abril. Não vimos a folha lá fora que caiu. Caíram coisas maiores, no mundo e no Brasil. 

A lojinha não abriu. A fábrica não abriu. A festa não aconteceu. Mas o sol saiu.
Ninguém abriu a porta para ninguém. Não abrimos  champanhe, porque não convém. Abrimos a janela e vimos o mundo vazio. 
Vez ou outra um enfermeiro, um médico, um jornalista, uma atendente prestando um serviço urgente. Ou um louco desesperado e os tolos descrentes.

Muito pouco para abril. Um abril que abriu descontente. Com a atitude do vírus e, sobretudo, da gente.

Mas as flores não souberam da pandemia. Abriram na minha varanda, com incontáveis brotos, vivos e soltos, todos os dias. 

Elas não sabem do vírus que anda matando os humanos. Não sabem também os animais, nem o cais, nem o oceano. O ar agora está mais puro, enquanto estamos vivos e sãos, e respiramos.

Abril abriu, sim. Abriu de outra forma. Abriu mentes. As mais solidárias. Para um mundo menos indiferente. Que sente a dor e, sobretudo, o amor das diferentes gentes. 
Abril abriu para preparar um tempo mais resistente?

As orquídeas que não sabem da pandemia, abriram coloridas, nos convidando para uma nova ordem. Uma nova vida.
De braços dados com a esperança. 

Que venha maio, com seu vento de mudanças!    



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quinta-feira, 23 de abril de 2020

LEITE NA GARRAFA?


Era na garrafa. Com tampinha de alumínio. Prata ou cor de rosa. Eu lambia a nata que grudava. A seguir, vinha a bronca: - Não põe a boca! Eu saía sem graça, feito gato que sai de fininho, com leite no bigodinho...

O leite na garrafa era comum nos supermercados. Mais uma das embalagens românticas e artesanais do passado. Depois, o leite já vinha em saquinho plástico. Mole e desajeitado. Com a faca, eu fazia o corte. Arranjava uma jarra de suporte. E dito e feito! Deixava o leite cair lá dentro: - Tira logo. Senão fica azedo...

Os pacotes tinham rótulos em vermelho, verde ou azul violeta. Tipo A, B ou C. A embalagem era a mesma. Na gordura e no preço, a diferença! O vermelho era caro demais. – Se tiver só ele, não traz! A caixinha de fósforos também tinha seu charmezinho. Vinha com um selinho para a caixinha não abrir. Eu tirava com cuidado. Pra não sair rasgado. Besteira. Ia pra lixeira...

Os chocolates também tinham românticas embalagens, com um papel de seda ou manteiga cobrindo a barra delicadamente. E nos bombons, um papel laminado por dentro que as meninas alisavam e colocavam dentro do diário, com o nome de algum pretendente. A lembrança durava uma ou duas páginas, somente. Eram volúveis os corações adolescentes . 

Minha mãe dizia que o homem do leite batia à porta da freguesia. Trazia  as garrafas em engradados dentro de um carrinho de metal. Assim era com o vendedor de ovos, de carne e o senhor da padaria...

Quem diria, a quarentena nos levou uns cinquenta anos pra trás. Estão entregando tudo em casa, novamente... Ovos, leite, pãezinhos quentes. E o uso abusivo do plástico e das caixinhas anda matando os animais...  

Quem sabe, depois da pandemia, não bate na minha porta, um velho senhorzinho, com duas garrafas de leite fresquinho! 
Ah, eu ia dar um abraço... que abraço! 


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quarta-feira, 15 de abril de 2020

CONVERSA AO VENTO...


Está ventando forte. Muito, respondi ao rapaz que caminhava ao meu lado na avenida larga sem qualquer abrigo. 

Na frente, o mar agitado e coqueiros retorcidos. O vento faz mal? Às vezes, respondi amigavelmente enquanto seguíamos a passos rápidos para ganhar calor nas pernas e nos braços.

Ainda bem que não está chovendo. Seria pior. Mas eu gosto da chuva! Eu também, mas não quando estou na rua. Sabia que fez dez meses de calor este ano? Não sabia. Eu gosto do calor. Eu também. Mas aumenta minha pressão... o olhar do rapaz entristeceu e a conversa prosseguiu ao vento.

Prefere o frio, então? Gosto do frio e do calor. Gosto dos dois, o rapaz  de alma ingênua explicou. Mas sem esse vento forte, não é mesmo? O vento faz mal, ele insistiu? Se for gelado como o deste dia, pode dar pneumonia. Eu nunca tive pneumonia... Que sorte a sua.  Pneumonia cura? Cura! Mas é difícil de sarar. Pode matar? Creio que sim.

E foi indo assim, ao sabor do vento, a nossa breve e leve caminhada, recheada de perguntas e respostas repetidas, sem muito conhecimento. 
Conversa climática. Às vezes, lunática. Que surgiu do nada, na rua da ventania gelada. 

Chegamos próximos ao banco. Parei na porta. O rapaz parou em frente. E disse com a singeleza de menino puro e crente... Não adianta nada a gente gostar ou não gostar. Nessas coisas de tempo, calor, frio, chuva, vento de congelar... 
Quem manda é Deus. A gente tem que aceitar. 

Sorri, beijando seu rosto com o olhar. 

E o vento, agora amigo, levou num sopro o rapaz...


*                             *                         


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