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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O ASSOVIO MORA AO LADO...


Um assovio alegre. Muito alegre. Repetido várias vezes. Por dias. Por meses.
Durante uma reforma infindável no meu apartamento, tive que morar por um tempo numa casa emprestada. E com um vizinho de muro colado. Jardim com jardim. Quintal com quintal. E a mesma caixa postal.
Tudo era aceitável naquele improviso temporário. Até que, no silêncio da manhã, uma alegre marchinha de exército americano alguém começou a assoviar... lála, lalalala lala, lála! Um rapaz? Um soldado? Um velho desocupado ensinando um papagaio? Dormi mais um pouco, embalada pelo assovio intermitente. 
Veio a noite. E o assovio novamente. Lála, lalalala lala, lála... E era irritantemente contente. A mesma alegre melodia. De manhã. De noite. De repente!
Fui perguntar aos vizinhos, na esperança de mais algum descontente. Ninguém ouvia. Todos indiferentes. Toquei várias vezes a campainha do vizinho feliz, mas nunca encontrei ninguém. Olhei pelo muro. Vigiei a porta e a janela para ele não fugir. Mas não via o vizinho chegar, nem partir.
E ficamos assim. Dias. Semanas. Um mês. Dois meses. O mesmo assovio, dia e noite, feito açoite! Até que no mês de dezembro, voltei pro meu apartamento. Novinho em folha. Tão belo. E tão... sem ninguém.
Estou lá há uns três meses e às vezes, bate aquela solidão. É aí que de manhãzinha, eu confesso que sinto falta. E apelo, assoviando descaradamente... lála, lalalala lala, lá la.                                             
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

MENINOS DO SINAL




Sinal fechado. Carros parados. O menino se aproxima...

São dois olhos negros e sérios. As bolinhas em suas mãos pequenas, sobem, descem e triangulam num desenho lúdico e veloz. O menino de olhar atento, mostra sem riso o seu talento, na avenida cheia de carros à espera do sinal.

Eles vêm em dois ou três e começam o show. Jogam limões para o alto. Três, quatro limões, às vezes, cinco! Fazem malabarismos para a plateia que nem sempre quer ver. Circo sem bilheteria. Sem graça. Sem pipoca. Sem alegria. Crianças no picadeiro. Meninos semi despidos com suas habilidades nuas. Fazem circo. Pedem pão.
Por vezes erram e cessam por um instante a apresentação. Não sorriem. Nem contam com a ajuda de um bom palhaço. Seguem firmes adiante, até o amarelo aparecer e dar o sinal...
É o amarelo da gorjeta. O amarelo do sorriso amarelo do motorista sem trocados. O amarelo do sol no rosto das suas faces infantis já curtidas. O amarelo da raiva do apressado que nunca, nada consegue ver.
Olho por detrás do vidro. O menino se aproxima... O tempo é curto. Conto as minhas moedas rapidamente. São poucas, não dá um real. Amarelo de vergonha por dar sempre tão pouco. Abro a janelinha e me justifico, mas o menino não parece se importar. Não se importa com muita coisa. Não se importa com quase nada...
Na boca, o gosto azedo do limão.

Os olhos negros e sérios preparam o próximo show no sinal. Verde novamente. Sigo em frente até a próximo esquina. Mais um sinal vermelho. Mais meninos e malabares. Mais circo e picadeiro. Eles pedem atenção! 
E o sinal não para...verde, amarelo, vermelho...
Em cada esquina do meu atropelado coração.

 


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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

QUAL A CAPITAL DO UZBEQUISTÃO?




Alguns chamam de loucos. Prefiro chamá-los marqueteiros! Natos. Originais. Alguns, geniais. 
Os ambulantes criativos e exóticos se espalham pelas ruas e avenidas vendendo seus produtos com arte e alguns enfeites. Aqui nas praias do litoral paulista, esbarramos em alguns interessantes.
Um deles traz o produto na cabeça. Cabelos com cachos bizarros emaranhados que servem de encaixe perfeito para as cascas vazias de amendoim. É visto à distância com os enfeites na cabeça. Estranhas madeixas. É o vendedor de amendoim mais conhecido no pedaço. Sujeito encasquetado. Usa a camiseta da Jamaica com o rosto do Bob Marley estampado.
Outro famoso é um sujeito gordinho. De sotaque baiano, roupa rodada de renda e voz estridente. Bate martelo num bumbo, gritando: - Cocada light, cocada diet... cocada engordiet! Os gritos assustam os quem ainda não o conhecem. Ele garante que sua cocada, além de boa, emagrece! Ele vende junto uma fitinha do Bonfim e ensina a prece.
O mais criativo pra mim era o vendedor de sanduíche natural, famoso no sul do litoral: o Rambo. Faz tempo que não o vejo. Usava bermuda de exército e uma bandana na testa. Uma espécie de Stallone tropical! Caminhava quilômetros na areia quente da praia, lançando no ar, perguntas de conhecimentos gerais. Naquele tempo não tinha celular. Nem Google pra consultar.
O Rambo desfilava seus músculos e perguntava, valendo um sanduiche natural: - Quem sabe a capital? Cada vez, era um pais diferente. Vez ou outra, um professor acabava acertando. Mas, era muito difícil. E o Rambo se divertia. "Vamo estudá pessoal...Tem que estudá". 
Foi por causa do Rambo que eu jamais esqueci o nome da capital do Uzbequistão, que é a cidade de... 
Melhor não contar. Vou fazer como o Rambo. Vamos pesquisar pessoal! Tem que estudar!



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terça-feira, 28 de novembro de 2017

RESENHA DO MÊS: "CARNET DE VOYAGE" - EDGAR DUVIVIER

                                       “... o mar é um ótimo papo, sabe escutar e
                                                                guardar segredos pra sempre...”     
    Lindo de ler! Lindo de ver...  
Tem horas que a gente não está pra coisas muito densas e profundas. A vida anda tão carrancuda... O mundo, conturbado. Pra esses momentos que buscamos um pouco de leveza e um toque de beleza, nada melhor do que viajar nas páginas do livro “ Carnet de Voyage”. São 24 mini crônicas, acompanhados de belíssimos desenhos, que colorem cada cenário visitado pelo autor. Textos pequenos e deliciosos. Uma mistura perfeita! Afinal, à espera da terceira idade, como o próprio autor se declara, o escritor, músico e artista carioca Edgar Duvivier mostra sinais maduros de quem aprendeu saborosamente com a vida, o que é um bom cardápio... " escolher uma viagem é, as vezes, como escolher um prato de um restaurante que você já conhece. O apelo de repetir o que a gente gosta é grande, e acaba que muitas vezes, repetimos o prato.”
E ele repete mesmo. Sem pudor... “ sempre que posso volto a França...  como um pombo volta pra casa.” 
Comparando a vida, com grata simplicidade “... uma espécie de Carnet de Voyage. Um livro em branco onde vão se escrevendo histórias, se pintando quadros e guardando retratos.”
Longe de ser um guia turístico dos locais por onde passou, o livro de Duvivier é o registro de alguns lugares que ficaram na sua memória, nem sempre por serem os melhores, ou mais bonitos, mas por terem, de alguma forma, deixado uma marca... Assim foram, Roma “ onde você vê mais esculturas que gente...”, Lisboa “ é como visitar a casa da nossa avó”, New York “A menos americana” e “a mais americana do mundo”, Patagônia  whisky on the rocks com pedras de gelo milenares”, Cuzco  "No trem, entre porcos, galinhas, índios e turistas..” ,
Parada Filgueiras.,. “ Quando algum dia eu não vir mais nada, acho que estarei ainda vendo o sol nascer em Parada Filgueiras...”
E, vários outros locais exóticos, como Canal de St Martin, Boulder, Ilha da Madeira, São Domingos... Sem faltar, é claro, o seu Rio de Janeiro, por quem o autor se confessa apaixonado, “apesar de tudo”. Daí, talvez, o olhar poético sobre as favelas...  Quando escurece e as luzes se acendem no morro, as favelas dão de presente pra cidade um tesouro de jóias que brilham sob as curvas escuras das montanhas adormecidas”. Ou ainda, derramado sobre as praias cariocas...“ a praia do Arpoador é a praia em si!
É deste jeito que  “Carnet de Voyage” nos encanta e delicia. Como um leve e breve passeio olhando belas paisagens. Obra de um autor maduro, que divide com o leitor, seus desenhos, memórias e seu olhar poético. Sensibilidade que alcança além das emoções e experiências individuais, provocando ternura naquele que lê!  Como em seu último conto, o retrato delicado da mãe aos noventa anos, caminhando na praia rumo ao futuro, incerto...“ o medo da morte está na razão, o instinto sabe que tudo é um fluir!”
Carnet de Voyage flui deliciosamente bem. Um livro lindo de ler! Lindo de ver!
  
Livro: Carnet de Voyage
Autor:  Edgard Duvivier
Publicação: Julho de 2015
Número de Páginas: 60
Coleção: Passos Perdidos
Gênero: Crônicas
 
 
 
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sábado, 18 de novembro de 2017

QUANDO EU PAGAVA MEIA...


O nome era cine Universo. Tinha o teto retrátil. O que era mais interessante do que a maioria dos filmes que passavam.
Era excitante ver aquele portal gigante abrindo lentamente no final de cada sessão. 
Tinha sempre um noticiário em branco e preto antes dos filmes: o Primo Carbonari, com trilha orquestrada e notícias em voz padrão. 
E o Canal 100, mostrando cinematograficamente um clássico no Maracanã apinhado de gente. Eu gostava daquele clima e do balé de pernas, filmadas de baixo pra cima, driblando e passando a bola em “slow motion”.
A maioria dos cinemas da época apresentava sessões duplas. “Dio Come te amo” era batata, antes da estreia de um novo filme, deixando ainda mais romântica a adolescência paulistana.
Ninguém reclamava. Tudo era cinema. Cada qual com sua magia. Chatos, só os lanterninhas.
Gazetão, Gazeta e Gazetinha eram vizinhos dos famosos cursinhos. 
Fontana e sua sessão tripla no Brás. Copan e Belas Artes, o cinema dos artistas. Bijou, Olido, Marabá. Cada um com o seu charme e beleza.
E todos com o mesmo cheiro de aromatizante, pipoca amanteigada e refrigerante. 
Cines de som horroroso. Cadeiras de madeira e duro encosto, por onde deslizavam chaves e carteiras. 
E depois de sentar, a estranha mania de observar: a mulher mais nova e o senhor sem cabelo. O homem magro, de rosto vermelho. A senhora que saiu do cabeleireiro. 
Tudo naquele cenário antigo. 
Na sessão, com vários amigos. 
E um cara gigante que sentava na nossa frente roubando parte da legenda e a nossa paciência.
Coisa de cinema. Tudo encantava. 
Mas o cine Universo superava. 
Quando não chovia, o enorme teto se abria. Para que até os anjinhos, lá de cima, dessem uma entradinha. 
Pura cortesia!

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Para os que conheceram o Cine Universo e (ou) para os 
curiosos e interessados... 
segue abaixo o link para a visita virtual ao antigo Cinema!
Vale a pena...
http//:www.itaucultural.org.br/faca-um-passeio-pelo-cine-universo-projetado-por-rino-levi

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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PENDURANDO ORQUÍDEAS


Parece que combinaram. Todos os meus vizinhos da rua. Os da direita, os da esquerda e os de frente. Resolveram pendurar orquídeas em suas árvores defronte aos prédios onde moram, no finalzinho do mês de setembro. E parece que as plantas acolheram docemente o local da exposição. Florindo todas ao mesmo tempo, numa explosão de cores em meio ao concreto e o cinzento das ruas.
Tem as amarelas. As brancas e lilases. As roxas. As azuis. E até as múltiplas róseas! Desde então, minha caminhada não tem sido a mesma. Agora, a pé pela calçada, não penso nas tarefinhas ordinárias, nas compras do mercado, no político safado, na conta que não fecha. Agora vejo árvores! Suas cores. Seus tamanhos. Seus troncos enfeitados.
Percebi duas quaresmeiras entre os enormes chapéus de sol. Uma pitangueira. Dois Ficus. E uma pequena e florida, que ninguém sabe o nome. Nem o porteiro do prédio. Linda. E com orquídeas penduradas, mais ainda!
Essa delicadeza despertou o meu novo olhar. E me atrevo a imaginar que, talvez, um dia, a gente pudesse pendurar orquídeas em todo lugar.
Naquele quartinho de casa, cheio de quinquilharias, roupas e sonhos amarrotados... Uma orquídea por lá, não iria nos provocar?  
E uma orquídea no porão ? Uma no estacionamento? Outra, no viaduto de cimento. Ah... e uma enorme, bem no pescoço do chefe rabujento. Não custa tentar... 
Pendurar orquídeas é bom demais. Elas mudam nosso olhar! Na minha rua já temos nas árvores, nas praças, nos jardins e quintais. 
Pensamos, agora, em orquídeas nas rampas de Brasília... 
Mas seria contraste demais.  

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ERA UMA QUADRA MUITO ENGRAÇADA...


Não era uma pedra no meio do caminho. Era um ralo. Um grande ralo! 
Também não era um caminho. Era a quadra do colégio. Quadra engraçada. Improvisada, onde os alunos, alegres e indiferentes ao fato, jogavam volei, basquete e futebol.

As aulas de educação física do Colégio Padre Anchieta, no antigo bairro do Brás eram rústicas. As duas tabelas de basquete, presas na parede, eram de tamanho oficial. Mas as dimensões da quadra, não! 
Pequena e espremida no vão do pátio, o chão era o que mais complicava. De bloquetes sextavados e ásperos. Sem área de escape. E com aquele incrível ralo no meio ralando nossos joelhos.
Pra não perder o controle da bola, o melhor era driblar o bendito ralo, ou bater no “meinho”. Coisa de craque! Modéstia a parte, técnica que eu dominava. E como eu driblava...
Nos jogos de volei, os levantadores, fixos na época, é que sofriam mais. Vez ou outra alguém torcia o pé. E a gente se perguntava, como podia um colégio ganhar tantos jogos e torneios, treinando numa quadra com um ralo no meio? Os professores compensavam com amor e empenho.
Eu vinha de um colégio modernizado, com uma quadra oficial, onde a turma do esporte treinava e nunca ganhava nada. E me pegava embasbacada.
O Padre Anchieta tinha algo mais. Alma! E com certeza, alguns fantasmas atletas infiltrados. Principalmente no final dos corredores do velho prédio. De azulejos portugueses, banheiros amplos e assustadoramente vazios. Tinha abrigado, anteriormente a Escola Normal do Brás, onde mulheres de personalidade marcante estudaram, como Pagu e Hebe Camargo. Havia história e escolares segredos mantidos no prédio.
Voltei lá, há uns dez anos atrás, para visitar o colégio, junto com outros ex-alunos. O edifício agora abriga a Oficina Cultural Amácio Mazzaroppi. Ficou linda a restauração. Continuam belas as antigas janelas de vitrais coloridos e as escadas em caracol. 
A quadra ainda está lá. Agora, um pátio de apresentações. Com seu ralo de ferro. Quadrado. Bem no meio.
Olhei de pertinho. Os olhos encheram de água e percebi o quanto era mágico aquilo tudo. Eu adorava aquele ralo. Que se chamava... superação!

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Entre os alunos famosos, estão Pagu e Hebe Camargo. Ambas estudaram na "Escola Normal do Brás"
 
Saiba mais sobre a Escola de Teatro Amácio Mazzaroppi e o lindo prédio do colégio Padre Anchieta restaurado, neste link
https://www.faccioarquitetura.com.br/oficina-cultural-amacio-mazzaropi/#:~:text=A%20Oficina%20Cultural%20Am%C3%A1cio%20Mazzaropi,suas%20principais%20caracter%C3%ADsticas%20arquitet%C3%B4nicas%20intactas.