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quarta-feira, 5 de abril de 2017

CHORANDO NO PIANO...

 
Minha mãe já sabia. Era batata! Bastava um falar mais alto. Ou um olhar daqueles que suspendem uma só sobrancelha e pronto. Lá ia eu com meus cinco ou seis aninhos, de bico e emburrada, chorar ao lado do piano.
Era o meu refúgio aquele piano amigo e antigo que ficava no final da sala e que me abrigava de um jeito acolhedor, do lado da parede onde ninguém podia me ver. E era sempre a mesma cena. Ia chorar? Corria atrás do piano! 
Os motivos eram tantos... Dos mais sérios aos mais amenos. Uma repreensão boba qualquer. Uma nota baixa na escola. Algo que saiu errado. Ou muitas vezes, uma injustiça!  E toda vez que um bicho morria e eu não podia fazer nada para impedir.
O piano era a rota final e a nota triste do dia. Foram muitas, inúmeras as vezes que escondi minhas lágrimas naquele cantinho e devo confessar que ainda hoje, muitas vezes, sinto vontade de correr e chorar atrás do piano.
A gente cresce. Amadurece. Endurece. E os motivos parecem os mesmos. Numa escala de menor pureza, talvez. A palavra que agora fere mais fundo. A injustiça no trabalho. A decepção de um velho amigo. E a perda... Ah,  as perdas da vida madura. Vão se todos! Os bichos, os melhores amigos, os parentes chegados, os pais...  
A gente envelhece e não tem mais o velho piano, Nem para acolher. Nem pra confortar. Esconder não precisamos mais. O piano agora é só uma memória de criança de uma música triste que tocou lá atrás. A gente agora, segue de dor em dor, correndo ligeiro.            
E não temos mais tempo... e nem piano por perto, pra chorar!

*                        *            *                                                                                                               


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quarta-feira, 29 de março de 2017

PÉ NO PRETO... PÉ NO BRANCO...


Pé direito no preto. Pé esquerdo no branco. Direito no preto. Esquerdo no branco. Atenção pra não errar.
Na minha infância de rua, o desenho das calçadas Copacabana se transformava num grande tabuleiro. Nele a garotada pulava sete casas até o céu. Pisava até dez, numa só cor. E seguia rente as curvas do mosaico feito carro a cem por hora! Cento e cinquenta, duzentos, mil...       
Os números enfeitavam a nossa infância e criavam proporções mágicas. 
Era um só lobo mau e três porquinhos. Sete, os anõezinhos. E cem dálmatas para latir e brincar! Dez mandamentos para ler. E quanto doze pra decorar... Doze apóstolos. Doze meses e doze signos. Doze horas para a metade do dia acabar.   
Sorte mesmo, era os treze números acertar! Azar do Ali Babá, que tinha ao lado, quarenta ladrões. 
Os números iam ganhando vida, ainda sem muita importância ou ambição. Quem nunca contou carros brancos na rua? E os Fuscas? Os pneus abandonados na via? Quem nunca contou estrelas no céu? E as centenas de carneirinhos na cama, sem pregar um olho a noite toda?                             
Os números estavam por todos os cantos. Mas não era má, a matemática. Era só número bom. Número de brinquedo. Número de magia. Números que só faziam sentido em cada jogo. Em cada história.                                                                  
Hoje, números chatos insistem em nos rodear. E eles não brincam mais. Toda hora, nas tevês e nos jornais, os números assustam cada vez mais. Número do desemprego. Número da Taxa de juros. Números da Selic. Tem ainda o RG, o CPF, número do PIS...
Número de anos pra se viver. Número de anos pra se aposentar.
Melhor é voltar pra calçada. Pé no preto, pé no branco. Um dois, feijão com arroz. Porque lá, os números são amigos. 
E a qualquer momento, a gente pode parar de brincar!

 *                    *                     *                                                

 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

NA PASSARELA... DO HOSPITAL

 
Sábado de carnaval. Não me levem a mal, mas não era ali que eu queria de estar. Ala dos enfermos e cardiopatas. No meio de anginas, taquicardias e infartos do miocárdio. Pressão muito alta!  
Na entrada, o bloco do avental azul, cada um com seu paciente na maca. Abriam alas e salas, desfilando na passarela do velho hospital. Meu coração batia feito tambor. Ansiedade pedindo passagem...Veio a ala dos doutores. De branco, com seus adereços de mão. Estetos, medidores de pressão, pranchetas e papéis de exames. Era uma ala de respeito. Mestres da velha guarda com seus cabelos grisalhos. Deu um certo sossego.
A ala mais simpática era a das enfermeiras. Algumas delas, cheinhas, com seus jalecos brancos, cruzavam de lá para cá com leveza e boa evolução. Tudo dentro da marcação dos eletros. Compassos monitorados. Tum-taques perfeitos e desejados. Pra ninguém entregar os pontos na avenida!
Do lado de fora e com o coração na mão, eu acompanhava o senhor Antonio tentando manter a pressão, focando no piso da passarela. Eu passeava de lá pra cá, decorando a sequência dos velhos azulejos portugueses que iam dar na ala da nova guarda do hospital, em piso xadrez azul e branco bem atual.
No final da bateria, a arritmia não passou de um susto. Estresse desta vida insana e da competição desmedida. Soma fatal de metas, rapidez e perfeição. Pobre coração. Agora um rivotril, aspirina e tudo fica bem. A partir de agora, vida Zen!
A carnafolia no hospital terminou no batuque frenético do plantão central. Sem plumas. Nem confetes. Só tubos e catéteres. No final, alegria geral. Evolução nota dez! 
Estamos de alta, comentei com o Senhor Antonio, ainda na maca... Eu vou lembrar do chão desta passarela. Seo Antonio olhou para mim e depois olhou pro alto como quem fala com Deus um papo reto ...
- Eu vou lembrar só do teto! 
 
*                     *                       *                      *                       *                      * 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O QUE TOCAM... OS ANJOS?

  

O som dos sinos quando dobram, se multiplicam dentro de mim. É coisa por dentro. Reverbera na alma. E nesse ritmar retumbante, imagino sempre que tipo de anjo deve tocá-los... Um anjinho solitário, acredito. Anjinho daqueles gordinhos de cara triste, que pendurado numa corda, pula de lá pra cá fazendo soar o campanário. 

Acho que é porque esses anjinhos que tocam sinos de igreja ouvem muitas queixas...Gente que perdeu gente querida. Gente que faz promessas para curar doenças. Gente que sofre por pouca ou muita coisa. E outros temas mais complicados. Por isso eles são assim... Ágeis, porém introspectivos. Como os sinos dobrando dentro de mim. Já os anjinhos mais alegres devem tocar trombetas. Os intelectuais, harpa. Nunca imaginei um anjinho tocando um som pesado. Talvez esses não sejam anjinhos ainda. Mas chegarão lá! 

O fato é que nunca vi tanto sino de igreja... Novos, velhos, enferrujados, pequenos, imensos. Nem tantos trens de ferro, quanto na viagem por Minas Gerais. Era assim... O som dos sinos ao meio-dia e às seis da tarde, repicando em meu peito. E o som dos trens chacoalhando todo o corpo e me levando por trilhos desconhecidos, em linhas paralelas no pensamento... Mas, diferente dos sinos, não tinha anjo nas locomotivas. Tinha sim, o velho maquinista, seguindo seu caminho, soltando a fumaça branca e desaparecendo na curva. Deixava na gente somente o som do apito longo e doído... E uma nuvem branca subindo, simplesmente, no azul do céu! 

Aí sim, um anjinho, lá em cima, soprava forte e sorridente. tocando, talvez... clarinete!

 

 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RESENHA DO MÊS... CRÔNICAS BOLEIRAS

                   É gol! De letra...
                   De Bico... Bicudo!

Imagine alguém louco por futebol. Agora, multiplique esse sentimento pelos mil gols do Pelé, mais as pedaladas do Robinho, as fintas do Neymar e potencialize tudo isso com a força de canhão do pé esquerdo do Pepe!

É mais ou menos esse o tamanho da paixão, santista,  desmedida e tresloucada, do autor Chico Bicudo, um professor apaixonado pela redonda e todo o universo mágico que envolve o futebol. Paixão que vem de cedo...

 ... desde antes de eu nascer. Dos chutes de primeira na barriga da mãe...”
 
E essa louca paixão foi passando para os filhos, Luiza e Daniel, fiéis companheiros de aventura, seja nas arquibancadas ou mesmo em casa, nos dias de glória... ou nas doloridas derrotas...

um silêncio que dava inveja a budistas em estado de meditação...”
 
“Crônicas Boleiras” conta a história de jogos inesquecíveis, de forma divertida e passional,
com temperos de família, subidas e descidas de serra, corneta sobre jogadores, mandingas e superstições...

“Quando a coisa aperta...-um zero a zero cascudo- fico de pé na ponta esquerda, imóvel, braços cruzados...”
ou
“Vale usar a mesma roupa durante 38 rodadas do campeonato...”

 
Relata também com detalhes, o antes, durante e o depois de partidas épicas, como o 5x2 do Santos contra o Fluminense... o jogo das pedaladas do Robinho na vitória sobre o Corinthians, em 2002, e a final da libertadores contra o Peñarol, em 2011...

Mas para os olhos do autor, a emoção dos grandes clássicos, às vezes, tem o mesmo sabor que uma simples vitória sobre o Figueirense...

 “ Um quase amistoso que não valia nada. Quem disse? Para os três pequenos foi um clássico, mágico!”
 
O Texto do Chico é eclético.
Nos emociona, com as jornadas saudosas do seu avô. Nos diverte, com os clichês do mundo da bola e com a época das vacas magras do Peixe.
E reforça, com forte e legítimo desabafo, o desgosto daquele inesquecível 7 X 1 da Alemanha!

  “É que é... futebol...”  diz o Chico,
   “No futebol, vísceras cantam e batucam mais alto
    que neurônios...”

E é assim mesmo.
Quem diria... O destino me reservou mais essa!
Resenhar o livro de um fanático santista...
Visceral e passional.
É o Santos Futebol Clube cruzando a minha vida, mais uma vez...
Em 2011 fui responsável pela idealização e implantação do “Futebol na Tri”, na rádio Tribuna FM, emissora do Grupo A Tribuna de Santos.

Ela foi a primeira rádio FM na Baixada Santista a transmitir os jogos do Santos, com equipe própria, que contava com grandes narradores e feras, entre eles, o goleiro Zetti, Serginho Chulapa , Clodoaldo... nos comentários.

Dei sorte! O Santos foi campeão da Libertadores daquele ano. Sorte nada, diria Bicudo... “um privilégio que nem todos”... Bem , o final vocês já sabem...

Confesso, que para uma corintiana, fanática, como eu, foi um exercício de despreendimento do qual muito me orgulho.

É assim que tem que ser, ou deveria ser...
Como nos velhos e bons tempos do respeito e da cordialidade.
Adversários, sempre. Inimigos, jamais!

Recomendo o “Crônicas Boleiras” a todos os amantes do futebol.
Aqueles que hoje sentem falta das torcidas juntas nos estádios, cantando seus hinos. Do tremular das bandeiras nas arquibancadas. De vestir a camisa do time sem ser espancado na saída do estádio... E de tantas coisas boas que se tornaram impossíveis e proibitivas por causa da violência desenfreada e da falta de medidas punitivas.

Recomendo o livro, em especial, aos grandes amigos torcedores do alvinegro da Vila Belmiro que cantam aos quatro cantos...

“... nascer, viver e no Santos morrer,
 é um orgulho que nem todos podem ter”...

Crônicas Boleiras, Um belo gol!  De letra.
Ou melhor, de Bico... Corre pra galera, Chico Bicudo!

 

 
CRÔNICAS BOLEIRAS

 
Autor: Chico Bicudo

Data de publicação: abril/2016

Número de páginas: 183

Coleção: Passos Perdidos

Gênero: Crônicas

 CHIADO EDITORA

 


 

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O UNICÓRNIO VIOLETA

                                                                                                            
 Quando ele descobriu que tinha um só chifre e era violeta, seu mundo desabou. Já não era criança. Nem adolescente. Estava todo em transição. E deu até dó! Anemia. Bulimia. Disritmia e outras ias...
Não se sentia confortável entre os equinos, muito menos, caprinos... Tão pouco se enquadrava entre os demais animais de dois chifres.
Restava sempre sozinho, embora fosse o alvo principal dos demais grupinhos. Para piorar, seu pai lhe deu as costas. E sua mãe, não dava respostas.
O tempo foi passando e ele foi suportando até quase adoecer.
Seu violeta escureceu. E o chifre, dentro de um chapéu, escondeu... Foram anos e anos restrito aos quintais, na cidade dos bichos iguais.
Quando enfim virou adulto, preferiu sentir dor, mais do que a solidão. Cortou seu único chifre, duro e azulado, e seus pelos pintou de marrom.
Arrumou depressa um emprego. Casamento. Conta no Banco e cartão. E assim viveu por muitos e muitos anos...
Só depois de velhinho, quando a internet naquele vilarejo chegou,
é que ele foi descobrir... 
Há poucos quilômetros dali, numa cidade grande, de prédios gigantes, luzes, teatro e cinema ... viviam livres e felizes, milhares de unicórnios! Dourados, vermelhos, verdes, amarelos, violetas...
Que triste. Que tarde...




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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

NEM LENÇO, NEM DOCUMENTO...

 
 
Tenho pavor de documentos. Procurar documento. Perder documento. Tirar segunda via de documento. Ou precisar de um documento urgente, do qual nunca imaginei precisar na vida.

Pavor, sim! E pelos mesmos motivos, tenho um certo pavorzinho de orgãos públicos... Nunca consegui nada de primeira. Sempre falta um documento! Geralmente antigo, que vem do nada e nos pega despreparados. Como assim? Comprovante de endereço do primeiro emprego do meu pai? Começo a estremecer...

Eu já passei por INSS, Receita Federal, Poupatempo e mesmo com muita experiência no assunto, ainda me bate o desespero. Só depois de semanas em agonia, sem saber por onde começar, é que volto ao local para pedir mais informações. Em geral, um outro funcionário, agora gentil,  me diz que existe uma alternativa mais fácil...

Já chorei de raiva e de alegria. E também já desisti de tudo. Por esta razão, também não sou fã de crediários. Esses das lojas famosas. Basta uma comprinha parcelada sem juros e pronto. Lá vem o cadastro malfadado. Com todos os documentos desencavados.

Mas não foi nada disso que aconteceu semanas atrás. Aliás, foi bem diferente. A loja era de portas e guarnições de madeira. Há uns cem quilômetros de São Paulo. A porta cobiçada era  maciça. Linda. Bom preço. Mas não aceitavam cartões.

O dono da loja percebeu nossa situação. Pegou uma caneta esferográfica e perguntou onde ficava o condomínio. Pode falar o endereço. Eu mando levar... Mas não temos como pagar. Paga depois! Semana que vem não vamos vir...  Paga daqui a quinze dias. Quer os nossos documentos?  Nada. O telefone basta.

Voltamos para casa maravilhados. No dia seguinte, o pedreiro nos informou que a porta chegou e que até já estava colocada. Passamos na loja quinze dias depois para agradecer o gentil dono, tomar um café e fazer o chequinho. Ao invés de preencher 2016, deu vontade de trocar para 1916!

Quem podia imaginar... Nem lenço, nem documento.
Foi no fio do bigode!      

          
 
 
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                                   Crônica  do livro Inesplicando Vol.1