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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O SEGREDO DO NAGAO

    
O jovem repórter não deve ter entendido a resposta daquele alegre e curvado senhor japonês ao ser questionado sobre o por quê de suas árvores serem as mais belas. Havia tantas árvores semelhantes naquele lugar. E da mesma espécie!

Afinal, Sr. Nagao, qual o segredo? Todo dia! Respondeu o velhinho. O repórter insistiu. O senhor rega as árvores todos os dias. Mas deve ter algo especial. Por que as suas árvores são maiores e mais floridas? Todo dia! O segredo é todo dia! Sr. Nagao respondeu novamente. Mas não tem uma fórmula secreta? Uma vitamina especial? E o velho insistia com um sorriso paciente e milenar...  Todo dia. O segredo é todo dia!

O repórter desistiu, imaginando que o velho japonês não tivesse entendido a sua pergunta. Ou talvez, compreendesse melhor outra língua...

Confesso que eu também, com vinte e poucos anos e sem ainda ter plantado as inúmeras árvores que plantei, não teria compreendido o mestre Nagao. Nem o alcance da sua simples frase.

Mas depois de muitos invernos. Das formigas que apareceram do nada e destruíram as folhas mais fresquinhas. Depois do vento forte que chegou de repente e quebrou os galhos repletos de florzinhas. Dos fungos que puseram abaixo um limoeiro em apenas três dias. E até mesmo da criança arteira que retirou todas as frutas, ainda verdes e azedinhas...

Entendi que é preciso água, sol, adubo. E mais que isso. O olhar, atento. Todos os dias...
O segredo, é todo dia!                                                                                    O Sr. Nagao sabia.           

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                     OBRIGADA PELA VISITA!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

GOSTO MUITO DE TE VER...

                                                 
Sempre tive medo de leões. O olhar de poucos amigos. O rugido assustador. A mordida fatal. Mas não deste leão. O leão da praia. Leão de cimento. Estátua tão amiga quanto antiga. Reinando no meio do jardim... 

Impávido e sereno, o leão da praia está lá há mais de setenta anos. Assistindo a chuva, a ressaca, os fortes ventos. A noite nublada, a madrugada estrelada e os primeiros raios da manhã...

Mas é no destino de estátua, pesada e dura, que sinto toda a ternura. Fico imaginando o brilho no olhar de cada uma das crianças. Milhares delas, ao longo de tantos anos, com sorrisos iluminados, erguidas pelos pais para o grande momento: montar o rei das selvas e com as mãozinhas pequeninas afagar a grande juba de cimento! 

A alegria perpetuada nas fotos dos filhos, que já se tornaram pais, e já levaram seus netos e bisnetos e tantos mais... O leão da praia mora na lembrança de todos nós, crianças, de todas as gerações. 

Mas foi numa dessas noites de luar, feitas para poeta se apaixonar, que vi, ali, em frente ao leão da praia, um louco solitário, insistente e comovente a cantarolar... -Gosto muito de te ver, leãozinho! De tocar sua juba...

Talvez ninguém tenha percebido o seu canto e todo o seu desatino. Mas o Leão, ciente da sua função, escutava calado, aquele louco desvairado que só queria encontrar alguém no caminho... 

E eu, que já desconfiava destas estátuas antigas, agora tenho certeza. Elas escutam os loucos. As crianças. E as cantigas! 

                            

       
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O FIM DA COCADA?

                                                                                                  foto: Veja/SP
             
Dona Jana era baiana das boas. Toda redonda. Peito boludo e traseiro avantajado, desses que levantam a saia branca quando anda. Vendia cocada na praça da Biquinha. Não tinha quem não a conhecia. Clientes, noite e dia.

Toda de branco e fitinha do Bonfim, sabia canto nagô e pedia sempre aos orixás que abençoassem suas mãos divinas e cada filho novo, que todo ano vinha! Foram cinco doces garotinhos que ela foi fazendo, junto com quindim, paçoca e cocada queimada. Felizes foram crescendo, qual fermento, ao seu lado com muito leite derramado, brigadeiros e bombocados

O tempo, porém, foi passando. O cabelo da Jana foi branqueando e a pracinha que era doce, jogada de um lado pro outro, foi se acabando... Pulando de canto em canto e com o coração sangrando, Dona Jana e sua barraca foram aos poucos se  desmontando.

Agora idosa e magrela, viu indo embora toda antiga clientela. Nem a tradição sobreviveu! Não veste branco e não tem mais a fitinha. Brigou com o orixá e com as novas vizinhas. Até o formato dos doces mudou na pobre e desfigurada Biquinha!  

Aonde Jana foi parar? A baiana agora usa whatsapp e montou um web site. E por pura ironia, exibe seus doces em frente a uma academia.

Que disparate... Vende só cocadas diet!


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quarta-feira, 27 de julho de 2016

UM DIA SIMPLES

                                                                       
 
               Ele podia ter sido engenheiro como seu pai. Ou dentista como sua mãe.
               Poderia ter sido jogador de futebol, modelo fotográfico ou técnico
               de informática. 

               Preferiu ser chefe da delegação de Hóquei no gelo.
              
               Ele poderia ter casado com a Fátima, sua namoradinha de infância
               que se formou em pedagogia. Ou com a Sandra, sua vizinha gostosona
               que arrastava um bonde por ele.
               Ou ainda com a Marizete, ótima em cozinha mineira e carícias sexuais.
              
               Mas preferiu Olenka, uma ucraniana com 3 filhos que mal fala português.

               Nada de calça jeans e camiseta. Nem ternos elegantes. Ele usava chinelos
               e boinas, shorts com polainas, e carregava uma grande mala de pele
               de carneiro que sempre o acompanhava.
 
               Instrumento preferido: oboé. 

               Filmes: os produzidos em Singapura.

               Sexo: terças-feiras de manhã, ao som de Hermeto Pascoal ou Igg Pop.

                E foi no dia em que completou exatos 65 anos de idade que ele atravessou
               a rua com passos firmes, entrou na padaria em frente e enfim, radicalizou :

               - Quero algo bem simples. Pão com manteiga, por favor!
              
               Foi preso porque estava nu.





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                 E os ganhadores deste mês do livro infantil "Era Uma vez uma cosinha" foram:
                 Joaquim Ordonez e Monica Ribeiro. Mês que vem tem mais. Escreva "Eu quero"
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quarta-feira, 6 de julho de 2016

EM CIMA DAQUELA PEDRA...


                             
Desce daí, feiticeira!

Minha alma se inquieta quando vejo certas esculturas encravadas na paisagem natural. Mau humor, pode ser... Ou inveja, por não saber moldar um simples boneco em papel machê.  Talvez precise de um olhar mais amigo e cordial. 
 
Aprecio demais a arte dos homens, mas a arte da natureza me parece tão absoluta, que ambas não deviam disputar o mesmo espaço. Uma em cima da outra? Aí dá um choque. Um nó nos olhos. Descompasso.
 
Nada contra a obra, pois o meu conhecimento na área é miudinho e se resume a distinguir os olhos e o nariz de um Aleijadinho e o vigor dos bustos de Rodin. Aos artistas, então, peço meu perdão.
 
É mais pelo local onde foram colocadas. Parecem estar sempre onde não deveriam estar.

Lá no Itararé, em São Vicente, quando olho a pedra da feiticeira, rústica e milenar, cravada na areia e ungida pelo mar, vejo no topo a estátua de ferro grudada com cimenticola, a me torturar. É bonita! Mas, não rola. Não tinha outro lugar?
 
Assim é com o peixe gigante na chegada da cidade de Santos. Mistura bipolar de sentimentos. De um lado, o símbolo da volta, a alegria do retorno ao lar, à beira mar. De outro, a presença angustiante de um peixe fora da água entre vias expressas e carros a buzinar. É lá que deveria estar? Não tinha outro lugar?
 
E as cabeças gigantes da rotatória de Praia Grande... Sinto poder e medo quando as vejo. Parecem ali, em vigília. Mas ficariam melhor em Brasília!

A arte é a maravilhosa expressão dos seres humanos e não deve ficar restrita aos museus. Deve estar integrada ao urbano. Minha cabeça concorda. Meus olhos e o coração, nem sempre.

Imagino um Deus-criador, lá do alto, olhando a estátua colada na pedra e pensando com ironia... 

Tinham que colocar justo aí em cima?


 
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quarta-feira, 8 de junho de 2016

A MESMA DANÇA

   

Eles dançaram a noite toda.
All night long! 

Eles dançaram anos sessenta, Chucky Berry, Elvis, Beatles. 
Eles dançaram anos setenta, Bee Gees, Abba, Donna Summer. 
Eles dançaram anos oitenta, Noel, Rick Astley, The Cure... 

E quando a música parou, eles continuaram dançando. 
Na minha cabeça, eles nunca param de dançar. Na verdade, acho que eles dançam há séculos. Dançam desde outras vidas. 

Quem sabe, um elegante casal de nobres valsando nos grandes bailes em castelos medievais. Ou não. Parecem mais camponeses que dançavam alegres em festas de família, regadas a vinho e conversas ao luar.

São almas leves que balançam suaves, como se os problemas da vida fossem resolvidos ali, numa valsa bem executada. 
Como se as dores do cotidiano fossem incontáveis bolinhas de gude, num bolso abarrotado e o movimento do corpo, ritmado, fosse colocando tudo, harmoniosamente, no lugar.

A dança é viva. Faz a alma flutuar. 
E não há quem não se encante em ver o casal dançar. 
E não há quem não aprenda que a vida precisa de uma pausa: uma pausa para dançar. 

Mesmo que não se dance tão bem quanto eles. Mesmo que os pés estejam endurecidos. Mesmo que se dance só.

É preciso dançar sem medo e com esperança. Sabendo que a vida é mais que perfeita quando se encontra alguém que sabe dançar... 
a mesma dança.



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                Dedicado ao casal 
              Norma e Ademar
 
 
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quarta-feira, 18 de maio de 2016

O GAROTO QUE ASSUSTAVA POMBOS


                                             
                                                                                foto: Water
Não era um garoto mau. Tinha amigos, jogava futebol, amava os pais... Mas tinha uma coisa a mais: gostava de assustar pombos!

Corria enlouquecido em direção aos bichinhos até que largassem seus milhos e partissem em revoada. Depois, com o canto da boca, sorria. Lançando um olhar saborosamente mau...

Menino como ele, perguntei certo dia porque gostava tanto de assustar os pombos. Sem muito pensar ele respondeu: - Não sei!
E era sempre assim. Assustava os pombos na rua, nas praças, no mercado. Onde estivessem pousados. Sem saber por quê.

Vinte anos se passaram e aquele menino tornou-se um homem de sucesso. Gerente. Diretor. Dono da empresa. Soube que teve dois infartos e um AVC que lhe entortou definitivamente parte da boca. Mesmo assim prosseguiu com sua dura postura. Grande fortuna. Embora os pés rastejassem ligeiramente no chão...

Nossos destinos se cruzaram novamente no meu último emprego.
Era ele o dono da agência onde eu havia me empregado como redatora. Expectativa muito boa.

Na última reunião da semana, pude ficar frente a frente com o “chefe”. De ouvidos atentos e com a impaciência de um general, ele escutou as idéias. As minhas e de mais uns cinco funcionários da agência. Gente empenhada. De excelência. Não gostou de nenhuma! Olhou com displicência. Ar de aborrecimento...  

Num exato momento, virou-se enfurecido na cadeira e batendo com a mão na mesa ordenou à obediente platéia: - saiam daqui e só voltem com novas idéias! Depois sorriu com o canto da boca, lançando aquele olhar... aquele olhar, saborosamente mau.

Todos partiram, feito os pombos. Em revoada para suas salas. Menos eu... Dez pras três já estava em casa. No programa, um final de tarde inteirinho. A família, meus livros, um bom vinho... 

Amanhã será outro dia. Outras idéias? Talvez. Ou um outro emprego? Muito provável. Ainda não sei... Mas agora sei porque aquele garoto assustava pombos...
Eles sabiam voar!




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