A casa fica no meio do velho caminho que vai dar na Ponte Pênsil, em São Vicente. Tem cara de gente. Os olhos, abertos e atentos. Com uma dose de sofrimento. Deve ter sido linda no passado. Hoje, maltratada, vê tudo ao seu redor, estagnado. Será que acompanhou a construção da ponte? O intenso movimento dos dois lados? E o sangue dos operários que trabalhavam sol a sol, derramado? Alguns morreram por lá. Tristes gemidos dentro da casa ainda devem ecoar. Não ouso entrar.
Hoje, a casa só espia e ouve o tiritar das tábuas de madeira soltas na ponte a chacoalhar. Sempre gostei da sensação do tremular. Mas ela não deve gostar. Difícil deve ser descansar. Carros passam e buzinam. Pescadores, em grupos, chegam pra pescar. Meninos loucos, pulam da ponte pro mar. E a casa a espiar. É a vida que lhe resta olhar.
À sua esquerda vê a velha estrutura pênsil e sua linda arquitetura. Embaixo, os barcos passando fazendo onda e espuma. E o sol se pondo defronte, na linha do horizonte. Mas é bem à sua frente que a casa se desespera. Vê a casa das bananadas. Desde mil novecentos e nada. Ainda útil e movimentada. Ponto certo de parada. Todos entram e a visitam para comer e se deleitar.
E para a casa que espia, minguada, ninguém dá nada. Nem tinta, nem reboco. Nem pomar. A casa só espia, espia, espia...
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Foto : Tony Lamers
Atualizando... a casa foi demolida em 2022. R.I.P.
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