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sexta-feira, 11 de abril de 2025

QUERIDA, ENCOLHI OS CHOCOLATES!


                                      

Não é só uma impressão, amarga. Os chocolates diminuíram. Foram reduzidos e tornaram-se maldosamente pequenos. 
Quem não lembra das barras antigas? Gordinhas, com vários gomos? O Lingote de chocolate vinha num papelzinho de seda dentro da embalagem amarela. Já era! Agora é uma barrinha magrela.  
As moedinhas de chocolate? Eram da largura das patacas de cinquenta centavos.  Agora, não passam das de cinco! Coisa de sovina. Mesquinhez de Tio Patinhas.  
Os bonbons também encolheram. O meu cerejão, virou cerejinha. E os chocolates de marcas famosas foram humilhados e cortados impiedosamente pela metade. Que maldade.
Temos menos cacau e mais beleza. Ovos lindos, enormes e cheios de latex e leveza. A parede de chocolate cada vez mais fina lembra uma parafina. E tem sempre um brinquedinho lá dentro para dar mais peso. 
Até os coelhos ameaçaram greve geral. Não são obrigados a transportar brinquedos. Isso é coisa pro Natal. 
A culpa pode não ser dos chocolateiros, nem tão pouco dos cacaueiros. Talvez, a falta de dinheiro da população... 
A indústria sacou e miniaturizou. A gente não percebe e paga ainda mais caro, levando a metade da tentação. Os ovos mais pesados com nozes e castanhas recheados? Só para filhos de abastados.
Os chocolates diminuíram e ninguém bate panela. 
Por isso, nesta Páscoa farei diferente. Comprei um panelão gigante. Vou derreter chocolate branco e preto, sem usar conservante. Farei um ovo caseiro gigante, de uns cinco ou seis quilos e meio. Vou me lambuzar por inteiro, sem gastar muito dinheiro.
Vou avisando... é só um devaneio. 
Tem gente já encomendando pelo whatsapp... o meu ovão de chocolate. 
Novos tempos!
 
 
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sexta-feira, 28 de março de 2025

CARTA AO PRIMO CORINTIANO


Primo Jairo    

28/3/2025


Que carta linda eu te escreveria hoje... à la Drummond. E diria que o timão papou mais um caneco. 

É campeão!

E foi “daquele” jeito. Na raça, na luta, na vontade. Na provocação.

E teve confusão, afinal Débi é Dérbi, não? O papai iria azucrinar o amigo Cola, o bom e ranzinza “parmeirense” Nicola.  Ia perguntar: cadê a academia? Não tem mais Ademir da Guia. Estevão é bom. Mas precisa comer muito arroz com feijão. Faz parte a zoação dos mais antigos. Já perdemos tantos destes bons e irritantes “inimigos”.

Acontece que cada título é uma luz na alma que se acende. Corinthians é coisa que só corintiano entende. Doença. Crença. Uma paixão. Tortura pura pra quem é ansioso de coração.

À vezes, falta o fôlego. Tudo é sofrido. Nunca foi fácil. Como a vida da gente. Acho que é por isso que a gente se compreende.  A nação se ajuda. Canta alto. Pra espantar a zica e mostrar que juntos temos poder.  O poropopó diário que a gente do povo tem pular pra vencer.

E o timão nunca teve a frieza dos adversários. Com a gente é sangue no olho, tapa na orelha e muito barulho. A gente ganha, ou perde tudo. É gloria ou fim do mundo.

*Toquinho disse na canção... ser corintiano é muito mais que ganhar ou perder. É um jeito de ser e viver.

Primo, que carta legal seria esta de hoje. Mas não tenho mais o seu endereço. Você se mandou. Tem CEP no céu? Não sei. O mensageiro de Deus não me informou.

E o papai ? Mora ao lado? E o meu irmão, tem visto ele ultimamente?  Ia querer o resumo do jogo, os momentos principais. O Memphis é bom mesmo? O Garro, o Yuri, o Hugo? Quem jogou mais? Tudo bem detalhado. Eu ia resenhar um bocado.

Mas aí onde vocês estão...  não chega a minha conexão. A internet não vai tão longe. Talvez uma fugidinha da alma hoje à noite e eu consiga enviar um... Vai curintiaaaaaaa!!!!

Pode ficar alegre primo! Chama a Marli para uma cacheta. Meu pai para um truco. Não é blefe não. 

Quem pegou o caneco ontem... foi o timão!

 

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TOQUINHO TOCA POROPOPÓ

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quarta-feira, 26 de março de 2025

O BALANÇO DA ALMA



Às sete acordo. Tomo banho. E quero melhorar o mundo.

O dia é uma folha em branco. Meu otimismo é a roupa recém-lavada que visto na manhã onde tudo parece possível.

Às oito caminho. Os compromissos e as memórias se entrelaçam. Projetos se desenham no horizonte. Os ensaios de ontem ganham forma na minha mente arejada. O sucesso caminha ao meu lado, descalço e sorridente. Sou o otimismo que corre na areia. A alma passeia.

Às dez sento para escrever. E as palavras se dispersam em folhas que caem e a clareza se esconde atrás de montanhas. A inspiração hesita. O texto gravita, solto, sem contorno. Não insisto. Há dias em que a alma se veste de outono.

Às quatorze almoço. O corpo assimila os nutrientes, a mente absorve as horas engolidas. Tudo se mistura no menu – o que fui, o que serei, o que ainda não entendi e não sei.

Há renovação no mastigar e as frutas da estação me lembram que a vida segue em ciclos, em fomes, alternâncias de humores. Às vezes, tensão. Às vezes, flores. Oscilações da alma.

Às quinze toca o celular. Retomo o fôlego, ajeito o corpo. A vida pede sequência, ainda que a alma preferisse uma “sesta”.

Às dezessete, desempenho total. Escrevo, resolvo, organizo o carnaval. Como se a tarde entendesse sua missão de me reconciliar com o dia impreciso e lento. Há uma pressa, uma necessidade de fechamento.

Aproveito esse instante, sei que sumirá ao cair da noite.

Às vinte, respiro fundo, mas o mundo me invade.
A tevê cospe sua tragédia diária,
e a esperança, que de manhã eu vestia, agora tem manchas de dúvida e pessimismo. Minha alma, com "tdah", oscila outra vez.

Às vinte e três, busco novo equilíbrio, vejo uma série leve ou parto para um livro.

E já é meia noite. Queria ter dormido antes. Queria ter regado as flores.

Queria ter cantado no microfone. Vou deitar apressada.

Amanhã acordo cedo. Tenho que melhorar o mundo.

 

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quarta-feira, 12 de março de 2025

SAUDADE DE VOCÊS...


O apito longo e doído do velho carrinho do vendedor de paçoca, me fez recordar coisas que há tempos não vejo mais...

Foi surpresa sem igual. Quando vim morar na Olavo Bilac, poética e estreita rua do litoral. Tão diferente das grandes avenidas que morei na Capital... Lá veio ele, com seu apito longo e conhecido da garotada. O carrinho com chaminé e fumaça lembrava a frente de uma locomotiva. Ainda na ativa, ele vendia amendoim e paçoca quentinha. De rolha ou farelinha. Ambas macias.

Depois da paçoca e do amendoim, passavam durante a semana, vários outros ambulantes. Engraçados sujeitos! Com seus gritos e frases de efeito. - Olha o amolador! De facas, tesouras ou outro laminado que for. Passava também o consertador de panelas de pressão! Cheio de válvulas, correias de borracha e panelas de antigas marcas. Panex, Panelux, Fulgor! Cheguei a correr atrás do vendedor. Minha válvula pifou! Levei outra, seminova. À toda prova. Palavra do vendedor. 

Saudades também dos ambulantes da praia... Onde anda o vendedor de biju? Olha o Beeeeju! Batendo forte na sua matraca de madeira e ferro, marca registrada do biscoito seco e quebradiço, misto de polvilho e farinha de trigo. Ao contrário do vendedor de algodão doce, que usa uma buzina para anunciar a sua chegada! Quanto tempo não vejo mais nada. Cadê os vendedores de cocada? 

São tantas coisas lindas que não tenho visto mais... Lembro das noites iluminadas pelos insetos que acendiam e apagavam na madrugada. Pra mim, eram seres encantados! Dezenas deles, espalhados. Nas noites da cidade. Nas praças e descampados. Aonde andam os pirilampos? Cadê os vagalumes iluminados? 

Receio que essas coisas belas que eu via quando criança... Os antigos ambulantes, os vagalumes e até as abelhas em suas doces andanças... 
Restem um dia, apenas e somente, na nossa lembrança.



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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

TROMBA DE CALOR!


O Parque era um labirinto. Ao invés do musical de sereias cantantes, paramos num mini Zoológico com animais sonolentos e aborrecidos.

Era um espaço grande e todos, alimentados. O sol a pino e o calor escaldante deixavam os bichos mais lentos e entediados.
Os grandes, jogados por sobre as pedras, como o urso e o leão, tinham um ar de melancolia. Eu os observava enquanto apertava meus passos e meu coração naquele enjaulado dia.   

Avistei os flamingos, os macaquinhos e os nada pacatos suricatos. Muito alegres, um barato! Quem me encantou de fato foi a elefanta, ou aliá. Eu prefiro “elefanta”, o som do “anta” parece combinar com o movimento alongado da sua enorme tromba. Bem longa. De grande e boa milonga. À procura de água para encher a tromba e se refrescar.

A estrela oversize começou seu lento caminhar em nossa direção. Havia um fosso, mas não era distante e pudemos acompanhar o seu desfile exuberante. Uma massa grossa de fina graça que caminhava mansamente, desfilando suas centenas de quilos e pele enrugada. Balançava a tromba e a pênsil cauda. Parou em frente ao grupo e vaidosa, ajeitou-se para posar.

Cabeça enorme. Olhinhos pretos e miúdos. Virou para um lado e para o outro, moveu a tromba coçando delicadamente suas patas, esfregando a direita na esquerda, num movimento leve feito balé. Senti ali a poesia de Drummond, quando dizia se fantasiar em frágil elefante de papel crepom e sair às ruas, desmoronando todos os dias.

Meu coração de algodão também se desmanchou ao ver no olhar daqueles bichos o desalento e a solidão. Na elegante elefanta, uma tromba colossal de calor.

E veio de repente, no meio daquele mini zoológico escaldante, uma vontade nada poética e delirante de prender ali, ao invés dos bichos, os responsáveis pelo malefício.

Seguimos pelo Parque, mais perdidos do que antes, em direção às sereias cantantes.

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domingo, 9 de fevereiro de 2025

A PLACA DA VILA FLOR



O nome está na gravado na placa. 

Vila Flor. Pequena e com poucos habitantes, a cidade conserva suas casinhas de pedra e ruas estreitas que parecem guardar o passado. 

Foi ali que Henrique nasceu. Em meio aos campos verdes, sob um céu azul intenso e às vezes, cinza modorrento do inverno de Portugal. As vinhas de Vila Flor parecem serpentes cortando as colinas e as oliveiras centenárias escondem segredos.

Maria Emília era de Vila Real, não muito distante, onde as montanhas do Douro aparecem no horizonte e o vinho é "agua corrente". 

Para Henrique a distância não existia. O coração dele escolheu Emília, ainda que ela nunca tenha facilitado esse amor. Ela trazia a dureza das pedras do Porto e a teimosia de quem queria trilhar o próprio caminho. E assim, ela partiu num domingo, no grande navio, cruzando o oceano rumo ao Brasil. Levou consigo o coração fechado, tentando esquecer o passado.

Mas Henrique não se deu por vencido. Seu sexto sentido dizia que ela seria sua. Por amor ou loucura decidiu trocar as ladeiras pequenas de Vila Flor pelas esquinas de um gigante Brasil.

Encontrou  Maria Emília um ano depois, já dona de uma venda, comerciante próspera e independente. Henrique, insistente, veio colher a semente do amor que plantou e que veio de Vila Flor!

Casaram-se e tiveram três filhos. Todos os dias, Henrique se sentava à porta da vendinha, a cadeira virada ao contrário, dedilhando seu bandolim. Espantava a clientela assim, com melodias que nem ele sabia de onde vinham, mas, aos poucos, amoleciam o coração de Emília. Para as crianças, contava histórias criadas na imaginação. Era um português sonhador.

Com trabalho duro e madrugadas sem descanso construíram juntos uma história sólida como as paredes de Vila Flor. Henrique teve netos e "Henriqueceu" com esse amor.  Até que a memória partiu sorrateira. E aquele que nunca esqueceu Maria Emília passou a esquecer dos seus dias e das memórias de uma vida inteira. 

Partiu cedo, num domingo, dormindo ao lado de seu único amor.

Hoje, Vila Flor está tombada, preservada, como um quadro antigo no museu. Seus habitantes ainda descem as ruas de pedra nos dias de festa, carregando tradições que resistem ao tempo. 

Quando vi as imagens do cortejo municipal, feito um triste carnaval marcado por um tambor ritmado, senti como se Henrique estivesse ali, descendo com eles, tocando seu bandolim desafinado.

Aquele amor que cruzou o oceano veio bater em mim. E  ainda corre nas minhas veias.

Na parede da minha casa, coloquei a placa que leva o nome: Vila flor. Também é seu o meu lugar, meu avô.

Porque, de certa forma, a sua viagem não terminou...


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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

ÚLTIMAS CEREJAS...


Fiquei constrangida quando servi pela terceira vez os pedaços do Chester da ceia. Só que agora, em forma de suflê. Pelo menos foi leve. Ontem já estava desfiadinho, ao lado da maionese.

As cerejas também foram servidas. As últimas! Algumas, machucadinhas. E a última delas, sempre a última, com gosto amargo. 
O espumante pela metade, fechado com a rolha plástica, também perdeu o gás. Raras eram as borbulhas. Nem mais franziam nosso nariz.

Comemos e bebemos mesmo assim. Felizes, rotundos e satisfeitos. Afinal, em tempos de fome mundial e abismos sociais, o desperdício chega a ser desonesto. 

Nos próximos dias, voltaremos ao normal. Cada um na sua rotina, esquecendo grande parte das promessas durante as sete ondinhas. Da fortuna almejada nas lentilhas. Dos desejos secretos e sacanas escondidos nas uvas baconianinhas. Das previsões mirabolantes das mães de santo.

Até o bulling com as uvas passas vai passar. O ano novo começa com todas as velhas questões que deixamos de resolver no ano que passou. Tudo continua onde parou.

Mas uma coisa eu levo comigo neste novo ciclo. A maturidade e os anos da pandemia me ensinaram. 
Comerei Chester em junho, se tiver vontade. Abrirei espumantes numa terça, ou quarta-feira à noite, depois do trabalho e sem motivo qualquer. Colocarei uvas passas, coentro ou o que desejar na maionese, sem me importar com a opinião alheia. Eu escolho o que vai na minha ceia.

E vou comprar mais cerejas, amanhã mesmo. Porque aquela última, foi de amargar...                                        



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