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terça-feira, 15 de outubro de 2024

O TOQUE DO MESTRE


A Avenida Paulista era um mar de gente às sete da manhã. 

Eu, com a pressa dos meus dezessete anos carregava livros, cadernos e planos entuchados numa mochila azul marinho e corria para chegar a tempo na aula do cursinho. 
O "Vaticano" era a sala de maior tamanho, onde eu me juntava a cento e cinquenta vestibulandos sonolentos que iam acordando lentamente, à medida que a aula ia passando.

Eu não sabia ao certo porque tinha escolhido o curso de biológicas. Talvez, por ser o mais forte. Ou, por influência da professora de ciências. Uma japonesa brilhante em quem eu me inspirava na época do colégio. Aprender com ela foi um privilégio.

Naquela sala gigante eu sentava, pensamento distante, com meus sonhos, espinhas, colinhas e tarefas estranhas. Física, matemática... e a mais terrível de todas: a química orgânica! 

Eu detestava química orgânica. Meu Deus, para que serve o benzeno? Sei que tem seis ligações, ao menos.   

Foi num dia de Vaticano que o toque iluminado de um anjo ou seria, um arcanjo? ... aconteceu. Ele nem percebeu. Foi um toque de mestre. Toque divino dado com carinho, no meio da aula de português: - o que faz aqui, cara Inês?

O professor Arlindo desceu do púlpito e veio até a minha cadeira mexer com minhas certezas e mudar uma vida inteira. Parado ao meu lado, enquanto todos se preocupavam com os textos de interpretação, ele segurou o meu caderno em suas mãos. Olhou as folhas soltas. Os rabiscos pelos cantos. Letras dos Beatles. Frases  que eu guardava e nem sempre lia. Papeis celofanes e poesias.

O mestre foi direto, com sua voz literária de velho conhecedor:  

- Tens alma canceriana! Nesta sala de biológicas? A quem enganas? Você é de humanas! E apontou meus rabiscos, meus textos e os inclinados traços artísticos.

Ainda hoje sigo escrevendo, rabiscando, inventando, contando histórias e crônicas do meu tempo. Culpa do toque certeiro. 

Valeu, Mestre Arlindo! Eu não gostava, mesmo, de benzeno.


*                        *                                                     



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quinta-feira, 26 de setembro de 2024

A SANTINHA DO RELÓGIO

Foi uma breve caminhada na calçada, ao redor da Igreja Coração de Maria na Avenida larga e movimentada.

Junto ao poste, entre entulhos amontoados, portas e armários quebrados, eu vi o oratório. Madeira escura. Detalhes em barroco, rebuscado. Agonizava entre os trecos e objetos largados. Dispensados pela igreja sem chance de restauração. 

Dei quatro passos adiante sem pensar no resgate. Revirar toda a tralha, no meio de carros e pessoas na avenida ensolarada, era impensável.

Não pensei. Fiz. 

Feito um cãozinho farejador e voraz revirei a coisarada até puxar a peça cobiçada sem olhar para os lados, levando pela mão por três ou quatro quarteirões até chegar em casa.

A peça era quase perfeita. A embúia, com entalhes frontais sem nenhum dano. E na parte de dentro, ao invés da imagem esperada, uma espécie de corda de alumínio enrolada. Corda de relógio! Que santo engano. Mas com um pouco de arte e fé, seria o oratório dos sonhos.

Retirei a corda do fundo e saí para encontrar uma santinha que coubesse lá dentro. - Que santa é essa, azulzinha e de olhos pretos? O vendedor não soube dizer. - É a Santa do relógio? Brinquei. Ele concordou, interessado em vender. - É sim. Dizem que é milagreira.

Nesse instante ela virou a santa do relógio. Ficou na parede no seu novo oratório num cantinho especial da minha casa. 

Algumas visitas perguntavam como ela agia. - É senhora do tempo! Adianta o que tem urgência de ser e faz retardar o que precisa de mais tempo pra se resolver.

Assim foi por anos o nosso segredo. Amigos ligavam pedindo ajuda pra minha santinha do Tempo. Talvez tenha sido um pecado. Mas se ela fez algum milagrezinho, já está pago.

Angela não conhecia a história e cuidava da casa quando derrubou o oratório que quebrou em duas partes. A santinha do tempo partiu em mil pedaços. Nunca mais achei uma imagem parecida.

Hoje, o oratório está no sítio da família. Restaurado por meu irmão que lhe deu novos contornos, tintas e uma pátina rosada com efeitos. Colocou um terço e uma Nossa Senhora de Lourdes dentro.

Até quando vai durar? Não sei. Quem sabe é o Deus do tempo. Sei que entra santa e sai santa e o relógio abandonado continua um oratório. 

E boto fé... é milagreiro!

 

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quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A TRAVESSIA DAS CAPIVARAS...



Uma grande família, em fila e comportada, atravessava a pista de asfalto da perigosa estrada. O motorista se desculpou da brusca frenagem mostrando a placa: - Pare para as capivaras!

Antigas habitantes de Itaipu, as capivaras foram despejadas do local durante a obra da usina monumental. Uma gigantesca manobra para desviar o rio que feriu gente e desinstalou centenas de espécies e animais silvestres.

Hoje, as poucas capivaras que sobraram são prioridade. Quase santidade. Uma espécie de reparação tardia. Os bichos pacíficos parecem sempre lembrar do triste desfecho familiar e passam altivos pela estrada que já foi sua casa, agora sem medo. Às vezes param para um descanso ou um clique de algum turista no meio do passeio. Sem constrangimento.

Terminada a travessia dos bichos, seguimos até o destino, a Usina de Itaipu. Buracos feitos por tatus, de aço. Imensos. Dentados. Detonadores, tratores e explosões a todo tempo.

Milhares de ajudantes, engenheiros, pedreiros e boias-frias unidos pela coragem e o cansaço dos intermináveis dias. Assim as barragens foram erguidas. Usina construída. Abastecendo o país. Não mais abrigava os animais gentis.

O espetáculo das luzes às sextas feiras para os visitantes de Itaipu é poderoso. Pouco a pouco, cada ponto da barragem é iluminada, ao som de uma música forte e orquestrada.

Os motores da usina estavam desligados no dia de nossa visita. Maior seria o impacto se estivessem jorrando os milhões de litros de água em poderosas cataratas.  

A plateia aplaudiu no final, energizada, diante da tecnologia avançada.

A usina gigante e iluminada deixou nossas sensações mega ativadas. Voltei impressionada.

Mas nada, nada se comparou — à travessia tranquila  das capivaras. 


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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

O CONTEMPLÁRIO...


Sempre imaginei o paraíso em azul e branco. Um imenso oceano com  águas tranquilas, esparramando espumas na areia  fina de uma praia deserta... Isso foi até visitar o Contemplário! Acho que me enganei todo esse tempo. As almas voam mais livres por aqueles campos...        
Sem falar do cheiro fresco das quatro estações que estão todas ali reunidas  e espalhadas no ar. Eu me perdi naquele lavandário na Cidade de Cunha, como quem se esquece no tempo. Eu, que nem sabia o que era um lavandário. Nem a cor e o cheiro das lavandas. Azuladas, mais para violetas! Vivas, com o balançar do vento.  
Foi no meio da plantação que um visitante perguntou quem era o dono daquilo tudo. - Henry! Veio a resposta. Um homem que se encantou com as terras onde o por do sol era o mais fantástico daquela região de montanhas. Resolveu plantar as lavandas e diante de tamanho presente da natureza decidiu dividir com todas as gentes aquela riqueza. Além de dar chance para os locais oferecerem seus produtos de lavanda numa espécie de loja-cafeteria que fica no alto do campo com vista para o grande espetáculo. 
Ah, e havia o biscoito de lavanda com uma pequena xícara de café fumegante vendo o sol se por. E o melhor ainda estava por vir...  
O Contemplário mesmo, onde a mirada é de paraíso, é um simples trapiche de madeira onde o vento bate no rosto e os olhos se enchem de cor. Campo dos sonhos e coisas santas. Paraíso azul-violeta onde moram as lavandas! 
Mas no fundo eu sabia que o Henry não era o dono daquilo tudo.  
Quando eu estava indo embora, olhando as lavandas ao sabor do vento, o sol batendo nas flores, realçando suas cores, descobri a quem pertencia.
Àquela que beijava as flores todos os dias. Que via o sol se levantar... e o sol se por. Que percorria o campo saudando as lavandas de um lado para o outro, livre, como as almas no paraíso.
Era uma abelhinha. Uma pequena abelhinha... que piscou para mim!


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quarta-feira, 31 de julho de 2024

A SAIA CINZA...



A saia cinza chumbo era tão curtinha que as garotas subiam as escadas, engraçadinhas. Segurando firme, com uma mão de cada lado. No corredor, risos abafados. E os garotos, eram só garotos. Olhando as meninas e suas saias curtinhas. Enfeitando o pátio. Colorindo as esquinas.

Logo vinha a campainha. As meninas e suas saias entravam na sala de aula, cada qual no seu lugar. Eu sentava na carteira da janela. Virando as pernas para o lado. Bem juntinhas, com medo de um lance mais descuidado. 

A aula de História passava voando. A de matemática, durava cem anos. E vinha a campainha do meio. Intervalo. Recreio! As sainhas se alvoroçavam. E as pernas das meninas corriam ligeiras e finas, rumo à cantina. Entre lanches e lances. Canções e romances. E na hora de sentar nas escadas. Mãos nos joelhos, meninas! Alguém olha lá de baixo, se não está aparecendo nada! Todas aliviadas... Ajeitam os cabelos, trocam confidências, sorriem por nada. 

As saias eram a nossa cara. A preocupação despreocupada. O vacilo que não dá em nada. Só risos e apostas. Quem sabe, uma ou outra calcinha à mostra. Os garotos eram só garotos. Com olhares de rapina. Devorando as pernas das meninas. Com aquelas saias curtinhas. Saia de prega. Cinza Chumbo. Cinto vermelho, de fivela. 

No dia seguinte, a educação física era um desafio de fato. Botar um shorts vermelho, meio elástico por baixo. Então, a saia subia de vez. Hora de amarrar a jaqueta jeans na cintura e proteger a formosura. Escondendo com malícia e timidez, a saia curta, outra vez.

Que saudade das saias.... dos olhares marotos e dos garotos, nas aulas de português...



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sábado, 6 de julho de 2024

O BARULHO DA ÁGUA DO RIACHO...

Riacho. Acho que ri. Acho que corre. Acho...

Acho que riacho é um gotejar fresco de barulho delicado. Vai levando intermitente o passado. Pois é água corrente. É sempre presente. Um agora sem fim.

Acho a felicidade um riacho que corre em gotas. De alegrias pequenas, serenas. Um café sobre a mesa. Um pio de ave na natureza. Um beijo macio de delicadeza. 

Riacho, eu acho, é um existir tímido e tranquilo.  

O oceano é intempestivo. Rítmico e mítico. Tem nome e sobrenome. Atlântico, Índico, Pacífico. O riacho nem nome tem. Ele vem, continua e some. Vai pra onde ninguém vê e se mistura sem ego, num maior ser. 

Mais jovem fui um oceano rufando. Com águas revoltas e Júpiter evocando. Acho que hoje, diacho, hoje sou um riacho. Acalmei as marés cheias e as ondas crespas do passado. Está tudo mais calmo. Serpenteio maleável em cada curva do leito, ao som de uma leve música que acalma meu peito.

Olhar o canal e a ponte de madeira trouxeram de volta a imagem do riacho que eu acho que corre. Acho que ri. Acho até que canta. Ouço o barulho do seu gotejar inundando a lembrança. 

Hoje, mais humilde e mansa, brinco e me alegro em pingos. Todos os dias são domingo. Vou saboreando a beleza da natureza e dos bichos. Conservo poucos e bons amigos. 

Sou um fio de rio. Flor que boia. Não para o oceano aberto, mas para um lago manso que eu sinto mais perto. Lago da maturidade. Lago com um banco branco e jardim.

O riacho, hoje, passa lento... dentro de mim.


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terça-feira, 2 de julho de 2024

CHEIRO DE CHÃO MOLHADO...


Alguns cheiros da infância estão guardados em nossa memória.

Talvez residam lá há séculos, num arquivo vivo ancestral. Lembro de cheiros dos tempos da escola. O cheiro do caderno novinho e suas páginas intactas. Cheiro de papel bom. Eu rodava as páginas com as mãos para sentir o vento no rosto. Cheiro branco. Gostoso. Da brochura a desabrochar.

Bom também era o cheiro da borracha verde qua apagava o lápis. Macia e diferente da borracha de caneta. Metade azul, metade vermelha. Dura e rasurenta. Quem é que não furou um papel assim? Era preciso experiência e bom olfato para distinguir o cheiro exato das duas borrachas. E a serragem com grafite ficava presa no apontador. Acabava na ponta do nariz na hora do assoprar... feliz.

São incontáveis os cheiros da infância. Cheiros de criança. Alguns azedos e passados. A laranjada que escorria dentro da lancheira encharcada. O cheiro de xixi na calça, quando pingava. E da massinha de modelar que nos dedos grudava.

Havia cheiros maravilhosos, como o dos jasmins ao lado do colégio, na casa da Dona Joaquina. O cheiro do queijo torrado na chapa que vinha da cantina. E no intervalo das aulas, na porta da escola, o árabe de boina abria sua sacola de lona e eu sentia o cheiro das esfihas empilhadas. Incrivelmente perfumadas. Ele cortava e espremia o limão e o cheiro cítrico ficava em nossas mãos até o final das aulas. 

Mas o cheiro que me enche de ternura de um jeito úmido e impregnado é o cheiro do chão molhado. Depois da chuva dos dias quentes de verão...
É o cheiro que vem da calçada. Das gotas grandes que batem no chão e molham rapidamente as ruas e praças.

Depois de um tempo, a chuva vai embora, a água evapora e sobe lentamente o cheiro de chão quente. 
Ele invade a minha mente e inunda os meus olhos e a minha alma carente, com um leve vapor de saudade!


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