* * *
QUER LIVROS?
Peça os livros de crônicas "INESPLICANDO",
PELO WHAT'SAPP 13 997754072
E receba em casa com dedicatória, pelo correio.
Riacho. Acho que ri. Acho que corre. Acho...
Acho que riacho é um gotejar fresco de barulho delicado. Vai levando intermitente o passado. Pois é água corrente. É sempre presente. Um agora sem fim.
Acho a felicidade um riacho que corre em gotas. De alegrias pequenas, serenas. Um café sobre a mesa. Um pio de ave na natureza. Um beijo macio de delicadeza.
Riacho, eu acho, é um existir tímido e tranquilo.
O oceano é intempestivo. Rítmico e mítico. Tem nome e sobrenome. Atlântico, Índico, Pacífico. O riacho nem nome tem. Ele vem, continua e some. Vai pra onde ninguém vê e se mistura sem ego, num maior ser.
Mais jovem fui um oceano rufando. Com águas revoltas e Júpiter evocando. Acho que hoje, diacho, hoje sou um riacho. Acalmei as marés cheias e as ondas crespas do passado. Está tudo mais calmo. Serpenteio maleável em cada curva do leito, ao som de uma leve música que acalma meu peito.
Olhar o canal e a ponte de madeira trouxeram de volta a imagem do riacho que eu acho que corre. Acho que ri. Acho até que canta. Ouço o barulho do seu gotejar inundando a lembrança.
Hoje, mais humilde e mansa, brinco e me alegro em pingos. Todos os dias são domingo. Vou saboreando a beleza da natureza e dos bichos. Conservo poucos e bons amigos.
Sou um fio de rio. Flor que boia. Não para o oceano aberto, mas para um lago manso que eu sinto mais perto. Lago da maturidade. Lago com um banco branco e jardim.
O riacho, hoje, passa lento... dentro de mim.
*******
![]() |
Ela dizia que nem nome tinha.
Os imigrantes portugueses que chegaram ao
Brasil no começo do século passado tinham fama de atrapalhados. Alguns
fatos na minha família reforçam essa pecha de forma irretocável.
Por distração ou esquecimento, meu avô só registrou
minha mãe depois de um ano de seu nascimento. Levou junto a filha mais velha ao
cartório e ao ser perguntado qual o nome da menina, disse Zilda, referindo-se a
filha que trazia pelas mãos. Conclusão: a menina mais nova, minha mãe, que
todos em casa já chamavam de Olga, foi registrada com o mesmo nome da minha
tia, Zilda.
Meu avô, ao chegar em casa, consertou prontamente o
engano do seu jeito prático-lusitano. Riscou com um lápis o nome Zilda, escrito à máquina no documento, corrigindo por cima, Olga. E deu-se por
satisfeito.
Anos mais tarde, quando ingressou no colégio,
minha mãe descobriu que não se chamava Olga, mas na verdade, Zilda. E foi assim
que os colegas de classe e os professores passaram a lhe chamar. Era seu nome
oficial a partir daquele dia, usado em crediários de loja e documentos oficiais.
Mas para a família, continuava a ser a Olga, a Olguinha. Zilda sempre foi e seria a outra filha. Ora pois, não é vovô? Quem é que não sabia?
A confusão aumentou quando saíram os proclamas do
seu casamento no jornal. Meu pai foi avisado pelos amigos do bairro.
Corre lá, Sylvio, avisa que tem coisa errada. Estão te casando com a tua
cunhada! Como bom italiano,
irônico e sorridente meu pai explicava o incidente.
Por essas e outras, minha mãe dizia ter tido tudo na vida, família, filhos e filha. Mas que nome de verdade, de verdade ela não tinha. Não era Olga. Nem era Zilda!
Quando fez seu livro de poesias não sabia o que colocar. Quem sabe uma composição? Mas Zildolga, convenhamos, não seria a melhor solução.
Hoje que ela já se foi, eu sei ao certo seu nome. Podia ter sido Olga, Zilda, Lia, Tereza, Eduarda. Cumpriu tão divinamente sua maternal jornada que seu nome no livro pouco importava.
Mãe, eu lhe chamava. Com maiúscula. Porque Mãe, na forma mais perfeita lhe cabia.
- Mãe! E ela, tal qual Maria, me atendia!
* *
O origami é arte milenar.
Mãos finas e precisas dobram pequenos papeizinhos e formam figuras que representam paz, amor, felicidade.
Não tenho essa habilidade. Não dobro bem lençóis. Minhas pernas já não dobram com facilidade. Imagino dobrar minúsculos papéis com arte e sensibilidade...
Tentei fazer um balão. Ficou torto, em total assimetria. Cheio de varetas e boas intenções. Mas nunca subiu aos céus. Restou-me olhar a arte alheia e ver os pássaros voando ao léu. Não gosto de grandes balões que incendiam casas e arranha-céus.
Também tentei fazer um barquinho de papel. Muito bem dobrado. Ficou razoável e frágil, coitado. Soltei mesmo assim, no rio. Olhando seu navegar vazio.
Lento e cambaleante, seguiu miúdinho, entortando e adernando mesmo em águas calmas. Na primeira curva, parou.
Ah, se tivesse uma criança com um sopro de esperança. Um pescador experiente pra ajudar. Ninguém. O barquinho naufragou por lá. Minha alma tristonha também.
O rio continuou calmo. Em mim, a sensação de fragilidade.
Do barquinho de papel em que me transformei. Origami de minha alma com dobras de dor, amor e humanidade.
Mas retornarei.
Farei um barco mais forte. De madeira de lei.
Levantarei velas. Enfrentarei águas severas. E deixarei fora as mágoas vãs. Serei arte contemporânea, focada no amanhã.
Hoje, ainda sou o velho origami.
De um tímido barquinho que vai...
quando a tardinha cai. E o barquinho vai...
************************
Ela saiu das
minhas mãos. Redonda. Na altura exata para ser tocada pela ponteira e morrer
suavemente na quadra adversária. Última bola. Último ponto. O ginásio vibrava com os gritos dos
estudantes loucos. A faculdade de Comunicação vencia pela primeira vez, em cima
da Educação Física. Deu no Jornal, Davi venceu Golias!
No vestiário, a festa das meninas. Entre gritos, sutiãs e calcinhas. Banhos de água fria, gritos e gargalhadas. Ah, as meninas ficam assanhadas.
Num certo torpor e
sozinha, as lembranças me pegavam na curva do vestiário. Chegavam em flashes do
jogo, ponto a ponto, de mansinho. Dos treinos suados. Das manhãs perdidas de
sábado. As derrotas que me puseram no chão. Alguma dor, contusão. As voltas por cima com a força e a
paixão dos meus vinte anos de músculos e explosão. Tudo gritava em silêncio no
meu peito em meio aos ruídos da multidão.
Com o suor grudado ainda quente e os lances cortantes na mente, acolhi a medalha dourada feito filho no peito. Fim de jogo. Fim da noite. Fim de festa. E aquele gosto de vitória retumbante e tênue que sempre resta.
Vitória que vem e passa. Como tudo, com o tempo que faz os grandes e pequenos feitos deslizarem pela fresta como vento.
Uma volta de carro pela orla da praia foi suficiente para baixar a adrenalina e voltar para casa sozinha. Com a medalha e o cansaço no corpo, olhei minha mãe, que me amaria do mesmo jeito, ganhando ou perdendo.
Ela descansava há tempo num sono profundo e gostoso. Não menos vitorioso, de quem arrumou a casa, fez comida. Sem medalha, nem torcida. Em sua anônima lida.
Acordei-a
com um beijo e um leve sorriso: - Campeã, mãe, eu não disse?
- Eu sabia. Amanhã você me conta tintim por tintim.
E assim, eu fui dormir com a exaustão de quem venceu uma batalha
e a dose de solidão que acompanha todo campeão,
depois da medalha.
**********************************