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domingo, 3 de fevereiro de 2019

GARÇOM, SEM PRESSA...


Nada mais deselegante que garçom plantado na porta do restaurante. Parece estar nos dizendo... Pode vir, mas coma depressa! Já deu a minha hora. Louco pra ir embora...  

Quando é assim eu dou pista e parto pra outro lugar. Afinal, comer é mais do que devorar primitivamente. Com mastigadores dentes. Caças, suflês ou massas ainda quentes. Pera lá! Já evoluímos o suficiente. 

Um bom jantar tem de ter entrementes. Escolher o prato. Esperar chegar. Olhar o entorno do ambiente. A conversa? Deliciosa e reticente... Com muita calma. Saboreada com a alma. Observando o movimento da boca e o brilho no olhar. Não podem faltar inesperados cheiros, temperos, cores e sabores. Sejam simples amoras ou grandes amores.

Um bom vinho também não combina com pressa. Deve ser sorvido lentamente. Durante uma, duas horas ou mais. Minutos imortais. E no final, o tempo para as frutas ou licor, tanto faz. Um jantar pode ser inesquecível. Jamais à toque de caixa. Coisa mais sem graça. 

Por isso, ou escolho um bom lugar ou prefiro em casa o jantar. Lá não temos fila. Nem horário pra terminar. Sentamos em qualquer lugar. Não é preciso reserva para datas especiais. Nem falar francês ou calçar sapatos sociais. A alma sim, deve estar elegante.

E o querido convidado, do meu jantar prolongado, nunca tira a carteira no fim. Só beijos e abraços... Depois, é claro, do pudim.


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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

DÁ A MÃO PRA MIM?


Bastaram poucos segundos. Olhares alegres e miúdos. Pronto! Já eram amigas.  
Qual o seu o nome? Larissa! E o seu? Luiza! O próximo passo foi Luiza sentar-se na areia sob o nosso guarda sol colorido  protegendo a sua pele branquinha do verão escaldante do litoral quarenta graus. Antes, acenou para a avó informando que estava ali, em boa companhia. Agora, com uma amiguinha! 

Pedimos que fizessem castelos de areia. Preferiram fazer bolos. Muito mais simples. E certamente mais gostoso. Escolhi cobertura de brigadeiro, feita com pinguinhos de areia molhada. Ambas sorriram animadas. Agora vamos buscar água?  

Luiza, com sua expressão pura, pediu que Larissa passasse o baldinho para a mão esquerda e segurou sua mão direita com ternura. As duas pequenas caminharam em direção ao mar. Mãos dadas. Duas. Três. Seis vezes. Não colocavam água suficiente, para voltarem mais e mais vezes.

A cena das meninas de mãos dadas ficou gravada em minha mente. Derreteu feito sorvete em  sol quente o meu adulto coração.  Imagino o mesmo encontro, Lulú e Lalá, daqui uns vinte, trinta anos à frente... 

Lulú, empresária bem sucedida, bilingue, solteira. Lalá, casada, massoterapeuta, blogueira... Pediriam, no máximo, para olhar a cadeira. Fariam perguntas por educação. Onde você trabalha? Pra onde viaja? Votou em quem, por favor? Pronto. A amizade acabou. Cancelada! Juntas no mar e de mãos dadas? Nem pensar.

Mas Lulú e Lalá são crianças. Tem sementes de esperança. Preferem fazer amizades e bolos na areia. Não fazem separações.

Amanhã voltarão novamente a se encontrar. De mãos dadas e mergulhar. No mar que continua igual para todos...  
Que saudades da criança que um dia fomos.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A PIPA NA VARANDA...

Dei com uma pipa na minha varanda! Presa no vaso de planta. No alto do terceiro andar! Olhei para a rua. Para o fim da calçada. Para o céu. Para o nada. Nesse instante, a mente voa...

Vejo meu irmão, menino, correndo. Pés descalços. Rua de terra. Com um bando de moleques alvoroçados, atrás das pipas azuis, verdes e amarelas.

Uma delas se desgarrava. Ou algum menino, que de propósito cortava. Lá se ia a pipa rodopiando, caindo em giros tresloucados, por sobre as casas e telhados. E todo o trabalho perdido. Jogado... ruas abaixo. 

Lembro da bagunça na mesa da cozinha. Papeis de seda. Tirinhas. Tesoura. Varetinhas. Goma arábica nunca tinha! A cola era água e farinha, que grudava, deixando pelotinhas. A rabiola era a parte que eu mais gostava. Naquela lembrança eu voava. 

Voltei os meus olhos novamente para a varanda. Agora olho para o outro lado. Vejo Amir e Hassan. Os dois amigos afegãos pelas ruas de Cabul. Também corriam atrás das pipas, sorrindo contentes. Não havia separação. Nem empregado, e patrão.

Cruzaram a esquina do meu prédio e olharam o arranha céu. Amir teve medo. Hassam escalou rapidamente os três andares, catando a pipa e descendo. Feriu os joelhos. Feliz e sangrando, entregou a pipa ao amigo, dizendo: - Por você, eu faria mil vezes! 

As lembranças das Pipas do escritor Khaled Hosseine “Viviam dentro dele como um pedaço gostoso de passado, perfeitamente encapsulado. Uma pincelada de cores naquela tarde cinzenta.”  

Sai do livro e voltei o olhar a varanda. Nem meu irmão. Nem os amigos afegãos! Apenas eu e a pipa na mão. 

Devo guardar? Consertar? Sair correndo e empinar? 

Se o maior presente ela já me deu... Voar! 


*                          *                                                                            

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O AMOR QUE MACHUCA...


Reconheço dois tipos de nordestinos.
Aquele que fala grosso e é talentoso desde menino, como o Lua, Suassuna, Dominguinhos.
E aquele que fala fino. Um tipo franzino de corpo fininho. Mas que dele não se duvide. É cabra da peste, como se fala no Nordeste. Não trate com desdém. Quem tentou, não se deu bem. 

Gilsinho era assim. O melhor jardineiro que já conheci. Bom na tesoura e no cortador. Trabalhava com amor. Cuidava da grama. Arrancava o mato e o espinho da flor. E quando a praga se espalhava pelo chão, fazia uma lenta e perfeita catação.

O problema do Gilsinho não era a preguiça. Muito menos a fé. O problema era "a mulé”! 

Todo domingo, Gilsinho vinha prosear no nosso alpendre e se punha a lastimar. Amo muito a danada. Mulher boa. Só um pouco destrambelhada. Apronta demais quando bebe. E como bebe, a desgraçada. Cuido dela e dos quatro filhos. Nenhum dos quatro é meu. O problema é de madrugada. Larga eu e os filhos e vai pra balada. Já fui buscar ela travada. E ainda por cima, me trai a desalmada.

Ouvimos os tristes relatos, imaginando o desvario da mulher. E Gilsinho completava: - mas eu amo essa bandida! Desgraça na minha vida. E saia cabisbaixo da nossa casa, por entre a grama aparada e as flores do jardim.

No domingo passado, Gilsinho veio arretado dizendo ter encontrado a solução. Agora já deu! - Mandou a mulher embora, Gilsinho? O que aconteceu? 

Quem vai embora sou eu. 
Vou voltar pro nordeste. Sou cabra da peste. Aqui fico mais não. A danada me enfeitiçou. Largar dela eu sei que não largo. 
Mas matar, eu sei que mato! 

Falou com autoconhecimento e as mãos aflitas segurando a tesoura afiada de cortar espinhos.

Faz muito bem. Vai em paz, Gilsinho!


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

CERTOS PODERES...


Nas tardes quentes e alegres no meu quintal, eu falava com os gatos e cachorros. Às vezes, com os passarinhos que descansavam em cima do muro, observando as brincadeiras e preparando o próximo voo.

Eram conversas simples. Mínimas. Sobre bolinhas e bichinhos. Pelos escovados e petiscos. Com os pardais, os assuntos eram mais complexos. Nuvens, planos de voo, tetos. Ninhos. Varais. Telhados vizinhos... Eu sentia o que eles sentiam. Alma de passarinho, sem qualquer tradução. O poder do voo e da emoção. 

Eu também falava com as estrelas. Pedia que cortassem os céus. Na maioria das vezes, elas obedeciam. Até a lua, branca e nua, eu fazia cruzar de um lado ao outro do meu telhado. Demorava horas. Um bocado. Mas eu conseguia.

Outras vezes, impedida de brincar, eu mandava a chuva parar. Tinha comigo um mantra poderoso e familiar. E a chuva me obedecia. Pingo a pingo, ia diminuindo. Até estancar. Eu sabia os poderes que eu tinha. Sem Hogwarts, nem varinhas. Poderes de criança. De Magia. 

Entre eles, tinha o poder de curar. Com remédinhos caseiros e feitiços pequenos. Infalíveis para a minha boneca, pálida, sarar. 
E o poder de libertação. Com uma capa improvisada e uma espada na mão. Eu salvava todo um batalhão. 

Mas foi na adolescência que ganhei o maior de todos eles. O poder do amor. Bastava um olhar enamorado e eu começava flutuar com meu amor ao lado. 

Veio, então, o tempo maduro. Por vezes, duro. Com seus problemas, antenas, sirenas. E um pacote enorme de deveres. 

E eu perdi certos poderes. Da leveza. Do voo. Do encantamento. Ainda falo com gatos, cachorros e pardais. A diferença é que eles, agora, não me compreendem mais.  

E neste esvaziado pacote de poderes que ganhei quando criança, apenas um não posso perder jamais... 
o da esperança!                       


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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O CRAVO E A ROSA


Eles já estavam separados há muito tempo. Ele de um lado. Ela, o mais distante possível. O mais engraçado é que não se separavam. Pelo menos no papel, ainda eram casados. Bodas de ouro indo pra diamante. Mas continuavam distantes. E assim queriam ficar... 

Vivi no meio dessa separação durante quase toda infância e um bom pedaço da adolescência. Santa resistência. Numa verdadeira trincheira ouvindo cada lado reclamar... - Quem falou ? Aposto que foi teu pai! - Quem disse? Foi sua mãe, pode apostar... E assim viveram por longos anos. Em perfeita e harmônica relação. Cada um no seu canto. Casas diferentes. Sem divórcio. Só física separação. 

Até que um dia os dois, distantes, cismaram de ver a mesma novela. Coincidência intrigante. Misteriosa. O Cravo e a Rosa! Sentavam-se todas as tardes em frente à tevê. Cada qual na sua casa. Ambos já aposentados. E punham-se alegremente a ver, divertindo-se um bocado... Ele adorava a Catarina. Ela amava o Petrucchio. Ela é dura na queda, ele dizia. Ele é turrão, ela se derretia! 

Novela de época. Época dos meus pais. Geração dos anos trinta. Dos romances difíceis e muitas vezes proibidos. Virgindade, pudores e medos. Casaram-se tão cedo! Dezoito e dezenove anos. Nenhum dava o braço a torcer. Discutir relação, jamais. Perdoar? Nem pensar. Ainda mais, traição! Catarina, nunca. Petrucchio, não! Eram iguais. Ela dinamite. Ele explosão. E viviam se odiando, com muita paixão!  

Eles não perderam um só capítulo no Vale e Pena Ver de Novo das tardes quentes daquele verão. Sentavam-se, cada um na sua casa, em frente à televisão. Feito a nona e o nono. Cada um no seu canto, solitários. Relembrando a juventude e os erros do passado. Mas torciam juntos por um final feliz... 

Na novela aconteceu! O cravo ficou com a Rosa. Felizes para sempre. Mas com meus pais, foi diferente. Continuaram separados e reclamando até o fim. 
Por isso, hoje, não tenho cravos e rosas nos vasos e janelas. Tenho lírios e bromélias. Vivendo juntos e em paz. 
Nunca gostei  de novelas. Mas tenho uma saudade daquelas... Justo daquela!  



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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O MAR ESTÁ LÁ DENTRO...


A casa era um enorme silêncio. O tiquetaque de um pequeno relógio na parede era percebido por qualquer pessoa que adentrasse a porta seguindo pela sala, chegando até o quarto. Amplo e arrumado. Era o canto de estudos do casal de adolescentes. Lá também havia um silêncio denso. Quase palpável. Profundo. 
Eu já estava acostumada a sentir aquele nada ensurdecedor todas as quartas-feiras, quando ia à casa da família Gorsk para estudar com sua filha Amanda, assim como eu, vestibulanda.
Nem a presença da mãe na cozinha era percebida. Talvez andasse com polainas, sapatilhas ou algo assim. De lã ou cetim. Eram tão suaves. Como toda a família.
Filhos inteligentes e estudiosos. O pai, sempre no trabalho. A mãe quase não falava. Sorria gentil. No final do dia, chás e biscoitos oferecia. Coisa de ingleses, naturalmente. Embora não fossem. Eram poloneses.
Tudo tão diferente da ruidosa realidade onde eu vivia. Rodeada de cachorros latindo. Mãe cantando no quintal. E a tevê sempre ligada em um programa informal. Aquele silêncio semanal era necessário para o meu objetivo traçado e real. E o tiquetaque hipnótico do relógio da sala, marcava o tempo exato para o exame final.
Foi numa das minhas idas compridas ao banheiro, na fria e silenciosa casa dos Gorsk que encontrei em cima de um antigo buffet, limpo, conservado e com muito uso, uma enorme concha na forma de caramujo. A senhora, antes arredia, interrompeu meu olhar dizendo - Ouça o que tem dentro! Fazemos isso todos os dias.
Segurei a bela concha creme e marrom, aproximando dos meus ouvidos. E ouvi, ali dentro, o ecoar das ondas, sentindo por alguns segundos e de olhos fechados, o cheiro do mar internalizado. Um bálsamo entre química, física e incontáveis enumerados.  
Tão lindo e contraditório. A casa em silêncio. Uma família amável e diferente. Que tomava chá da tarde e ouvia um tiquetaque rígido e intermitente. 
Eu jamais poderia imaginar.
Todas as tardes, eles paravam para ouvir o mar.   


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Link abaixo,  para ler  a interessante matéria: Por que ouvimos o som do mar nas conchas?


Foto: Site : Fatos desconhecidos

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