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quarta-feira, 14 de junho de 2017

QUEM MANDA NA CHUVA?.


Era só eu cantar, para a chuva parar. E eu repetia baixinho o refrão:  - Para chuva, para. Para chuva, para, até que ela fosse, lentamente, cessando. Eu, com meu pequeno canto, seguia acreditando dominar a natureza. Devia ter cinco ou seis anos. Tempo de mágicas e algumas certezas.
Hoje não canto mais esse mantra de infância. Nem tenho mais os poderes de uma criança. Mas a minha relação com a chuva continua curiosa. Um misto de tristeza e louvação! 
É nos dias de inverno, frios e cinzentos, de chuvinha miúda e contínua, que minha alma se encolhe. Úmida do nariz aos pés, não faço bem o café. Nem um sambinha triste sequer. Afino. Desafino. Tudo adio. Nada termino. Espero a chuva passar.
Mas as sementes explodem contentes. E minha alma se rende à beleza e ao poder das águas correntes.  
A chuva de verão é minha preferida. Aquela que vem curta e grossa. Bate nas costas. Com seus patacões quentes e esparsos. Estouram na calçada e no asfalto, refrescando o calor e reduzindo o abafo. Depois vai embora, trazendo de volta o céu azul e o sol a brilhar. Com sorte, um arco-íris vem coroar. 
Um dia eu não consegui fazer a chuva parar... Eu cantava na janela entreaberta e a chuva, arredia e esperta, não se deixava dominar. Meu irmão mais velho chegou atrevido para o mantra atrapalhar. E trocando a letra com total descrença, começou a cantar... -Vem chuva, vem! Vem chuva, vem!
Pois não é que a chuva voltou? Forte e intensa. Com gotas de desavença. Pingos de indignação! Que ato traiçoeiro. Chorei o dia inteiro. 
E foram os primeiros raios e trovões, entre dois pequenos e amáveis irmãos.
Não é bom contrariar os deuses da chuva...  Aposto que não!
  
 *                                 *                                      
                             
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quarta-feira, 3 de maio de 2017

DESAPARECIDA! NA ILHA...


              
Podia ter escolhido qualquer uma. Afinal, eram todas iguais. Escolhi a mais fina e comprida. Esbelta. Com a classe imperial das palmeiras. E uma ligeira inclinação para a direita, vista de frente da areia para o mar.

Era ela a minha árvore. A escolhida. Sabe se lá porque cismei de adotar aquela árvore, que para mim se destacava no meio da Ilha Urubuqueçaba, um relicário da natureza no disputado pedaço do litoral. Era confortável olhar para a ilha e saber que a minha árvore estava lá. Esguia e altiva. Toda vez que eu passava de carro, com a urgência urbana de quem corre sem grandes motivos. Ou quando simplesmente caminhava pela areia e a avistava de pertinho. A minha árvore! Firme, forte, verdinha.

Um dia de maré baixa, cheguei ao pé da ilha. Bati com as mãos nas pedras como quem conquista um continente... e olhei para o alto! Nunca a tinha visto assim. Ângulo diferente. Ar de grandeza. Já estava adulta. Temi pela sua soberba, mas logo pude ver nas jovens folhinhas, a mesma ternura e inclinação. Humildade e gratidão. Continuava minha... 

Mas como tudo que é mortal, o tempo traz, o tempo leva. Foi numa segunda-feira. Olhei para o alto da ilha e a minha árvore não estava mais lá. Procurei com os olhos aflitos e o coração apertado. Mas, não. Havia uma fenda em seu lugar. Uma grande fenda no topo da ilha. Muitas árvores devem ter sucumbido lá. Raios? Humanos? Erosão? Fúria de Zeus? 

Só sei que a minha árvore partiu. Como tantas outras que me encantaram. O meu limão cravo, a árvore de kinkan e até o chapéu do sol que o vizinho, imperdoável, derrubou. Ela se foi. Deixando saudades.

Agora se junta à terra de onde veio e simplesmente semeia outras árvores que vão surgir, iguaizinhas... ou melhor, parecidas. A minha árvore era única. A escolhida! 

Ninguém sabia que era minha. Eu sabia.
  

                                     Fenda/Urubuquecaba     fotos: Célia Loriggio
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terça-feira, 18 de abril de 2017

MINAS, CANÇÕES..... E CONTRADIÇÕES



 

Impossível ir a Minas sem levar  as canções do Clube da Esquina.
Fui cantando na mente pela estrada de incontáveis retas e belas paisagens na janela. 

O gado, os campos verdes, Lô Borges, Milton, Beto Guedes. Terra, aço, trem. Ouro Branco, Ouro Preto. Cheguei!

Viagem inesquecível ao passado. Ruas estreitas, bancos de igreja e suas conspirações. Cenário de inconfidência e traições. Muros de pedra e minas de ouro. Minas efervescente. Seguindo sua sina, mineiramente.

Minas dos poetas e amadores. Da fonte dos amores. De Marília e Dirceu. E dos santos das igrejas que criam vida todas as noites com seus cabelos de gente, nos pondo medo no meio da madrugada. Fantasmas barrocos andam impunemente pelas calçadas.

Minas contraditória. De Tiradentes e Silvério dos Reis. Minas reacionária. Das famílias pregadoras da boa moral e  tradição. E Ouro Preto, pecadora, tão linda e anárquica. Das repúblicas de curtição. Do sobe e desce dos estudantes nas ruas, da música e das sombras nuas nos porões.

Os restaurantes finos servem torresmo, arroz e feijão. Tem cachaça doce. E pão de queijo, antes, durante e no final. Culinária “i” mortal! 

Minas da liberdade. Ou não.
Apenas um adulto que balança, esperando o menino lhe dar a mão.

Na janela lateral do meu quarto de dormir, o sino da Igreja toccava todo fim de tarde. A antiga Vila Rica batia forte em meu coração barroco, cheio de amor, canções e arte.

E no corredor do Hotel, os fantasmas de Tomas Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa, perambulavam fazendo suas rimas e poesias em recitais virtuais, ao som de Milton e seus tons geniais.

 Ah, Minas, vou voltar!
A canção sabemos de cor, só nos resta sonhar... 


   

 *    *     *     *      *      *       *        *        



 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

CHORANDO NO PIANO...

 
Minha mãe já sabia. Era batata! Bastava um falar mais alto. Ou um olhar daqueles que suspendem uma só sobrancelha e pronto. Lá ia eu com meus cinco ou seis aninhos, de bico e emburrada, chorar ao lado do piano.
Era o meu refúgio aquele piano amigo e antigo que ficava no final da sala e que me abrigava de um jeito acolhedor, do lado da parede onde ninguém podia me ver. E era sempre a mesma cena. Ia chorar? Corria atrás do piano! 
Os motivos eram tantos... Dos mais sérios aos mais amenos. Uma repreensão boba qualquer. Uma nota baixa na escola. Algo que saiu errado. Ou muitas vezes, uma injustiça!  E toda vez que um bicho morria e eu não podia fazer nada para impedir.
O piano era a rota final e a nota triste do dia. Foram muitas, inúmeras as vezes que escondi minhas lágrimas naquele cantinho e devo confessar que ainda hoje, muitas vezes, sinto vontade de correr e chorar atrás do piano.
A gente cresce. Amadurece. Endurece. E os motivos parecem os mesmos. Numa escala de menor pureza, talvez. A palavra que agora fere mais fundo. A injustiça no trabalho. A decepção de um velho amigo. E a perda... Ah,  as perdas da vida madura. Vão se todos! Os bichos, os melhores amigos, os parentes chegados, os pais...  
A gente envelhece e não tem mais o velho piano, Nem para acolher. Nem pra confortar. Esconder não precisamos mais. O piano agora é só uma memória de criança de uma música triste que tocou lá atrás. A gente agora, segue de dor em dor, correndo ligeiro.            
E não temos mais tempo... e nem piano por perto, pra chorar!

*                        *            *                                                                                                               


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quarta-feira, 29 de março de 2017

PÉ NO PRETO... PÉ NO BRANCO...


Pé direito no preto. Pé esquerdo no branco. Direito no preto. Esquerdo no branco. Atenção pra não errar.
Na minha infância de rua, o desenho das calçadas Copacabana se transformava num grande tabuleiro. Nele a garotada pulava sete casas até o céu. Pisava até dez, numa só cor. E seguia rente as curvas do mosaico feito carro a cem por hora! Cento e cinquenta, duzentos, mil...       
Os números enfeitavam a nossa infância e criavam proporções mágicas. 
Era um só lobo mau e três porquinhos. Sete, os anõezinhos. E cem dálmatas para latir e brincar! Dez mandamentos para ler. E quanto doze pra decorar... Doze apóstolos. Doze meses e doze signos. Doze horas para a metade do dia acabar.   
Sorte mesmo, era os treze números acertar! Azar do Ali Babá, que tinha ao lado, quarenta ladrões. 
Os números iam ganhando vida, ainda sem muita importância ou ambição. Quem nunca contou carros brancos na rua? E os Fuscas? Os pneus abandonados na via? Quem nunca contou estrelas no céu? E as centenas de carneirinhos na cama, sem pregar um olho a noite toda?                             
Os números estavam por todos os cantos. Mas não era má, a matemática. Era só número bom. Número de brinquedo. Número de magia. Números que só faziam sentido em cada jogo. Em cada história.                                                                  
Hoje, números chatos insistem em nos rodear. E eles não brincam mais. Toda hora, nas tevês e nos jornais, os números assustam cada vez mais. Número do desemprego. Número da Taxa de juros. Números da Selic. Tem ainda o RG, o CPF, número do PIS...
Número de anos pra se viver. Número de anos pra se aposentar.
Melhor é voltar pra calçada. Pé no preto, pé no branco. Um dois, feijão com arroz. Porque lá, os números são amigos. 
E a qualquer momento, a gente pode parar de brincar!

 *                    *                     *                                                

 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

NA PASSARELA... DO HOSPITAL

 
Sábado de carnaval. Não me levem a mal, mas não era ali que eu queria de estar. Ala dos enfermos e cardiopatas. No meio de anginas, taquicardias e infartos do miocárdio. Pressão muito alta!  
Na entrada, o bloco do avental azul, cada um com seu paciente na maca. Abriam alas e salas, desfilando na passarela do velho hospital. Meu coração batia feito tambor. Ansiedade pedindo passagem...Veio a ala dos doutores. De branco, com seus adereços de mão. Estetos, medidores de pressão, pranchetas e papéis de exames. Era uma ala de respeito. Mestres da velha guarda com seus cabelos grisalhos. Deu um certo sossego.
A ala mais simpática era a das enfermeiras. Algumas delas, cheinhas, com seus jalecos brancos, cruzavam de lá para cá com leveza e boa evolução. Tudo dentro da marcação dos eletros. Compassos monitorados. Tum-taques perfeitos e desejados. Pra ninguém entregar os pontos na avenida!
Do lado de fora e com o coração na mão, eu acompanhava o senhor Antonio tentando manter a pressão, focando no piso da passarela. Eu passeava de lá pra cá, decorando a sequência dos velhos azulejos portugueses que iam dar na ala da nova guarda do hospital, em piso xadrez azul e branco bem atual.
No final da bateria, a arritmia não passou de um susto. Estresse desta vida insana e da competição desmedida. Soma fatal de metas, rapidez e perfeição. Pobre coração. Agora um rivotril, aspirina e tudo fica bem. A partir de agora, vida Zen!
A carnafolia no hospital terminou no batuque frenético do plantão central. Sem plumas. Nem confetes. Só tubos e catéteres. No final, alegria geral. Evolução nota dez! 
Estamos de alta, comentei com o Senhor Antonio, ainda na maca... Eu vou lembrar do chão desta passarela. Seo Antonio olhou para mim e depois olhou pro alto como quem fala com Deus um papo reto ...
- Eu vou lembrar só do teto! 
 
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O QUE TOCAM... OS ANJOS?

  

O som dos sinos quando dobram, se multiplicam dentro de mim. É coisa por dentro. Reverbera na alma. E nesse ritmar retumbante, imagino sempre que tipo de anjo deve tocá-los... Um anjinho solitário, acredito. Anjinho daqueles gordinhos de cara triste, que pendurado numa corda, pula de lá pra cá fazendo soar o campanário. 

Acho que é porque esses anjinhos que tocam sinos de igreja ouvem muitas queixas...Gente que perdeu gente querida. Gente que faz promessas para curar doenças. Gente que sofre por pouca ou muita coisa. E outros temas mais complicados. Por isso eles são assim... Ágeis, porém introspectivos. Como os sinos dobrando dentro de mim. Já os anjinhos mais alegres devem tocar trombetas. Os intelectuais, harpa. Nunca imaginei um anjinho tocando um som pesado. Talvez esses não sejam anjinhos ainda. Mas chegarão lá! 

O fato é que nunca vi tanto sino de igreja... Novos, velhos, enferrujados, pequenos, imensos. Nem tantos trens de ferro, quanto na viagem por Minas Gerais. Era assim... O som dos sinos ao meio-dia e às seis da tarde, repicando em meu peito. E o som dos trens chacoalhando todo o corpo e me levando por trilhos desconhecidos, em linhas paralelas no pensamento... Mas, diferente dos sinos, não tinha anjo nas locomotivas. Tinha sim, o velho maquinista, seguindo seu caminho, soltando a fumaça branca e desaparecendo na curva. Deixava na gente somente o som do apito longo e doído... E uma nuvem branca subindo, simplesmente, no azul do céu! 

Aí sim, um anjinho, lá em cima, soprava forte e sorridente. tocando, talvez... clarinete!