O cheiro cítrico não saía dos dedos. Impossível comer as mexericas em segredo.
As mangas também faziam alarde. A Bourbon deixava nos dentes, fiapos em forma de grades. E a manga rosa com seu suco amarelo deslizando do punho ao cotovelo. Lamber era o jeito barato, para não manchar o pano de prato.
As frutas nos divertiam com suas fatias e fantasias. Faziam a família sorrir.
Minha tia me apresentou o caqui. O caroço quebrado ao meio e a surpresa de achar dentro dele, os talheres da mesa. Garfo, faca ou colher? O que vier.
Só não gostava do caqui chocolate. Pegava de surpresa. Na primeira mordida, o travo de aspereza.
Banana, quem não ama? Os cachos, a cor amarela e o descascar insinuante que a desvenda por inteira, nua! Frita, amassada ou crua. Deitada sob o sorvete, com cobertura. Pura escultura.
E a melancia, sorrindo com gengivas róseas? Aquosas e deliciosas.
Meu pai era craque em descascar laranjas. Era quase perfeito. Com a faca deslizando num ato contínuo em circulares movimentos. Ele ia criando os anéis-laranja de cima até embaixo. Restava a casca inteira e vazia. O miolo, a gente comia. Ou espremia.
Frutas flertam com brincadeiras. Quem nunca roubou uva na feira? Não estourou com a mão o caroço do mamão? Capelinha de melão é de São João.
Deus estava alegre na hora de criar essas frutas divertidas, boas também na sobremesa. Para o Natal, criou cabinhos chiques nas cerejas.
Eu nunca me dei bem com o abacaxi. Sofria para descascar, sabendo que a vida, tal como a casca, algum dia iria machucar.
Mas, agora não é hora. Vamos de doces amoras.
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