Reconheço dois tipos de nordestinos.
Aquele
que fala grosso e é talentoso desde menino, como o Lua, Suassuna, Dominguinhos.
E aquele
que fala fino. Um tipo franzino de corpo fininho. Mas que dele não se duvide. É cabra da peste, como se fala no Nordeste. Não trate com desdém. Quem tentou, não se deu bem.
Gilsinho era assim. O melhor jardineiro que já
conheci. Bom na tesoura e no cortador. Trabalhava com amor. Cuidava
da grama. Arrancava o mato e o espinho da flor. E quando a praga se espalhava pelo chão, fazia uma lenta e perfeita catação.
O problema do Gilsinho não
era a preguiça. Muito menos a fé. O problema era "a mulé”!
Todo domingo, Gilsinho vinha prosear no nosso alpendre e se punha a
lastimar. Amo muito a danada. Mulher boa. Só um pouco destrambelhada. Apronta
demais quando bebe. E como bebe, a desgraçada. Cuido dela e dos quatro
filhos. Nenhum dos quatro é meu. O problema é de madrugada. Larga eu e os filhos e vai pra balada. Já fui buscar ela travada. E
ainda por cima, me trai a desalmada.
Ouvimos os tristes relatos, imaginando o desvario da mulher. E Gilsinho
completava: - mas eu amo essa bandida! Desgraça na minha vida. E saia
cabisbaixo da nossa casa, por entre a grama aparada e as flores do jardim.
No
domingo passado, Gilsinho veio arretado dizendo ter encontrado a solução. Agora já deu! - Mandou
a mulher embora, Gilsinho? O que
aconteceu?
Quem vai embora sou eu.
Vou voltar pro nordeste. Sou cabra da
peste. Aqui fico mais não. A danada me enfeitiçou. Largar dela eu sei que não
largo.
Mas matar, eu sei que mato!
Falou com autoconhecimento e as mãos aflitas segurando a tesoura afiada de
cortar espinhos.
Faz muito bem. Vai em paz, Gilsinho!
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Adorei.. a valentia e a sensibilidade do homem nordestino..
ResponderExcluirBem sensata a decisão do jardineiro..
Todo "arretado" tem seu limite... rs bjs
ExcluirUaaaau, dramas do cotidiano! Muito bem retratado! 👏🏻👏🏻👏🏻😘🌹
ResponderExcluirDrama mesmo, Carlos... Gilsinho era prisioneiro daquele amor... abraço!
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