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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

NO ESPELHO É MAIS FÁCIL...


Ela ensaiou horas diante do espelho. Decorou frases de efeito tiradas de um livro de autoajuda perfeito. Buscou as palavras mais duras. Um misto de amor e amargura. Uma conversa sem freios ou rodeios. Flechas certeiras no coração do ex-companheiro.  

Planejou um choro discreto. Muito equilíbrio e um resto amargo de afeto. Era o discurso perfeito para um encontro casual. No saguão do restaurante habitual ou no caminho do toillete. 

Imaginou-se de vestido leve, salto alto e olhar sexy. Ele, com ar de cansaço, desgosto, saindo do trabalho e uma expressão de arrependimento no rosto.

Finalmente Beatriz diria o que tinha guardado por anos. A dor da traição. A solidão e o desabar dos seus sonhos. O quanto foi cruel o parceiro, desprezível e desumano. Nem os cinco dias, dois meses e seis anos, tinham conseguido apagar. 

Não foi assim que se deu. 

Naquele sábado tumultuado ela entrou no mercado do seu Nereu. Bermuda velha, chinelo velho e cabelo que ela mesma prendeu. 
Ele, estacionou em frente com sua Mercedes, reluzente. Terno elegante, ar de contente e um par de óculos escuros. Os dois enfim se cruzavam, agora mais maduros.

- Beatriz? 
- Joa...quim!
- Parece nervosa. 
- Bobagem. Estou bem... bem feliz. 
- Que ótimo, estou com pressa, muita pressa! 
E partiu, dando um beijo frio em sua testa.

Beatriz engoliu todas as palavras pensadas e treinadas, por mais de seis anos, dois meses e agora, seis dias. 

A vida, é sem ensaio, Bia. 


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A FLOR GUARDADA

Entre as páginas amarelas e o cheiro de papel envelhecido encontrei a flor presa e amassada. 

De aparência seca e desmontada, mas ainda flor, embora o tempo lhe tivesse roubado a cor.

Passei a mão com cuidado, como se acariciasse um pássaro, frágil. Tentei lembrar por que a guardei. De quem era? Em que momento da minha vida ela se tornou tão  importante para ser preservada? O silêncio alto me incomodava.

Aquela flor sem história não me dizia nada e carregava tantas possibilidades. Lembrança de um encontro no passado? Onde as palavras foram sufocadas e nas páginas, lacradas? Uma paixão breve que deixou seu rastro leve? 

Quem sabe, um presente da natureza! Uma flor caída no caminho se dissolveria num jardim vizinho e eu não a deixaria para trás. O livro, então, tornou-se um cofre. Um abrigo onde o tempo não iria tocar. 

Ou simplesmente por nada. Eu, criança, tentando esconder a flor roubada. Maldade infantil para ver, um dia, suas pétalas amassadas. 

Seca, prensada entre as palavras, a flor guardou sua história dentro de outras histórias. O dia em que foi colhida e a luz do sol que brilhava no dia que sumiu no livro e hibernou.

Eu continuo olhando a flor, murcha e dormente. Nós, humanos somos assim. Guardamos coisas sem motivo aparente e esquecemos as mais importantes. 

Fechei o livro. Deixei a flor onde estava. Quieta e deitada, sem interferir.

Não quis movê-la do lugar, como se respeitasse sua missão...  de me fazer sentir.


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