Todo dia, a mesma cena. Ele chega na esquina. Rosto
fechado. Coloca a mochila junto ao poste e liga pelo orelhão. E como fala alto. Muito alto. Todos no prédio escutam, principalmente eu, no terceiro andar, com
a janela dando pra rua.
Na primeira vez que ouvi o sujeito, ele discutia
fortemente com o patrão.
Tinha um dinheiro pra receber e parece que a coisa
estava amarrada. No fim da conversa, declarou que a situação ia ficar feia e
ameaçou-o duramente, caso o tal dinheiro não chegasse a tempo. Só aliviei
quando ele bateu o telefone, pegou a mochila junto ao poste e partiu.
Passados uns dias e ouvi a voz do tal homem. Agora falava com a filha. Dizia: - eu
sei, eu sei, mas não vai dar. Não posso este mês. Tenho umas coisas pra
resolver. Mês que vem eu vou tentar. Não chora não. Um beijo do pai. Mais uma
vez, vi o homem deixar o orelhão, pegar a mochila e partir.
Na semana passada
foi mais engraçado, ele ligou para o delegado.
Dava grandes broncas. Dizia
que estava sendo prejudicado e que assim não era possível! Pedia ajuda ao
delegado, senão o caldo iria engrossar...
Eu estava saindo do prédio
e perto da guarita sorri para o meu porteiro que vendo o homem já ao longe, emendou: - esse aí é o maluco do orelhão! Vem todo dia aqui. Todo mundo já conhece o
coitado. Fala com a filha, com a mulher, pede dinheiro emprestado e hoje deu
bronca no delegado. Imagina se fosse de verdade!
Sorri levemente e fui
seguindo pela rua, achando mais do que graça, uma baita tristeza e
consternação.
Quem sabe, o maluco do orelhão tenha encontrado o único jeito...
de
fugir da solidão!
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Aaaalô... Eu precisava de um telefone... me lembrou a letra de um certo Jingle de uma empresa de telefones de Santos, há um tempo atrás. Mas, à sério, cada um dá um jeito na sua solidão. Pra refletir. Ótimo texto.
ResponderExcluirNossa, triste maneira de “sobreviver”!
ResponderExcluirÉ. Triste. Coitado do mochileiro.
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