Um assovio alegre. Muito alegre. Repetido várias
vezes. Por dias. Por meses.
Durante uma reforma infindável no meu
apartamento, tive que morar por um tempo numa casa emprestada. E com um vizinho de muro colado. Jardim com
jardim. Quintal com quintal. E a mesma
caixa postal.
Tudo era aceitável naquele improviso temporário. Até que, no
silêncio da manhã, uma alegre marchinha de exército americano alguém começou a
assoviar... lála, lalalala lala, lála! Um
rapaz? Um soldado? Um velho desocupado ensinando um papagaio? Dormi mais um pouco, embalada
pelo assovio intermitente.
Veio a
noite. E o assovio novamente. Lála, lalalala lala, lála... E era irritantemente contente. A mesma alegre melodia. De manhã. De noite. De repente!
Fui perguntar aos
vizinhos, na esperança de mais algum descontente. Ninguém ouvia. Todos
indiferentes. Toquei várias vezes a campainha do vizinho feliz, mas nunca
encontrei ninguém. Olhei pelo muro. Vigiei a porta e a janela para ele não
fugir. Mas não via o vizinho chegar, nem partir.
E ficamos assim. Dias.
Semanas. Um mês. Dois meses. O mesmo assovio, dia e noite, feito açoite!
Até que no mês de dezembro, voltei pro meu apartamento. Novinho em folha. Tão belo.
E tão... sem ninguém.
Estou lá há uns três meses e às vezes, bate aquela
solidão. É aí que de manhãzinha, eu confesso que sinto falta. E apelo, assoviando descaradamente... lála, lalalala lala, lá la.
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