terça-feira, 11 de abril de 2017

RESENHA DO MÊS: TINHA TUDO PARA CORRER MAL

          ... PARECE QUE DEU CERTO!
Feito uma viagem no tempo!  O livro resgata, de início, aquela atmosfera rústica e romântica dos bastidores do rádio no final dos anos 60, em Portugal...  
O clássico aquário de vidro separando os estúdios de locução e operação. Equipamentos analógicos para gravação.  E no microfone, um “miúdo de voz grave” que chamou a atenção dos amigos pelo timbre adulto, fazendo o seu primeiro teste de locução, aos 14 anos...  Mal sabia o jovem Luís que naquele cenário passaria as próximas noites, tardes e manhãs de sua vida... E mais. Estaria ali, participando do mundo mágico do rádio, com todos seus sonhos despertos. Músicas. Notícias. Encantos e desencantos...
O livro conta como foi sua primeira participação ao vivo no rádio, tendo que ler um texto escrito por outros jovens, sobre quatro cabeludos de Liverpool que começavam a se destacar... 
“... foi sobre o álbum branco“ The Beatles”. Tinha sido lançado em Londres uma semana antes, em novembro de 68... era, na música pop, a obra mais marcante daquela temporada...
E o caminho do jovem locutor estava só começando. Com direito a penosas madrugadas correndo atrás das notícias ou de um simples café confortante.  Juventude. Ousadia. O som dos Beatles... E tudo já começava a correr melhor do que ele poderia imaginar.
Aos 16 anos já estava profissionalizado. Com cartão de locutor e número de funcionário 309 da Emissora Católica. “ ... A fazer o pior horário do mundo: da meia-noite às seis da manhã, dia sim, dia não...”.
Aos 18 anos, foi promovido a noticiarista da Radio Renascença, que vivia um clima de vanguarda e liberdade, com programas  de contestação... “ o que levou a estação a ser vigiada de perto pela censura” . Foi com a saída de alguns renomados locutores, que mesmo jovem e ainda inexperiente, passou a produzir o programa Página 1.  “ ...considerado o melhor da  Rádio Renascença com cunho altamente jornalístico”.
As tensões se acentuaram com a Revolução dos Cravos, em 74. As notícias então, tinham que passar previamente por todos os funcionários. E os jornalistas que boicotaram essa deliberação, foram despedidos. Assim começava um novo caminho para o jornalista...
Passou por jornal e agências de notícias, com viagens à França, Brasil, Reino Unido. A partir de 81, volta para o rádio. Mais maduro, passou a ser chamado de “ impecável e implacável”.
Em 86, a grande virada...
O jornalista percebe que as empresas que movimentavam milhões e faziam negócios com muito êxito não sabiam se comunicar, principalmente com a imprensa...  eu que era apenas jornalista, tinha que me transformar numa espécie de consultor... em paralelo ia recebendo ligações de agências de marketing e serviços..
Aos 31 anos, cansou de ver a sua carreira andar em altos e baixos. Os governos, assim que entravam,  mudavam chefias,  adequando-as aos seus gostos. Luis Paixão Martins decidiu então mudar de vida: de jornalista passou a consultor de comunicação ou assessor de imprensa, criando a LPM.  “ Não eram cocktails, nem  festas. Mas bastidores, dossiês e estudos”.  
Os primeiros projetos foram para grandes marcas. Depois, o universo foi se expandindo para a política, com as candidaturas de Sócrates, em 2005, e a de Cavaco Silva, em 2006, ambas vencedoras. Chegou a ter um clube de futebol na sua carteira de clientes, o Futebol Clube do Porto. Luis Paixão Martins se tornava, então, o mais referenciado consultor de imagem de Portugal.
Destaques... O livro detalha os bastidores do caso de Sócrates, onde teve que lidar com o rumor de que o então líder socialista era homossexual. E no Futebol Clube do Porto, no caso Apito Dourado, onde o desafio foi resgatar a reputação do Clube, arranhada pela ex-namorada do presidente, Carolina Salgado.
Hoje, afastado voluntariamente da LPM, Paixão Martins dedica o seu tempo ao News Museum, em Sintra. E também, com muito fanatismo,  ao seu clube de coração, que não é o clube do Porto, e sim, o Sporting!
Tinha Tudo para Correr Mal - Memórias de Um Comunicador Acidental  (da Chiado Editora) é um partilhar de experiências. Pelo menos, daquilo que pode ser contado pelo criador da “public relations” em Portugal. Uma leitura que vale a pena para aqueles que se interessam pelos bastidores da mídia e a comunicação em geral.  
E se tinha tudo para correr mal... Parece que deu certo!  E tudo começou no rádio , de madrugada, ao som dos Beatles , numa daquelas “ hard day’s nights”!
Título: Tinha tudo para correr mal
Autor: Luís Paixão Martins
Data de publicação: outubro/2015
Páginas: 164
Coleção Bios
Gênero: biografia
 
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